O velocista Alan Fonteles, 23, entra no Mundial de para-atletismo de Doha, que começa nesta quinta-feira (22), em situação inversa à que deixou a edição passada, em Lyon, há dois anos.
Aclamado na França após bater o recordes mundial da classe T43/44 (para biamputados) nos 200 m e dominar também os 100 m e os 400 m, o paraense descartou marcas expressivas no Qatar. Mas nem por isso adotou um discurso mais modesto.
"Vim preparado para fazer o melhor. Não estou pensando em bater recordes, nada. Estou focado apenas na medalha de ouro. As marcas eu prefiro deixar para o ano que vem, para os Jogos Paraolímpicos", afirmou, em entrevista à reportagem.
"Não chego no meu melhor, mas próximo disso. Aqui vai ser um teste muito bom. Posso ganhar ou perder, mas sou o atleta aqui a ser batido."
O que põe em xeque a frase e os objetivos do atleta é sua atual condição física e psicológica.
Apresentado ao mundo nos Jogos Paraolímpicos de Londres-2012, quando derrotou o astro sul-africano Oscar Pistorius nos 200 m, e badalado após os feitos em Lyon, resolveu tirar um 2014 sabático.
Fonteles ganhou peso, treinou e competiu pouco -praticamente apenas em eventos de seus patrocinadores-, perdeu o foco. Sem resultados, ficou na incerteza de saber se entraria ou não na seleção paraolímpica brasileira neste ano.
No fim, conseguiu entrar na equipe e foi ao Parapan de Toronto. Mas, ali, pagou o preço pelo afastamento das pistas e foi derrotado nos 100 m. Embora tenha conquistado o ouro nos 200 m, foi mais de um segundo mais lento do que no Mundial de Lyon.
Em Doha, Fonteles disputará as duas provas mais rápidas, mas não defenderá o título dos 400 m, distância mais exigente fisicamente. Porém, ele pretende corrê-la na Rio-2016.
Além disso, ele também quer demonstrar a quem condenou seu ano sabático que ainda pode ser soberano.
"Fiquei chateado com críticas, mas isso me motivou a estar hoje aqui. Quem falou que eu não voltaria me motivou. Posso não ganhar e não levar medalha, mas estive no Mundial", disparou.
"Ainda posso chegar naquelas marcas que fiz em 2013. Meu técnico diz que posso correr 20s baixo ou até mesmo 19s [nos 200 m]. Se eu treinar direitinho, acredito que posso fazer."
O campeonato no Qatar reúne 1.300 atletas de 90 países e vai até o próximo dia 31.
PISTORIUS
Fonteles não quis opinar sobre Oscar Pistorius, solto na última segunda-feira (19) da prisão em Pretória onde cumpria pena. Ele foi condenado em setembro de 2014 por homicídio culposo pela morte de sua então namorada, Reeva Steenkamp, ocorrida no início de 2013.
"É um caso complicado, de Justiça. se ele voltar a correr, vai ser uma grande decisão para o Comitê Paraolímpico Internacional e para os órgãos. Eles vão ter que tomar a decisão. Eu estou treinando, me preparando, para ganhar de quem quer que entre na pista", disse o brasileiro.
Segundo o velocista, não há entre os atletas muita discussão a respeito.
"Ninguém fala sobre esse caso. Desde que aconteceu, ninguém fala sobre. E além disso hoje há outros atletas, grandes atletas. O esporte paraolímpico nunca dependeu nem vai depender de um só atleta."
(Folhapress)
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