O futebol existe, da forma como o conhecemos, há mais de 100 anos. Embora a disputa em campo já tenha sido mais violenta, o fenômeno social de violência extra-campo não teve sempre a feição atual. O sociólogo Maurício Murad, que trabalha numa linha de pesquisa sobre o comportamento das torcidas organizadas e a violência no futebol, compreende que a violência passou a fazer parte do entorno do esporte na medida em que ele cresceu na sociedade. “Há um estima, reforçado pela própria mídia, de que torcidas organizadas são sinônimo apenas de violência, crimes e marginalidade, mas na realidade os torcedores responsáveis pela violência são uma minoria dentro das torcidas. Uma minoria que, no entanto, gera muitos problemas”, afirma o professor. O perfil do torcedor problemático é traçado por Murad em seu livro “A Violência no Futebol” como um grupo de jovens entre 13 e 24 anos, desempregados e que já possuíam algum envolvimento com a criminalidade fora dos organizadas, e que “entendiam a violência como instrumento para adquirir respeito e poder diante outros grupos de organizados”. Murad defende que fazer parte de uma torcida organizada acaba sendo para a maioria desses jovens a perspectiva de “ser alguém”, graças ao grupo. A solução para o problema, que ao contrário do que o senso comum dita, prejudica também os torcedores organizados – já que inclinados ou não à violência todos recebem a pecha negativa –, não tem uma resposta simples, mas ações a longo prazo não apenas nas áreas de segurança e instrumentos de repressão, mas nas áreas de educação e assistência social para criar perspectivas diferentes a essas pessoas. “Dar fim à violência no futebol é tão difícil quanto, no final das contas, dar fim à violência em toda sociedade”, afirma o sociólogo. A psiquiatra espanhola Xáro Sanchez faz uma leitura sobre as razões da violência, não apenas nas torcidas organizadas, mas também aplicáveis a elas, baseada em reações do cérebro humano. Xáro afirma em seu livro “Somos Uma Sociedade Violenta?” que o cérebro humano tem disposição para acreditar com facilidade em “qualquer ideologia que lhe permita diferenciar o grupo ao qual pertence dos outros” e que, após diferenciado quem são os “nossos” e os “outros”, a pessoa tende a ser leal e cordial com aqueles grupos que identifica como o seu, e ser antipático com os outros. Em casos de ideologias fanáticas e com inclinações à violência, o outro passa a ser visto de forma desumanizada e com isso “desaparece qualquer tipo de sensibilidade; a morte passa a ser desejável e não gera nenhum tipo de contradição ou compaixão ou arrependimento”. |
(Diário do Pará)
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