Apassionalidade é a marca do torcedor e jamais pode ser assumida por aqueles que comandam um clube de futebol. Gerir profissionalmente é tomar decisões sem se deixar influenciar por comentários acalorados e imediatistas, sejam eles vindos das arquibancadas após um resultado ou sequência ruim, ou das redes sociais, cuja força é considerável. Pensar a longo prazo é difícil, mas extremamente necessário se o objetivo for alcançar uma regularidade em divisões superiores do futebol nacional.
Claro que mudanças para corrigir a rota vão acontecer, afinal o futebol não é uma ciência exata. O que não se pode fazer é naturalizar erros de planejamento. Eles devem ser exceções, sempre. No caso do Paysandu, desde que Vandick Lima assumiu, o clube passou por um processo de profissionalização muito bem-vindo. Investiu em áreas normalmente desprezadas e cresceu administrativamente. O fato de um mesmo grupo, a Novos Rumos, estar à frente, colaborou para levar adiante esse projeto de modernização, sem uma oposição destrutiva.
O problema é quando as coisas dentro de campo não saem tão bem quanto fora dele. É aí que entra o fator “torcida”, gerando uma pressão intensa sobre todo o trabalho. Não que a Fiel não tenha razão em reclamar, pois a montagem do elenco para 2017 foi desastrosa, com a conquista do Estadual e o vice-campeonato da Copa Verde camuflando as deficiências da equipe e fazendo o clube perder o timing.
A hora de mudar, corrigir a rota, era ali. Em competições tão fracas como as do primeiro semestre, se Paysandu ou Remo não passeiam sobre os demais ou, no mínimo, mostram superioridade e espaço para evolução, alguma coisa certamente está errada e, se entrarem desse jeito em um nível acima, nacional, vão sofrer as consequências.
Para piorar a situação, Marcelo Chamusca ganhou sobrevida com uma largada excelente - e enganosa - na Série B. Os adversários ainda se organizavam. Com o tempo, o óbvio apareceu, obrigando a diretoria a agir na pressa, atropelando o bom senso e com uma torcida raivosa em seu cangote, culminando como ato extremado e injustificável da ameaça de morte a Sérgio Serra.
A renúncia do ex-presidente no meio da Série B foi péssima, já que, além de ter que entrar nos eixos em campo, fora dele também precisou se reorganizar. Ora, basta notar que o clube ainda procura por reforços estando na 24ª rodada da competição. Agora me digam: qual a qualidade desses jogadores que virão, já que, fatalmente, estavam jogando por clubes já eliminados de séries inferiores? Complicado. Além disso, notícias de atrasos salariais começam a pipocar, algo que há tempos não acontecia pelas bandas da Curuzu.
Resta agora trabalhar para não ser rebaixado, pois isso impactaria não só no lado esportivo, mas provavelmente traria também um retrocesso administrativo. O Paysandu tem tido boas gestões nos últimos anos, mas nessa temporada errou feio a mão no comando do seu carro-chefe. A ordem, portanto, é: salvar o ano do jeito que der, assumindo as trapalhadas, e fazer com que isso tenha sido apenas um lapso. Novos erros e tudo que foi conquistado desmoronará.
(Carlos Eduardo Vilaça/Diário do Pará)
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