O Brasil é uma das maiores potências do esporte paralímpico mundial. Do último dia 22 até ontem, foram realizados os Jogos Paralímpicos Escolares, em São Paulo. O evento é o maior do mundo na modalidade e faixa-etária, e ocorreu no novo Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro. Além disso, alguns nomes importantes no cenário esportivo, como o do paraense Alan Fonteles, surgiram neste evento. Desta forma, Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, concedeu uma entrevista para falar sobre o panorama do esporte paralímpico no país.
Como é o novo Centro de Treinamento e como será administrado?
Nós administramos o centro desde maio e vai até maio do ano que vem. A nossa intenção é conseguir administrar por períodos mais longos, que é o que estamos pleiteando hoje. Que a gente gostaria que o processo de concorrência, que vai haver, seja de pelo menos de 10 anos. Vamos concorrer com quem quiser. Achamos difícil alguém que tenha a capacidade financeira e técnica para concorrer com o CPB. A gente está comprometido a investir R$30 milhões no centro ao ano. Fizemos várias pesquisas pelo mundo, para vermos o modelo e quanto custa o funcionamento. Em 10 anos, vamos investir R$300 milhões, que é quanto, mais ou menos, este centro custou para ser feito. O nosso interesse não é o lucro. Óbvio que existem atividades que gerem lucro. Mas não temos o objetivo de ter lucro, vamos investir para desenvolver o esporte paralímpico.
Esse novo CT acaba mostrando um pouco do crescimento do esporte paralímpico. Por que o esporte paralímpico do Brasil consegue ser uma potência e o olímpico não?
A gente nunca compara com outros movimentos ou entidades desportivas. Eu posso dizer que o CPB tem um trabalho muito bom para aproveitar as oportunidades. A gente sabia que neste período teríamos que sair com duas coisas: mais receita e um CT. Porque todos que estão próximos no quadro de medalhas têm. E a gente nunca teve. Eu acho que conseguimos nos planejar, nos tornar uma organização com credibilidade, para aumentar os níveis de apoio. Acho que isso é um mérito de ter conseguido se planejar e criar a credibilidade, que é em cima de resultados, da administração dos recursos e da transparência. Eu não comparo com o olímpico, mas eu acho que a gente faz um trabalho muito eficiente. Temos um modelo de funcionamento, que foi proposto em 2009, foi “comprado” pelas confederações e pelos atletas. Saímos com um modelo e todos podem aproveitar essa filosofia de trabalho.
Os Jogos Escolares costumam revelar alguns nomes, como foi o caso do Alan Fonteles. Como é o trabalho para estimular e gerenciar o trabalho com essas crianças em cada estado
Essa é uma responsabilidade também de cada estado, de cada clube e município... A Paralimpíada Escolar tem dois propósitos. Um é revelar talentos. O Alan Fonteles foi identificado aqui, transitou por todos os nossos programas. Ele é um grande exemplo desse caminho do CPB, que eu falo que é essa filosofia de trabalho, de que funciona. O outro efeito é estimular e até “obrigar” os estados a fazer este trabalho de maneira local. Seja uma seletiva pura e simples, ou um despertar para o esporte paralímpico, ou até uma pressão para ser feito algum tipo de trabalho. Além disso, eu assumi o CPB em 2009 e, no mesmo ano, fizemos uma Paralimpíada Escolar, porque era evidente que precisávamos de renovação. Vimos nos Jogos de 2016 vários exemplos. Só que o fundamental não é só pensar, é ter esse efeito com a Paralimpíada. Ano que vem tem mais, tem que fazer seletiva, organizar... Você começa a criar esse estímulo e isso é fundamental.
Qual a importância dos Jogos Escolares para a inclusão dos jovens?
Tem essa importância social. Um menino do Amapá encontra outro de Goiás com a mesma deficiência que ele. Ele pensa “Não tô sozinho no mundo. Tem outro garoto com a mesma deficiência que eu”. Tem também essa interação entre eles, deles socializarem, da paquerinha, que faz parte. Aqui são todos iguais. Ficam perguntando o motivo de não unir com o olímpico. Inclusão não é estar junto, é dar a mesma oportunidade. Aí, o menino volta para a casa dele e quer continuar a fazer esporte. Ele pode até nem disputar mais, nem ser atleta paralímpico, mas ele continua fazendo esporte, porque socializa, ele pode viajar, conhecer pessoas. O esporte é bom para as pessoas e os Jogos Paralímpicos querem mostrar isso.
Como foram as conversas com o Alan Fonteles para o Rio 2016?
Eu, particularmente, não conversei com ele depois do Rio. Mas tive inúmeras antes, os nossos diretores e coordenadores técnicos tiveram milhares. O Alan não chegou ao auge nas Olímpiadas de Londres, ele ficou um ano depois focado e melhorando os resultados e chegou ao auge no Mundial de 2013, em Lyon, com títulos no 100, 200 e 400 metros e recorde mundial. Ele se tornou um cara muito forte e conhecido, principalmente, no Reino Unido, mais do que no Brasil. Veio depois do Mundial isso. São questões de foro pessoal, por mais que nós tenhamos dado as informações sobre isso de “ano sabático” não ser bom... Na verdade, o ano sabático virou uma justificativa mais do que um fato em si. Coisas foram acontecendo e de qualquer forma foi um erro e ele foi orientado a fazer o contrário, mas o Alan é adulto e tomou as decisões dele. No ciclo Lyon-Rion, ele cometeu muitos erros, ele treinou muito pouco, acabou engordando, à medida que a prova na classe dele cresceu muito. E os resultados no Rio 2016 só vieram a mostrar que as escolhas dele foram muito erradas. Ele viu onde os erros dele o levaram.
Como evitar que problemas iguais ao dele se repitam com quem se destacou nos Jogos deste ano? Há chances do Allan voltar?
Estamos de braços e coração abertos para o Alan. A gente acredita nele e que o potencial ainda está lá, que ele pode ganhar medalha de ouro em Tóquio. Ele tem o potencial e o CPB tem os programas, o Centro de Treinamento e as condições de levá-lo a isso. Mas ele precisa encarar o ciclo para 2020 de uma forma bem diferente que ele encarou para 2016. Em relação aos outros atletas, temos todo um aparato de psicologia esportiva. A gente tem um trabalho de orientação e aproximação com os atletas. Mas já temos alguns atletas que estão de “salto alto” por conta dos resultados nas Paralimpíadas desse ano. Já apresentando problemas de comportamento e indisciplina. E nós vamos agir como sempre foi, como foi com o Clodoaldo em 2006, como fizemos com o Alan, mostrando a realidade, só que temos uma série de atletas. Não podemos ser babá de adultos e de atletas de altorendimento. A gente ajuda, mas também não entra na cabeça deles. O nosso objetivo é dar a maior preparação possível e passa por ele entender o papel dele nesse processo.
(Café Pinheiro/Diário do Pará)
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