Um antigo dirigente remista, que chegou a ser presidente do clube depois de bater várias vezes na trave, dizia o tempo todo que o Remo era uma agremiação com donos. Um tolo poderia até pensar que o cartola estava se referindo à torcida. Balela. Um clube de futebol, grosso modo, é uma instituição com estatutos, regras e a definição clara de que ali há um grupo de pessoas que norteiam os destinos dele. Pensar que qualquer simples mortal, mesmo na condição de sócio-torcedor, exercesse um certo poder de decisão no clube pelo qual dá a vida seria um sonho inalcançável. Os destinos são definidos em reuniões fechadas.
E isso vale para 99% dos clubes brasileiros. O destino de milhões, como na política, está nas mãos de sabe-se lá quem, que foi posto ali com outros interesses. Portanto, de pouco adianta espernear, bater panela, ir pra frente de sede social protestar por isso ou aquilo. Os caras estão pouco se lixando, por mais que tenham algum amor pela instituição. Há um misto de vaidade pelo meio, orgulho, e aí ferra todo o sistema.
As únicas situações em que permitem abrir os portões são nas crises, nas tentativas de colocar os jogadores frente a frente com os representantes das torcidas uniformizadas, justo essas pessoas que sequer sabem a escalação do time ou o hino do clube. Mas são os eleitos dos dirigentes para dar uma dura nos boleiros. O torcedor comum, novamente, é alijado do processo, ele que de fato manja dos problemas que afetam seu time e não possui traquejo algum para intimidações na base do “se não for pelo amor, vai ser pela dor”.
Nos últimos dias, por sinal, tivemos um exemplo claro de como as coisas no futebol estão bizarras. O São Paulo, um dos clubes mais elitizados e vitoriosos do País, deu passe livre a representantes de facções organizadas para peitar os jogadores e comissão técnica, num momento em que o clube luta ferozmente contra o rebaixamento para a Série B. É como se algum folgado invadisse seu local de trabalho, leitor, para cobrar alguma atitude relacionada à sua área de atuação. É um negócio sem pé nem cabeça. Pior vai ser se o Tricolor paulista reagir na competição. Aí a intimidação vai ser institucionalizada pra valer no futebol. É só chamar “os meninos” que a coisa anda.
Por essas e outras que o futebol brasileiro é essa várzea. A estrutura dos clubes europeus, e a cultura do torcedor em si, são de dar inveja. E mesmo onde há donos das agremiações existe a consciência sobre qual o papel de cada um do lado de cá ou de lá da arquibancada. Raramente ocorrem pressões como as que são registradas no Brasil. As queixas se limitam as redes sociais e aos estádios. E há a obrigação de prestar contas sobre tudo o que entra e sai dos cofres, de forma cristalina para que qualquer leigo consiga interpretar e ver se ali estão tendo algum tipo de transação errada. Como se pode ver, o problema é cultural, e mudar esse status não é nada mole. A abertura política está fora de cogitação. Bem como o surgimento de novas lideranças.
(Clayton Matos)
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