O lance foi muito rápido. Se quem o assistir não prestar atenção talvez nem repare que houve algum problema. Aos 41 minutos do segundo tempo do jogo entre Clube do Remo e Cametá, pela primeira rodada do Parazão 2017, no último domingo (29), no estádio Mangueirão, o zagueiro Thiago Costa partiu para interceptar o atacante Val Barreto que se lançasse ao ataque. Após um carrinho, o jogador do Mapará tentou se levantar, mas desabou. “Na hora eu não senti nada, mas ouvi um barulho de algo quebrando, tipo quando a gente quebra a casca de um caranguejo. Aí quando eu fui levantar não consegui”, relembrou o defensor.
Na hora do acidente, o técnico remista Josué Teixeira foi um dos primeiros a perceber uma lesão grave e pediu que o próprio médico do clube, mais próximo do lance, atendesse ao atleta.
Notando que a lesão era séria, até a torcida azulina ficou apreensiva e aplaudiu o atleta enquanto era carregado, de maca, para fora do gramado. Thiago Costa já sabia que algo sério havia acontecido, mas ainda não o tamanho da gravidade.Acompanhado pela direção do Cametá, ele foi levado a uma clínica particular. Após realizar exames de raio-x, os médicos detectaram uma fratura em dois pedaços, na fíbula e na tíbia, os ossos de sustentação da perna esquerda.
A lesão precisou de uma intervenção cirúrgica e a recuperação, pelo ritmo da natureza, será de quatro a seis meses. O Parazão terminou, para o jovem jogador de 23 anos, ainda na sua primeira rodada. “Na hora foi um baque. Já sofri lesões que me tiraram de jogo, mas nada tão grave e demorado assim. Na hora passa um monte de coisas na cabeça, fica a incerteza de como vai ficar, se vai voltar bem, se vai ter algum clube para jogar. A gente ficou muito preocupado”, contou.
Apesar disso, o momento difícil serviu para reaproximar muitos amigos e ex-companheiros do zagueiro, para fazer companhia e oferecer apoio e dar ao jogador um retorno mais tranquilo.
Acidente
O Val Barreto nem tocou em mim’, isentou ThiagoThiago se apressa em tirar dúvidas sobre a responsabilidade do atacante remista no lance. “Não teve contato nenhum. Eu jogo com chuteira de trava de alumínio para não escorregar. Eu dei o carrinho girando e a perna esquerda ficou travada. A velocidade e o peso do meu corpo fizeram acontecer a fratura. O Val Barreto nem encostou em mim. É um tipo de lance bobo, que a gente nem imagina que pode acontecer”, detalhou o jogador.
Relembrando o procedimento cirúrgico, Thiago explicou que passou a entender um pouco mais do funcionamento dos órgãos. Ele disse que a lesão comprometeu principalmente o osso da fíbula, o osso mais fino e que fica na parte anterior da perna. “A cirurgia abriu uma área de 16 cm na minha perna. Foram implantados dois pinos na fíbula, uma placa de platina e um pino na tíbia para segurar”, contou.O procedimento, no entanto, não envolveu muita dor, fisicamente falando. Nem antes nem depois. “Na hora da lesão, com o sangue quente, eu não senti nada. Fui sentir bem depois tentando mexer. No hospital eu fui medicado, e tomei muitos antibióticos e sedativos que me deixaram quase sem sentir a região. Da cirurgia eu não cheguei a sentir nada. A dor maior é não poder me mexer muito”, lamentou.
Outras graves lesões
Ronaldo, ‘Fenômeno’ (2000): Retornado de lesão, o atacante, então na Inter de Milão, sofreu rompimento completo dos ligamentos do joelho direito após sete minutos de jogo contra a Lazio. Após 16 meses, ele retornou aos gramados a tempo de disputar e ser eleito o craque da Copa de 2002.
Eduardo da Silva (2008): O brasileiro naturalizado croata sofreu fratura exposta na fíbula esquerda e uma luxação no tornozelo esquerdo em jogo contra o Birmingham. Depois de um ano em recuperação, o atleta retornou aos gramados e manteve o bom futebol, disputando a Copa do Mundo de 2014.
Tonhão (2012): Quebrou a perna em um jogo do Cametá contra o Remo no Parque do Bacurau. Retornou aos gramados, um ano depois, defendendo o Mapará num jogo contra o próprio Remo. Após rodar em equipes pelo interior do Estado, segue defendendo o Mapará.
