Se é fato consumado que futebol e álcool não se misturam, é igualmente verdade que a relação danosa entre jogadores e bebidas etílicas é mais comum do que se imagina. Nada interfere não ser um anônimo aos olhos da multidão: Mané Garrincha, Dr. Sócrates, o Imperador Adriano e o argentino Diego Maradona, que dispensam comentários, entre outros nomes consagrados da bola, foram vítimas do copo além da medida, alguns com as piores consequências, como o ídolo eterno do Botafogo-RJ e o ícone paraense do Corinthians-SP.
Nos tempos atuais, em que se cobra mais profissionalismo em razão das condições científicas do futebol moderno e na busca intensa pelo alto rendimento nas competições super valorizadas, as próprias torcidas estão mais exigentes com os atletas – elas se dispõem até a monitorar comportamentos em programações noturnas, como as baladas. Foi assim com Ronaldinho Gaúcho no Rio, por exemplo, quando jogou pelo Flamengo-RJ. A “marcação homem a homem” o flagrou com a boca na botija, como se diz no jargão popular.
PRESSÃO
Em Belém, torcedores de Remo e Paysandu, cumprindo papel semelhante ao de torcedores pelo Brasil e mundo afora, fazem pressão sobre jogadores chegados a umas doses a mais. Isso acontece normalmente em casas noturnas, deixando claro que os tempos do atleta notívago, como tantos que defenderam Leão e Papão - entre eles o atacante Alcino, ícone quando o tema envolve futebol e bebida -, fazem parte do passado, embora alguns atletas teimem revivê-lo.
CLUBES MONITORAM
Os próprios clubes, municiados de ferramentas proporcionadas pela era da informática, têm procurado monitorar seus atletas, acolhendo denúncias feitas por torcedores ou até mesmo dirigentes. Isso tem feito com que o atleta de hoje, em sua grande maioria, já pense duas vezes, antes de atirar a bola para escanteio, ou marcar um gol contra fora das quatro linhas, o que poderia comprometer sua carreira profissional e até mesmo sua vida particular.
VÍCIO
A Irmandade Alcoólicos Anônimos (A.A.) já procurou o Remo para oferecer ajuda ao atacante Edgar, mas a diretoria do clube, que prometeu financiar tratamento ao jogador, ainda não se manifestou à entidade, que existe em Belém há 44 anos. Um diretor da A.A. informou que houve um equívoco na revelação do problema de saúde do atleta azulino. “Houve uma exposição desnecessária desse rapaz [Edgar]. O alcoolismo é uma doença terrível, a terceira que mais mata no mundo depois do câncer e ataque cardíaco”, disse ele.

Foto: reprodução
EX-ATLETAS NO A.A.
O entrevistado, cuja identificação não pode ser divulgada, informou que na Grande Belém pelo menos vinte ex-jogadores de futebol, alguns que ficaram famosos vestindo as camisas de Remo e Paysandu, frequentam as reuniões da instituição. “Claro que não posso revelar os nomes, mas são ex-atletas das décadas de 1960, 1990 e anos 2000”, revelou. “Tem de deixar o orgulho e a vergonha de lado, porque trata-se de uma doença emocional”, diz.
De acordo com integrante da administração da A.A., a dependência alcoólica começa em geral na juventude e cresce paulatinamente. “Eu mesmo, quando tinha entre 14 e 16 anos, desisti de treinar em um desses grandes clubes, porque não queria deixar de beber cerveja”, revelou. “Eu era introspectivo, e para me soltar em festas tinha de beber, mas o consumo foi aumentando e já estou aqui na irmandade há 17 anos sem ingerir bebida alcoólica”, fala.
SINTOMAS: ATRASOS, FALTAS E PERDA DE CONCENTRAÇÃO
Profissionais atuantes em diferentes áreas, mas ambos ligados ao esporte, o médico José Silvério, 52 anos; e o educador físico, Carlos Alberto ‘Mancha’, 63 anos, têm opiniões parecidas quando o binômio é futebol e bebida alcoólica. Para eles, as duas coisas não casam e o atleta que faz uso frequente de álcool acaba sofrendo prejuízo na carreira e comprometendo o trabalho do grupo ao qual estiver integrado.
Mancha ressalta que “o álcool afeta em tudo na vida de um atleta.” “As próprias atitudes do jogador que é viciado, por exemplo, são, normalmente, irresponsáveis”, aponta. “É comum se ver o jogador que é acostumado a noitadas chegar atrasado ou faltar com frequência aos treinos”, salienta. O educador físico ressalta que o problema precisa ser encarado como doença.
“A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem o alcoolismo como uma das doenças que cataloga”, lembra Mancha. “E o pior é que se trata de uma doença incurável”, ressalta. Silvério segue a mesma linha de Mancha, com quem trabalhou no Paysandu. “O álcool não só tira o poder de concentração de um atleta, como também aumenta, e muito, o risco de lesão por parte desse profissional”, alerta. “Isso é causado pelas noites de sono perdidas por esse atleta”, justifica.
DIFÍCIL DETECÇÃO
Silvério, que está em sua 16ª temporada trabalhando no Paysandu e, portanto, com larga rodagem no ramo, admite que nem sempre é fácil detectar um usuário frequente de bebida alcoólica no meio futebolístico. “Tirando determinadas características, como o uso diário da bebida, alguns outros traços nem sempre são percebidos”, revela.
(Nildo Lima/Diário do Pará)
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