Nesta quarta-feira (15), uma das principais historiadoras do país, Lilia Schwarcz, fez uma análise sobre a crise do coronavírus. Em entrevista para o portal GaúchaZH, a professora da Universidade de São Paulo e de Princeton, nos EUA, afirmou que "a doença será desigual em países desiguais", como é o caso do Brasil, e atentou para o fato de que os reflexos da pandemia serão mais severos na parcela mais carente da população.
Segundo Lilia, "a doença atingiu primeiro os setores mais ricos, porque veio do exterior, mas está chegando na população vulnerável" e isso é preocupante:
— Será preciso lidar com responsabilidade não só com mais vulneráveis fisicamente, como idosos e pessoas com problemas cardíacos e respiratórios, mas com aquele que é vulnerável na pobreza. Uma população que não tem acesso igual a equipamentos de saúde, UTI. Existem Estados que estão mais equipados e outros que não estão preparados — disse.
— Os dirigentes serão cobrados com relação a sua responsabilidade. Quer dizer, dar respostas, e dar repostas às características dos seus próprios países. Não ficar atuando com teses negacionistas ou acreditando em um milagre, no balde de ouro no final do arco-íris. Nada disso vai funcionar — completou.
A historiadora, ressaltou que falta ao Brasil uma unidade entre as autoridades para um combate efetivo à pandemia:
— Os países que estão se saindo melhor são aqueles que têm um governo, uma equipe de dirigentes, atuando de forma coerente e unívoca. Isto não está acontecendo no Brasil. Todos estão acompanhando a briga entre ministro da Saúde e o presidente, e isto é péssimo para a população, que fica sem diretrizes muito diretas — afirmou.
– Vários líderes têm surfado na crise, até líderes que praticaram o negacionismo como Donald Trump e Boris Johnson, que ficou inclusive hospitalizado, voltaram atrás e agora estão lidando de forma mais direta com a doença – pontuou.
Lilia, historiadora, ainda fez uma comparação da atual pandemia do covid-19 com outras já registradas no mundo – caso da gripe espanhola:
– Toda vez que nós vivemos uma crise sanitária como essa, nossa primeira percepção é dizer que é tudo totalmente novo. De tempos em tempos a humanidade enfrentou pandemias, desde a antiguidade. No inicio do século 20, o Brasil era definido como um grande hospital, tal a quantidade de epidemias – sustentou, citando também episódios de varíola, tuberculose e lepra.
A historiadora aproveitou para alertou, ainda, para a possibilidade de ocorrer algo semelhante no futuro:
– Há quem compare (o momento atual) com a Segunda Guerra Mundial. Penso que estamos vivendo menos uma situação de guerra, mas mais uma situação de guerra de solidariedade. É preciso fazer uma certa diferenciação, até para não usar uma linguagem bélica. Todo país tem seu exército de reserva, que é importante não porque o país está em guerra, mas porque existe uma previsão de uma guerra. Que tal criarmos um exército de reserva para a saúde então? Os cientistas têm falado disso, que o futuro será cheio de episódios como este. Na Coreia do Sul, há vários casos de reincidência – frisou.
Questionada sobre como a pandemia do coronavírus, se será abordada nos livros de história, Lilia citou a canção O Dia Em Que a Terra Parou, do músico Raul Seixas, e explicou:
– Isso tem me impressionado mais. Nós, que temos a tecnologia a nosso serviço, que acreditamos que ela ia nos emancipar de todos os males, literalmente paramos. Nós paramos por conta de um inimigo invisível que está batendo nas nossas portas.
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