A solidariedade vem de todos os lados
Além do amparo de família, namorada e vizinhos, Thiago Costa conta que ficou impressionado com a resposta que recebeu de apoio desde a lesão. “No dia seguinte, o Fininho, que jogou comigo no Time Negra, telefonou para perguntar como eu estava. Ele disse que se precisasse de alguma coisa ele e os jogadores do Remo fariam uma vaquinha para me ajudar. Mas graças a Deus não está sendo necessário. Recebi ligações e mensagens até de atletas e dirigentes de outros Estados, como o Atlético de Sorocaba, onde eu atuei em 2013”, disse, com alegria.
O suporte do Cametá também tem sido digno só de elogios. O jogador diz ter sido acompanhado pelos dirigentes por todo processo até a cirurgia, com tudo bancado pelo clube. “Tem dias que eu acordo e já tem mensagem dos diretores perguntando como eu estou, se está tudo legal. Não tinha como agradecer mais”, comentou o atleta, que teve a camisa 3 ‘aposentada’ no clube até que ele se recupere.
Outro amparo que o jogador tem recebido, em Belém diz respeito à recuperação. Fininho disse ao amigo que pediria ao departamento de fisioterapia do Remo para acolher o jogador quando ele iniciar o processo. O rival Paysandu, onde Thiago iniciou a carreira, também acenou positivamente. “Conversei com o Serra, o presidente, e o Junior Furtado, do departamento de fisioterapia, e eles me disseram que o clube está de portas abertas para a minha recuperação. Fico feliz porque Remo e Paysandu são dois dos melhores espaços para fisioterapia esportiva”, comemorou Thiago Costa.
Sobre o futuro, apesar das incertezas, o atleta é otimista. Com apenas 23 anos, o zagueiro acredita que ainda tem muita lenha para queimar e seguir com os planos de defender grandes clubes. As boas experiências acumuladas até aqui também trazem otimismo. “Já recebi até uma proposta para quando eu voltar! Me ligaram lá do Amapá dizendo ‘quando você se recuperar, vem pra cá que tem o estadual e Série D no próximo semestre”, revelou, empolgado.
Tristeza
Pais sentiram o baque bem de pertinho
Das arquibancadas do Mangueirão, os pais de Thiago Costa foram os primeiros a reparar que algo de errado havia acontecido. “Foi um lance muito rápido, a princípio não entendemos o que tinha acontecido. O meu marido foi o primeiro que saiu correndo até o vestiário para tentar falar com ele”, relembra Maria Costa, 50, mãe de Thiago. “Foi uma confusão, os dois médicos estavam lá com ele, havia muita gente antes do vestiário. Foi preciso ele gritar que eu era o pai para eles me deixarem entrar”, disse Clodoaldo Costa, 53, o pai, que ficou mais tranquilo após conversar com os médicos.
Donos de uma bela casa de altos e baixos, no bairro do Benguí, onde residem há 32 anos, Clodoaldo e Maria procuraram amparar o filho nas necessidades que a limitação motora impôs. Ambos trabalham, Clodoaldo como funcionário público e Maria como empregada doméstica, mas garantem que o filho raramente fica sozinho. “Esse período coincidiu com as minhas férias. Então estou a maior parte do dia por perto”, explicou o pai.
Os irmãos de Thiago são mais velhos, entre 30 e 34 anos, e já não vivem com os pais. “Mas não falta quem venha visitar ele. O Thiago é muito querido aqui no bairro. Depois que ele virou jogador, a casa dele virou ponto de referência. Todo dia vem alguém aqui visitar”, comentou a mãe.Uma pessoa que dedicadamente visita Thiago é sua namorada, Paula Lima. Também moradora do bairro, Paula trabalha como esteticista e ao final do turno visita o namorado. “A primeira vez que nos vimos pessoalmente foi numa escala de três horas do Ypiranga-AP em Belém para um jogo no Acre. Ele passou rapidamente em casa e tivemos uns 20 minutos para se ver. Antes disso a gente só conversava pela internet. E por muitos meses a nossa relação foi assim, com ele jogando no Amapá. Agora que ele vai ficar em recuperação vamos nos ver mais vezes. Estamos juntos há oito meses e planejamos nos casar ainda esse ano”, projetou.
(Taion Almeida/Diário do Pará)
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