plus
plus

Edição do dia

Leia a edição completa grátis
Edição do Dia
Previsão do Tempo 26°
cotação atual R$


home
DEMASIADAMENTE VERBORRÁGICO

Aluno tira zero em redação ao usar 'palavras difíceis' na Fuvest

Candidato à uma vaga no curso de Direito, ele chamou atenção nas redes sociais por conta do vocabulário utilizado.

twitter Google News
Imagem ilustrativa da notícia Aluno tira zero em redação ao usar 'palavras difíceis' na Fuvest camera O aluno disputava uma vaga em Direito na Universidade de São Paulo (USP). | Divulgação / USP

Nem sempre palavras difíceis são necessárias para transmitir com clareza a mensagem desejada. Foi justamente essa armadilha que custou caro a um candidato na segunda fase da Fuvest 2026, vestibular da Universidade de São Paulo.

Luis Henrique Etechebere Bessa, de 18 anos, teve sua redação zerada e foi desclassificado do processo seletivo para o curso de Direito. Inconformado, ele recorreu à Justiça para exigir uma explicação.

Leia também:

A redação começou com a seguinte frase: "Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito."

O tom, considerado exageradamente erudito, se manteve ao longo de todo o texto. Entre os trechos que mais chamaram atenção estão:

  • "Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo";
  • "Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao 'modus vivendi' da superestrutura cívico-identitária";
  • "Nessa sentido, é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia e pela violência simbólica, sendo o sofrer recôndito o seu suplício, em distintos significantes."

O candidato chegou a publicar relatos sobre o caso no X, mas apagou tudo após receber uma enxurrada de críticas e piadas relacionadas ao estilo da escrita.

Posicionamento da Fuvest

Segundo a Fuvest, o motivo da nota zero foi objetivo: o texto não abordou o tema definido pela frase temática, que era "O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado".

Em nota, a instituição afirmou que "não há indícios suficientes que demonstrem a compreensão do tema e desenvolvimento, o que prejudica sensivelmente a pertinência das informações e da efetiva progressão textual."

A organização também informou que, antes de receber a nota zero, a redação passou por mais de três avaliações independentes — o que, segundo as regras do vestibular, inviabiliza qualquer pedido de revisão.

Candidato recorre na Justiça e aguarda resposta do reitor

Luis Henrique não aceitou a decisão em silêncio. Em entrevista, o jovem contou que recebeu apenas um retorno genérico ao questionar a eliminação e, ao lado da mãe — que é advogada —, entrou com pedido de mandado de segurança:

"Ainda estou aguardando uma resposta do reitor da USP. Só queria entender minha nota", conta ele.

O candidato também defendeu seu estilo de escrita, argumentando que, ao longo dos anos, nunca recebeu indicação sobre o excesso de rebuscamento em seus textos.

Para ele, textos de candidatos ao curso de Direito costumam ser densos em conteúdo e vocabulário — e o dele não seria exceção.

Professores analisam a redação e concordam com o zero

Quando avaliado por diferentes professores de cursinhos pré-vestibulares, todos chegaram à mesma conclusão: a nota estava correta.

Para Marina Rocha, professora do Curso Skued e do Curso Raio-X, o problema central foi estrutural. Segundo ela, o candidato elaborou construções sintáticas extremamente confusas em razão do alto teor de formalidade, o que comprometeu a compreensão do texto.

Isso representa uma falha grave em contexto de vestibular. Já Sérgio Paganim, professor e coordenador de Redação do Curso Anglo, foi ainda mais direto ao apontar os motivos pelos quais considera o texto um exemplo típico de nota zero.

Segundo ele:

  • A falta de conexão de ideias ficou clara porque autores e conceitos se encadeiam entre si, mas nunca se vinculam claramente ao tema proposto;
  • Ausência de posicionamento: o texto funciona como uma colagem de referências intelectuais, sem que nenhuma delas esteja a serviço de um argumento sobre o perdão condicionado ou limitado.

Segundo os profissionais, o caso escancarou um equívoco comum entre vestibulandos: confundir complexidade vocabular com profundidade argumentativa.

Quer receber mais notícias do Brasil e do mundo? Acesse o canal do DOL no WhatsApp!

É reforçado que, no vestibular, o que conta não é o tamanho das palavras, mas a clareza e a consistência das ideias que elas carregam.

Leia o texto na íntegra:

Intentona pela Reconstituição da Interioridade

Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão - significado - múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia.

Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao “modus vivendi” da superestrutura cívico-identitária. Articula a dialética bourdiana - de Pierre Bourdieu - a internalização de signos culturais, fundamentados por efemérides violentas, a partir da impotência reflexiva inerente ao sujeito-interlocutor, o qual se resigna à unidimensionalidade distópica que o cerca. Dessa forma, transfigura-se a universalidade associada ao imperativo categórico no perdão condicionado: busca incessante por relegar a outrem o esvaziamento eudaimônico da individualidade esvaziada.

Ademais, nota-se haver a instrumentalização da razão a partir do Antropo-tecno-ceno - era em que ocorre a comodificação cultural a partir do uso de emergentes adventos tecnológicos. Nesse ínterim, Michael Sandel postula ser promovida pela tecnocracia a associação de concepções desenvolvimentistas à égide capitalista, ocasionando a negligência da seguridade social. Assim, desnuda-se o perdão limitado como sendo uma intentona à valorização do indivíduo cujo “status quo” encontra-se invisibilizado, uma vez que ocorre a busca mercadológica pelo perdão.

Diante do exposto, revela-se a tendência, no espectro contemporâneo, à fragmentação da “psique” coletiva, sendo o “perdão” a elucidação de sua fenomenologia. Nesse sentido, é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia e pela violência simbólica, sendo o sofrer recôndito o seu suplício, em distintos significantes.

Aluno tira zero em redação ao usar 'palavras difíceis' na Fuvest
📷 |Reprodução / Arquivo pessoal
VEM SEGUIR OS CANAIS DO DOL!

Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.

tags

Quer receber mais notícias como essa?

Cadastre seu email e comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Conteúdo Relacionado

0 Comentário(s)

plus

    Mais em Notícias Brasil

    Leia mais notícias de Notícias Brasil. Clique aqui!