“Goleiro é uma posição tão ingrata que onde ele pisa não nasce grama”. A máxima cunhada pelo filósofo da bola Neném Prancha ganha tom de maior veracidade quando aplicada aos últimos anos do futebol paraense. Diferente de outras épocas, quando o camisa 1 local era bem mais valorizado, hoje, são contados nos dedos os goleiros que conseguiram superar a desconfiança do torcedor e se firmar nos principais clubes, sobretudo na dupla Remo e Paysandu. Até mesmo equipes de porte médio têm preferido investir na vinda de goleiros de outros centros, colocando o jogador local em segundo plano.
Das 10 equipes que disputam o atual Campeonato Paraense, de acordo com levantamento feito pelo Bola, apenas duas delas - São Francisco e Tapajós, ambos de Santarém -, possuem goleiros locais, no caso Jader e Paulo Rafael. Em Remo e Paysandu, os goleiros locais, todos saídos da base, não passam de meros figurantes, já que tanto o titular quanto o seu reserva são atletas de fora do estado. No caso do Paysandu, Emerson e Marcão; e do Leão, Fernando Henrique e Douglas Borges. Um quadro que contrasta com o futebol local de outras épocas, quando chegou a ter o goleiro Édson Cimento premiado com a Bola de Prata, da revista Placar, uma espécie de Oscar do futebol nacional.

Atual treinador de goleiros do Remo, Edson Cimento ganhou o bola de prata em 1970. (Foto: Mário Quadros/Diário do Pará)
O próprio Cimento chegou a conviver, em sua época de Tuna Luso, na década de 1970, com outros três grandes goleiros no mesmo elenco: Reginaldo, Matheus, já falecido, e Ribamar. “Hoje não há mais a revelação de grandes goleiros como naquele tempo”, constata o ex-goleiro. De acordo com os profissionais envolvidos na preparação dos goleiros locais, o jogador local precisa superar barreiras, como a cobrança demasiada do torcedor, por exemplo, para chegar a titularidade. “Muitas das vezes também não existe uma boa preparação desses atletas na base dos clubes”, aponta o ex-goleiro Ronaldo.
A lista de goleiros revelados no futebol local nos últimos dez anos é diminuta, contando com Ronaldo, Paulo Rafael, André Luis, Ivair e Paulo Wanzeller. Isso, porém, não é capaz de desestimular aqueles que sonham em um dia vestir a camisa número 1 de Leão e Papão, principalmente, como é o caso de André Felipe, terceiro goleiro do elenco remista.
FALTA DE TOLERÂNCIA
Há quatro anos trabalhando na base do Paysandu, especificamente na preparação dos goleiros, José Ribamar, popularmente conhecido como Índio, reconhece que a carreira do goleiro local é sempre muito mais difícil. Segundo ele, a desconfiança com o atleta da posição formado nos próprios clubes não se resume ao torcedor. “Os próprios dirigentes dão preferência à vinda de jogadores de fora”, aponta. “É muito difícil para um goleiro daqui conseguir superar essa desconfiança”, completa. Índio, que chegou a atuar como goleiro da base do Sport Belém, e dá como exemplo Paulo Rafael.
“O Paulo que é um grande goleiro, vinha bem, mas a partir do momento em que cometeu algumas falhas passou a ser questionado por todos”, diz Índio, dando a entender que caso a situação ocorresse com algum profissional importado, a tolerância seria maior. “Por isso o goleiro local tem de ter muita força de vontade. Ele precisa superar a desconfiança do torcedor e ter personalidade para encarar os momentos ruins. Só assim ele consegue se firmar nos nossos times”, avalia.
O preparador aponta o goleiro Paulo Ricardo, que é natural do Rio de Janeiro, e Léo, nascido em Belém, como boas promessas do Paysandu. O preparador, de 45 anos, ressalta, ainda, que falta um pouco mais de atenção dos clubes locais com a base, que acaba sendo prejudicada por isso. “Com um apoio maior nossos clubes poderiam, sem dúvida, revelar uma quantidade bem maior de grandes goleiros”, imagina Índio. (N.L)
DISCRIMINAÇÃO?
A histórica vitória do Paysandu diante do Boca Juniores, no dia 24 de abril de 2003, em plena o estádio de La Bombonera, ficou marcado na carreira de Willis Gomes Dias, conhecido no futebol como Ronaldo, apelido que ganhou devido a semelhança com o ex-goleiro do Corinthians-SP. Até hoje, por onde passa, o ex-arqueiro, nascido em Breves, é festejado pelos torcedores bicolores. Mas este não foi o único grande feito do ex-jogador. “Aquela partida marcou muito. Embora tenha conseguido outras conquistas, o torcedor lembra muito mais daquele jogo”, diz Ronaldo.
O ex-goleiro, por quatro anos trabalhou como preparador de goleiros no Papão, recorda ainda os títulos estaduais de 2005 e 2006, quando ele se transformou no “pegador de pênaltis” da Curuzu. “Foram outros grandes momentos, situações inesquecíveis”, afirma. Com tanta experiência, o ex-jogador, cujo início da carreira se deu no Sport Belém, pode falar com autoridade sobre a formação de novos goleiros no futebol prata da casa. “Acho que os goleiros locais têm de ter uma atenção maior na base. Só assim eles podem chegar ao profissional em condições de brigar pela titularidade”, salienta.
Ronaldo admite que o goleiro vindo da base, tanto no Paysandu como no Remo, sofre uma pressão maior. “Vivi isso. Sei que a torcida visa muito o jogador de casa”, garante. “Quando o time não está num bom momento aí é que as cobranças aumentam. Peguei as duas fases, a boa e a ruim, no Paysandu”, recorda. Segundo o ex-goleiro, os treinadores, normalmente vindos de fora, não têm má vontade com o goleiro local. “O treinador só lança goleiro que tenha qualidade, independente de onde ele tenha vindo. É uma coisa de convivência, observação nos treinos do dia a dia. Não acredito que exista discriminação”, arremata Ronaldo. (N.L)
(Nildo Lima/Diário do Pará)
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