É óbvio que temos de avançar um pouco na competição para fazermos um juízo mais profundo, mas a primeira impressão que a Copa da Rússia está passando (já observada por outros) é que a diferença entre grandes e pequenos do futebol mundial não é a mesma do passado. Ela, a diferença, ainda existe, claro, deve prevalecer em mais esta edição do Mundial, mas está diminuindo consideravelmente.
A Argentina empatou com a Islândia, o Brasil com a Suíça, a Alemanha perdeu do México, a Colômbia perdeu do Japão, a Polônia perdeu do Senegal, e mesmo algumas vitórias de países bons de bola foram difíceis, modestas, mais do que se esperava. O tema é interessante, se confirmado mais adiante, porque representa um novo cenário do futebol, no ponto de vista da qualidade, não do poder econômico.
Se alguma seleção correspondeu às expectativas com sobras — além da Rússia, praticamente classificada — foi a Bélgica, dando um forte sinal de que está no páreo. Não só pela vitória de 3 a 0 sobre o Panamá, mas também por ter um De Bruyne em campo para inspirar o time.
Outro que brilhou, sem novidade, foi Cristiano Ronaldo, mais até do que os times, Portugal e Espanha, no empate com três gols para cada lado. Ronaldo fez dois gols fáceis, um de pênalti, outro no frangaço do goleiro, e deixou o melhor (o terceiro) para o fim. Sua cobrança de falta, com a curva que a bola fez para fugir da barreira e girar na direção do ângulo da rede, foi uma obra-prima. A primeira do português. Agora, esperamos a do argentino, quer dizer, do Messi.
E a do brasileiro Neymar. Não vejo razão para falar em “baixo astral” (por enquanto), como já li e ouvi, por causa da estreia meio decepcionante, no empate com a Suíça. Nenhuma seleção vai ganhar sempre. Mais preocupante do que o resultado da estreia é o estado físico de Neymar, que saiu mancando do treino de ontem. Isso sim. Porque, sem ele, fica muito mais difícil obter resultados melhores do que esse.
Exagero da regra
Na rodada de ontem, o Japão venceu a Colômbia por 2 a 1, a meu ver com uma injustiça, não do futebol, mas das regras reformuladas do futebol. O primeiro gol do Japão nasceu de um pênalti marcado pelo juiz Damir Skomina. Carlos Sanchez, da Colômbia, rebateu com o braço, na área, o chute de Kagawa, e o árbitro acertou ao marcar o pênalti. Sem discussão: pênalti contra a Colômbia.
Mas tem que expulsar o Sánchez de campo por causa disso? Por colocar o braço na bola para cortar o chute? A marcação do pênalti já não é punição suficiente? O colombiano cometeu alguma violência, alguma deslealdade, alguma agressão a um adversário? Pôs em risco a integridade física de um japonês? Reclamou do juiz? Ofendeu? Um cartão amarelo seria muito bem aplicado. Mas um cartão vermelho porque o jogador fez um pênalti sem ter sido sequer uma falta contra um rival... Acho um exagero.
Vejam só como são os cidadãos que mandam na arbitragem, seja na Fifa, seja na Uefa, seja na Conmebol, seja na CBF. Num jogo anterior da mesma competição, a Copa do Mundo da Rússia a que estamos assistindo, há poucos dias, Neymar, só ele, sofreu 10 faltas no jogo com a Suíça, foi caçado no campo — e não houve nenhum cartãozinho vermelho dado pelo árbitro, não houve sequer advertência aos suíços que quiseram parar Neymar a pontapés. Nenhum. Quer dizer: os senhores da Fifa acham muito mais grave botar a mão na bola (que tem de ser punido sim, com pênalti como no caso) do que agredir adversários o tempo todo. É por isso que estamos vendo um futebol cada vez mais violento, em todos os cantos do mundo.
O futebol globalizado começa a mexer com o poderio dos países.
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