O futebol brasileiro está à deriva. Não é de hoje, claro. Mas agora, com o afastamento de Marco Polo Del Nero, tem uma chance real de sair desse atoleiro de corrupção e bagunça. A melhor oportunidade, talvez, desde a tentativa de implantação da Copa União, em 1987. O problema? Os de sempre: subserviência dos clubes às federações, comodismo e rabo preso. Como romper, então, com o sistema vigente? Só há uma maneira, e que vale para toda forma de política excludente, não apenas realacionada ao futebol: pressão popular.
Os torcedores são os que fazem a engrenagem girar, a alma do negócio. Sem eles, clubes quebram e, no máximo, sobrevivem, eternamente de pires na mão, sujeitos a sucessivas administrações incompetentes. Esperar que o seu clube faça algo, se posicione por livre e espontânea vontade, é utopia. Vide o constante abaixar de cabeça para as nefastas federações estaduais. Engolem tudo. Regulamentos esdrúxulos, taxas incompreensíveis, desorganização... Não questionam a falta de transparência e democracia em seus processos administrativos e eleitorais. Pelo contrário, na primeira oportunidade vemos dirigentes confraternizando e dizendo amém. Quantas vezes você já viu presidentes de Remo e Paysandu, para ficar em nosso terreiro, presentearem Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Del Nero com camisas oficiais e outro mimos? Não importa se a CBF é um antro e suas decisões, via de regra, prejudicam o nosso futebol.
Nem é preciso ir até a CBF. Na FPF, Coronel Nunes ficou anos no poder (continua, licenciado que está) sem oposição - e essa quando existiu foi risível. Nos seus 20 anos de comando, o Pará só regrediu. Conquistas? Uns “cala-bocas” e umas viagens da seleção que chefiou para que nunca houvesse reclamações e votasse sempre a favor. Tanto lealdade lhe rendeu um cargo de vice-presidente. Figurativo, apenas para que Del Nero tivesse alguém na retaguarda caso problemas com a justiça viessem à tona. Previsível, dado seu histórico enlameado. E eis que é Nunes, no papel, claro, o número 1 da CBF. Constrangedor.
É preciso quebrar essa podre estrutura de poder, como sugeriu Romário, por exemplo. Ele afirmou essa semana que quer ser candidato na CBF, mas sabe da dificuldade, pois ninguém de fora entra na entidade, é um ambiente fechado. Por isso mesmo, qualquer mudança no formato atual será apenas de nome. Nem entro no mérito do Baixinho estar apto ao cargo ou não. O importante é ter uma voz contrária - e dessa relevância. Quem sabe clubes e torcedores não se animam e saem da letargia para assumir, finalmente, o protagonismo? É um sonho, claro. Afinal, se nem a péssima situação do nosso país provoca manifestações de massa, que dirá o futebol. É, deixa eu botar “Imagine” para tocar. Um pouco de John Lennon faz bem, me faz pensar que não estou sonhando sozinho.
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