Amanda Nunes já era uma grande lutadora. Após a vitória sobre Miesha Tate, enfrentou a lenda do MMA feminino, Ronda Rousey, na condição de dona do cinturão da categoria peso galo contra desafiante, grande favorita na bolsa de apostas. Mas faltava aquela vitória para lhe dar a credibilidade a nível mundial e empolgar a torcida brasileira de um jeito que os lutadores homens há algum tempo não conseguem. O MMA feminino de Amanda, Cris Cyborg, Claudia Gadelha e companhia é a principal força do país na maior categoria do esporte no mundo. E esse êxito se reflete nas lutadoras ainda anônimas, em Belém do Pará e interior, que buscam seu lugar ao sol.
Evelyn Gomes, lutadora de kickboxing que atualmente migra para o MMA, vê a luta com o potencial para ser um divisor de águas par as brasileiras. “A Amanda ganhou muita moral. Querendo ou não, a Ronda abriu as portas para várias mulheres no MMA, mostrando para o mundo que nós mulheres podemos lutar, sim. Acho que agora que a Ronda caiu, o Dana White (presidente do UFC) deve colocar para desafio a Amanda e a Cris Cyborg, também brasileira”, sugeriu.
Já para lutadoras com um histórico mais longo no MMA, como Carolina Yariwaki, mais conhecida como ‘Carol Japa’, o desafio maior no âmbito regional é na falta de espaços e oportunidades. “É muito difícil o esporte no Pará por falta de apoio e competições. Muitas acabam parando por não ter um contato que as coloque para lutar em outros estados e outros países”, lamenta Carol.
Outra luta
Preconceito é o maior dos adversários fora do ringueEmbora estejam ganhando espaço no grande circuito, ser mulher e lutadora ainda significa ter de lutar contra comentários maldosos e preconceituosos quando se está começando. “Na verdade, eu acho que tem preconceito em tudo que é esporte, só que quando é luta o negócio fica mais grave, porque são esportes de contato. A primeira coisa que se ouve é que você vai ficar igual a um homem, o que não tem nada a ver!”, reclama Carol Japa.
De família interiorana, natural de Aurora do Pará, Samara Santos relata que além dos temores com mudança de aparência, ela teve de lidar com rumores sobre sua orientação sexual. “Rola, sim, um pouco de preconceito fora. Algumas pessoas já me falaram que juravam que eu era lésbica porque eu lutava MMA. Os meus pais, no começo, me chamaram para uma conversa sobre esse assunto, porque as pessoas estavam comentando demais”, relembra envergonhada.Porém, quando a questão envolve treinadores, outros lutadores, organizadores e até o público, o respeito predomina. “No meio das lutas nunca recebi assédio. Acredito que o cara que está lá é antes um profissional, ele entende as lutas de outra forma. Ele pode até pensar outra coisa quando olha uma mulher, mas acho que fica quieto e disfarça”, brinca Amanda Lemos.
Ascenção feminina é resultado de um trabalho a longo prazo
Também lutadora, mas com pretensões apenas amadoras, Yasmin Yonekura alia a praticado muay thai a seus estudos nas áreas de gênero, identidade e linguística na, Universidade Federal de Santa Catarina, onde atualmente desenvolve pesquisa de mestrado. Para ela, falar sobre o fenômeno atual do MMA feminino significa fazer um olhar retrospectivo nos investimentos e venda da imagem das artes marciais nos últimos anos. “A ascensão do MMA feminino e o recente boom deste na mídia têm uma grande relação com o impulso à prática de artes marciais por mulheres na última década. Principalmente na América do Norte, Latina, Ásia e Europa, onde os patrocinadores buscaram estimular mais as mulheres. A venda fitness das artes marciais para moldar o corpo também influenciou na adoção do esporte por mulheres”, detalhou.
Yasmim também faz uma diferenciação da luta feminina com o espetáculo midiático. “Acho que influencia bastante a aceitação do público o fato de a maioria das mulheres lutar de pé (usando mais as artes que não vão ao chão, como muay thai, boxe, capoeira, taekwondo, etc). As lutas acabam ficando mais movimentadas e eletrizantes”, observou.
Ela também vê como positiva a influência de atual geração de lutadoras e defende os esportes de luta às mulheres independente da pretensão de ser atleta. “Acho que a arte marcial muda a vida de uma mulher, dá-lhe autoconfiança e a ajuda a se defender de abusos. Acho que mais do que a parte do aeróbico, o treino do MMA para mulheres se configura numa questão de sobrevivência e amor próprio”, encerrou
(Taion Almeida/Diário do Pará)
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