O brasileiro Luciano Drehmer mora na China há três anos, mas quando o surto do novo coronavírus começou na cidade de Wuhan, província chinesa de Hubei, ele estava trabalhando em Bangkok, na Tailândia. "Foi justamente quando turistas chineses de Wuhan e várias partes da China começaram a chegar na Tailândia, na época do ano novo chinês, feriado nacional deles".
Após perceber que Bangkok não era a opção mais segura naquele momento, Drehmer resolveu ir para a Europa, para esperar o surto passar e onde ele poderia continuar trabalhando. Porém quando os casos de Covid-19 chegaram à Europa, ele resolveu novamente mudar e voltou para Hong Kong.
Na china encontrou uma situação que jamais imaginaria ver, começando pela entrada no país.
"A imigração foi chata, eu tive que preencher um monte de formulários dizendo onde eu tinha passado."
Além da burocracia para entrar na China, o brasileiro notou mudanças no cotidiano e na paisagem da cidade. "Medem sua temperatura em hotel, metrô, restaurante. Tem totem de álcool gel na cidade inteira. Em um shopping, tinha até máquina de luz ultravioleta para desinfetar corrimão de escada rolante. Tudo muito sério."
Depois de entrar no território chinês, ele enfrentou mais burocracia como um cadastro digital e o carimbo da imigração. "Juntaram três oficiais de imigração. Eu nunca tinha visto isso. Veio um tradutor para conversar comigo, disse que eu teria que passar pela quarentena e faria exame de coronavírus. E me disse para esperar, porque chegaria um carro do governo para me levar."
Apesar de ter uma reserva em um hotel de Shenzhen, o brasileiro entrou numa fila e aguardou. Assim como todas as pessoas que entravam na China naquele momento, ele seria levado pelo governo para algum lugar onde teria que ficar por tempo indeterminado. "Não falaram para onde a gente ia. E todo esse pessoal que veio falar com a gente também estavam com aquela roupa, super protegidos".
Uma minivan levou o brasileiro e mais um grupo que estava ali. Depois de passar por dois hotéis, lotados, ele foi deixado no terceiro. "O governo fechou para fazer zona de quarentena. Todo o lugar tem protocolo hospitalar, é cheio de médicos. Fizemos o check-in, subimos um de cada vez e nos colocaram em quartos. Veio uma equipe, mediu minha temperatura de novo".

E, desde então, ele tem sido monitorado. "No outro dia vieram fazer o exame. Deu negativo. Mas toda hora aparece uma equipe médica aqui para medir minha temperatura. Me ligam, perguntam meus sintomas, se estou tossindo, se estou bem".
A porta do quarto fica destrancada e três vezes ao dia, uma pessoa deixa uma sacola com comida na maçaneta, do lado de fora, e bate. O brasileiro só pode abrir a porta, olhar pelo corredor e pegar a comida. Não é permitido sair. "Estou trancado, digamos assim. Provavelmente, se eu sair correndo ali no corredor e desobedecer a quarentena, alguma coisa pode acontecer comigo, mas eu não vou fazer isso".
Durante esse período de quarentena, ele resolver registrar o dia a dia dele através do olho mágico na porta do hotel.
Drehmer não tem residência no país, se tivesse poderia passar a quarentena em casa, porém ele tem que ficar no hotel até que o período de quarentena dele acabe. Enquanto isso ele vê o país, aos poucos, voltar ao normal.
"Aqui, a vida segue normalmente. As pessoas estão trabalhando, as fábricas estão funcionando, as instituições também. Eu olho pela janela e vejo pessoas na rua, de terno, indo trabalhar. Ainda estão seguindo orientações de distanciamento. As pessoas estão usando máscara, estão bem cuidadosas com higiene, mas está cada vez mais normal", relata. Ele planeja voltar ao trabalho assim que sair do hotel. "Eu vou visitar fábricas. Vou pro meu escritório aqui em Shenzhen. Vou pegar um apartamento para mim, finalizar papelada, produzir."
Ele se diz tranquilo de estar na China. "Aqui, no momento, é o lugar seguro. É o lugar estável, é o lugar onde as coisas vão funcionar normalmente. É o melhor lugar para se estar, com certeza".
Quanto a sua família, que está no Brasil Drehmer se diz preocupado. "Isso me preocupa. Eu vejo toda essa triagem que eu passei, todo o cuidado que eles tem. O controle funciona. E dá uma perspectiva para o resto do mundo. Ver o que eles estão fazendo aqui para conter e ver que a gente não está fazendo o mesmo é assustador", revela.
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