O vice-campeonato para o Clube do Remo no Campeonato Paraense deixa um gosto amargo que vai além da rivalidade com o Paysandu. Durante boa parte do estadual, o Leão utilizou uma equipe alternativa, priorizando o início da Série A do Campeonato Brasileiro.
A promessa, porém, era clara: na final, a chamada "cavalaria", o time que disputa a elite nacional, entraria em campo para resolver. Entrou, mas não resolveu.
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A expectativa de que a diferença de divisões seria determinante alimentou discursos de confiança no lado azulino. Após o primeiro jogo da decisão, inclusive, o presidente remista Antônio Carlos Teixeira, o Tonhão, afirmou em entrevista à Rádio Clube do Pará que o Papão havia perdido a grande chance de ser campeão, sugerindo que, com o time principal em campo, o cenário seria diferente.

O futebol, no entanto, costuma punir previsões precipitadas. No segundo confronto, mesmo com o time considerado titular, o Remo não conseguiu superar o rival. O empate sem gols confirmou o título bicolor e virou combustível para provocações do outro lado. O atacante Ítalo, do Paysandu, resumiu bem a narrativa construída ao longo da final.
"No primeiro jogo eles não estavam completos. No segundo, a cavalaria entrou, mas também não conseguiram. A culpa acabou sendo do treinador. Hoje temos que ver de quem foi a culpa, do campo, da bola… não sei qual vai ser a desculpa do outro lado. Três jogos. Não conseguiram nos vencer. Mostramos que fomos superiores", disse o atacante à TV Cultura.
A ironia também apareceu na diretoria bicolor. O presidente do Paysandu, Márcio Tuma, resumiu a diferença de discurso entre os clubes com uma frase que rapidamente circulou entre torcedores.
"Mandaram a cavalaria e eu entrei com as crias", disse em referência aos 14 jogadores da base que estão no profissional.

Mais do que a rivalidade, a final deixa algumas lições importantes ao Remo. A primeira delas é a necessidade de humildade. No futebol, história recente e divisões nacionais pouco significam quando a bola rola. Não é a primeira vez que isso acontece no clássico. Ao longo dos anos, o próprio Remo já venceu o rival mesmo estando em divisões inferiores ou sem calendário nacional. O Re-Pa sempre foi um jogo à parte.
A segunda lição é que dinheiro e estrutura, sozinhos, não garantem superioridade dentro de campo. Ter um elenco mais caro ou disputar uma divisão acima não substitui organização tática, equilíbrio emocional e comprometimento competitivo. Em clássicos, especialmente, o jogo costuma ser decidido por entrega e concentração.
Alguns jogadores azulinos chegaram a afirmar ao longo da semana da final que o Remo tinha o melhor time e que, se igualasse a disposição do rival, a qualidade técnica faria a diferença. A prática mostrou que a equação não é tão simples assim.
O Parazão também serve como alerta para a diretoria. A passagem do técnico Juan Carlos Osorio deixou marcas de instabilidade. O treinador colombiano demorou a encontrar um time ideal, promoveu muitas mudanças nas escalações e acabou demitido após o primeiro jogo da final. A decisão veio tarde. E a equipe foi para a final com o interino Flávio Garcia.

A situação lembra outro capítulo recente da história azulina. Em 2025, o português António Oliveira também permaneceu mais tempo do que o desempenho justificava, em uma tentativa de sustentar um projeto de longo prazo.
No futebol brasileiro, no entanto, raramente há tempo para que ideias amadureçam. Ou o trabalho encaixa rapidamente, como aconteceu em outros momentos com técnicos que chegaram e deram resultado imediato, ou dificilmente engrena depois.
Agora, sob o comando de Léo Condé, o clube também terá de olhar para dentro do elenco. O Campeonato Paraense mostrou que alguns jogadores não conseguiram corresponder ao nível de exigência esperado para um time que disputa a Série A. Uma revisão do grupo parece inevitável.
Outro fator que ajuda a explicar o cenário é a transição na área de futebol. O executivo Marcos Braz permaneceu no cargo até 25 de janeiro, quando as partes não chegaram a um acordo para renovação no fim de 2025.
O substituto, Luís Vagner Vivian, assumiu posteriormente, mas não foi o responsável direto pela montagem do elenco atual. Isso significa que o novo departamento de futebol precisará ajustar o grupo durante a temporada.
O vice-campeonato estadual não define o ano do Remo. O clube tem um calendário mais robusto pela frente e competições nacionais que exigem foco total. Mas o Parazão deixa um recado claro: no clássico mais tradicional da Amazônia, discurso e investimento pesam menos que organização, entrega e respeito à camisa.
Se a "cavalaria" não resolveu, cabe agora ao Leão Azul transformar a derrota em aprendizado antes que a temporada cobre um preço ainda maior.
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