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ESPORTE PARÁ

Judocas paraenses tem mesmos sonhos e dificuldades

“Tinha dias que eu não tinha nem o dinheiro para pagar a academia. As dificuldades sempre foram muitas, mas nunca pensei em desistir”. Esse depoimento é muito parecido com uma parte da história da única atleta que ganhou medalha de ouro para o Brasil nos

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“Tinha dias que eu não tinha nem o dinheiro para pagar a academia. As dificuldades sempre foram muitas, mas nunca pensei em desistir”. Esse depoimento é muito parecido com uma parte da história da única atleta que ganhou medalha de ouro para o Brasil nos Jogos Olímpicos até agora, a judoca Rafaela Silva, que encheu o país de orgulho na última segunda-feira (8) e principalmente a comunidade de onde saiu, a Cidade de Deus, por muito tempo considerada uma das mais perigosas do Rio de Janeiro.

Mas, na verdade, o discurso é de Valdirene Santos, de 36 anos, moradora do bairro do Telégrafo, em Belém. Assim como a campeã olímpica Rafaela Silva, a judoca paraense, que já participou de inúmeras competições, por muito tempo precisou vencer não somente a dificuldade financeira, entrave comum para atrapalhar a presença da atleta em algumas competições, como também precisou vencer o preconceito e a desigualdade social. “Tem vezes que eu tenho que ir fazer rifa mesmo, para poder participar das competições, ou algum professor e até mesmo os amigos me ajudam financeiramente. Não é fácil se manter nesse esporte, afinal é preciso de um investimento financeiro que poucos têm”, revelou a atleta, com os olhos marejados, que para seguir em atividade reveza entre os treinos pessoais na Associação Souza e Filho de Artes Marciais (ASFAM) e aulas como professora, em uma academia da cidade. “Quando o aluno tem o dinheiro para pagar, ótimo, mas quando não tem a gente vai dando o jeito”, releva.

Valdirene segue sonhando com outras competições, e fazer parte da seleção brasileira é uma das principais metas. Lá, ela tem um espelho, Rafaela Silva, que é exemplo para muitas atletas brasileiras que sonham em realizar o desejo de representar o Brasil em grandes competições. A inspiração, no entanto, começou muito antes do ouro conquistado pela brasileira.

A história da carioca no esporte iniciou na comunidade Cidade de Deus, onde lá os pais a levaram ainda pequena para treinar, simplesmente por uma questão de disciplina. Rafaela é a primeira mulher brasileira campeã mundial de judô, título conquistado em 2013, no Mundial disputado no Rio. Naquele ano, a competição ocorreu no ginásio Maracanãzinho, mas foi nas olimpíadas de 2012, em Londres, quando Rafaela tinha apenas 20 anos, que ela quase decidiu encerrar a carreira após uma derrota.

A judoca vencera a primeira luta e estava em vantagem contra a húngara Hedvig Karakas, mas foi desclassificada por um golpe ilegal, por ter iniciado um ataque diretamente pela perna da adversária, o que havia sido proibido por uma mudança de regra três anos antes. A campeã só voltou a vestir o quimono quatro meses depois, para agora em 2016 mostrar o sentido da persistência para quem é apaixonado pelo que defende.
“Conheci a Rafaela em um Brasileiro que participei em Natal, em 2013, quando cheguei a enfrentar a irmã dela, a Jéssica, e ali mesmo nos bastidores confirmei a pessoa humilde que ela é. Sonho em um dia defender o Brasil em competições fora e tenho certeza que nunca será tarde”, projetou Valdirene.

Atletas denunciam discriminação dentro e fora do tatame

Aos nove anos, Adriana Cardoso, hoje com 22, precisou fazer um teste em uma academia de artes marciais próxima de onde mora para poder treinar judô. Ela relembra que a prova foi uma seletiva para que ela tivesse direito à bolsa e não pagasse as aulas. A grana curta fez com que um professor se solidarizasse e investisse na atleta.

“Fiz o teste e fiquei por 13 anos nessa academia. Aqui na Asfam estou há pouco tempo e a faixa marrom ainda me faz refletir sobre a responsabilidade que uma faixa preta tem que ter”, declara a atleta frisando ainda que essa responsabilidade é inspirada em outras atletas brasileiras, em especial a campeã olímpica, Rafaela Silva. “Ela é um grande referencial, com certeza”, destacou Adriana.

Com a vida dedicada ao judô, Adriana poderia encarar o exame da faixa preta, mas além da responsabilidade, o investimento para a graduação também influencia na decisão de ainda não subir de patamar. “O exame para a faixa preta é realizado pela federação, e é preciso ter dinheiro para pagar”, explica Adriana, que não esmorece. “Temos dificuldades maiores para enfrentar. O preconceito dentro do esporte ainda é um deles, já que o simples fato de ser mulher parece incomodar os outros que dizem que esse não é um esporte para o público feminino, mas isso já nem me incomoda, minha mãe faz um esforço absurdo para me ajudar nas competições, e é isso que importa”, detalha.

Assim como Adriana, a judoca Beatriz Silva, 18, não esconde o orgulho e as dificuldades que andam de mãos dadas na caminhada de uma vida com o judô. Ela, que teve que optar quando ainda era criança pelo esporte, trocou a sapatilha de balé pelos pés descalços no tatame e ainda teve que lidar com a indiferença da família. “Minha mãe queria mesmo era que eu fizesse balé, mas hoje ela entende que esse esporte é tudo em minha vida”, ressaltou a jovem, comparando a vida de Rafaela Silva com os desafios enfrentados por ela. “Assim como Rafaela, eu também venho da periferia e quando ela perdeu em Londres eu me identifiquei bastante, porque sempre ouvia de algumas pessoas que eu não conseguia ganhar nenhum torneio. Precisei passar inclusive por ajuda de psicólogos”, revela Beatriz.

Beatriz faz o último ano do ensino médico, e divide os estudos com os treinos diários. Tudo isso, para conquistar outros títulos. “Já competi no brasileiro de 2012, jogos escolares de 2013 e fui 3° lugar no brasileiro regional em 2014, e ainda quero muito mais”.

Judoca mudou até de cidade só para treinar

Participações em campeonatos regionais, seletivas para o sul-americano e Brasileiro Regional onde já foi medalha de ouro. Por falar em medalha, são muitas as que a judoca Lilian Amaral, 19, tem. Ela começou a treinar aos seis anos. Desde então, dedica parte do tempo para aprimorar as técnicas e fazer jus à sua faixa preta.

Nascida em Macapá, ela se mudou para Belém há menos de um ano e o que trouxe a atleta para a capital paraense foi o amor pelo esporte. “Vim para Belém com uma proposta de treinar em uma academia, e como a minha vida é o judô decidi vir. Quando não estou dando aula, estou tendo aula e treinando sempre”, revelou. Lilian nem sempre teve de lidar apenas com as dificuldades do esporte. “O preconceito e o machismo são muito fortes e com certeza grandes adversários, porque eu sempre ouço que o judô não é esporte para mulher porque exige força e brutalidade”, lamentou a atleta.

Lilian se inspira em quem vale ouro: Rafaela Silva, que também alimenta a esperança e os sonhos da judoca. “A Rafaela é um incentivo a mais para todas nós, principalmente pela humildade e força de vontade dela”, pontuou, lembrando ainda que hoje um dos maiores objetivos da atleta é chegar a um Mundial. “Todas nós temos vontade de chegar à seleção e com muito treino e muito foco a gente chega lá”, ressaltou.

(Kezio Carvalho/Diário do Pará)

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