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FENÔMENO CLIMÁTICO

El Niño pode encarecer alimentos e aumentar inflação no Brasil

Mudanças nas chuvas e nas temperaturas podem afetar safras, logística e energia; impacto dos preços dos alimentos deve variar conforme região e tipo de cultivo.

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Imagem ilustrativa da notícia El Niño pode encarecer alimentos e aumentar inflação no Brasil camera O avanço do El Niño pode mexer com o preço dos alimentos no Brasil nos próximos meses. | Rafa Neddemeyer/Agência Brasil

O El Niño pode voltar a colocar os preços dos alimentos no centro das preocupações econômicas do Brasil no segundo semestre. O fenômeno climático altera o regime de chuvas e as temperaturas e pode prejudicar a produção agrícola em diferentes partes do país, reduzindo a oferta de determinados produtos e aumentando a instabilidade dos preços nos supermercados.

O impacto, porém, não deve atingir todos os alimentos da mesma maneira. Especialistas explicam que o fenômeno produz efeitos distintos de acordo com a região, o tipo de cultura e o momento do ciclo agrícola em que ocorrem as alterações climáticas.

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POR QUE O EL NIÑO PODE AUMENTAR OS PREÇOS?

Mudanças nas chuvas e nas temperaturas podem afetar safras, colheitas e transporte, reduzindo a oferta de alguns produtos e pressionando os valores no supermercado.
📷 Mudanças nas chuvas e nas temperaturas podem afetar safras, colheitas e transporte, reduzindo a oferta de alguns produtos e pressionando os valores no supermercado. |Tânia Rego/Agência Brasil

A relação entre o fenômeno climático e a inflação ocorre principalmente pela oferta de alimentos. Quando uma seca, onda de calor, chuva intensa ou enchente prejudica uma plantação, a quantidade de produtos disponível para o mercado pode diminuir. Se a procura continuar elevada, a redução da oferta tende a pressionar os preços.

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Segundo André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre), o El Niño não deve ser visto simplesmente como um fenômeno que provoca inflação.

Para o economista, o principal efeito é o aumento da incerteza climática e da distribuição de riscos. Por isso, é necessário observar quais regiões terão excesso ou falta de chuva, quais culturas estão instaladas nesses locais e em que fase do ciclo produtivo elas estarão quando ocorrerem os eventos climáticos.

NEM TODA REGIÃO TERÁ O MESMO IMPACTO

No Brasil, o El Niño costuma estar associado a mais chuvas no Sul e a condições mais quentes e secas em partes do Norte e do Nordeste. Dessa forma, enquanto algumas lavouras podem se beneficiar, outras podem enfrentar queda de produtividade.

A produção de soja e milho, por exemplo, pode ser favorecida em determinadas áreas pelo aumento das chuvas. Em outras regiões, entretanto, a falta de água pode provocar perdas.

Essa distribuição desigual dos efeitos ajuda a explicar por que o fenômeno pode provocar aumento mais forte em determinados produtos, sem necessariamente fazer com que todos os alimentos subam de preço ao mesmo tempo.

HORTALIÇAS E FRUTAS PODEM SENTIR PRIMEIRO

As primeiras consequências no mercado podem aparecer em produtos de ciclos mais curtos, como frutas e hortaliças.

De acordo com André Diz, professor de Economia do Ibmec-SP, chuvas muito fortes e outras alterações climáticas podem comprometer não apenas o desenvolvimento das plantas, mas também a colheita e o transporte da produção.

Isso significa que o consumidor pode enfrentar aumento de preços mesmo quando a produção não é completamente perdida. Se houver dificuldade para colher ou transportar os alimentos, a quantidade que efetivamente chega ao mercado também pode diminuir.

CLIMA PODE DESORGANIZAR CALENDÁRIO AGRÍCOLA

Os efeitos também podem aparecer no médio e longo prazo em culturas com ciclos mais demorados.

Um período de chuvas excessivas no Centro-Oeste, por exemplo, pode atrasar a colheita da soja. Esse atraso interfere no calendário das atividades seguintes e pode postergar o plantio do milho.

A chamada desorganização do calendário agrícola cria um efeito em cadeia, alterando períodos de plantio e colheita e podendo comprometer a oferta futura de determinadas commodities.

ALIMENTOS VINHAM AJUDANDO A SEGURAR A INFLAÇÃO

O possível aumento da pressão sobre os alimentos ocorre em um momento no qual esse grupo vinha contribuindo para conter a inflação brasileira.

Em julho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,07%, enquanto o grupo Alimentação e Bebidas apresentou queda de 0,67%.

Esse cenário pode mudar caso os efeitos climáticos reduzam a oferta de produtos agrícolas nos próximos meses.

Para André Diz, um eventual super El Niño pode acelerar a alta dos preços e aumentar a pressão sobre o poder de compra das famílias.

ENERGIA TAMBÉM PODE SOFRER INFLUÊNCIA

Os alimentos não são o único setor que pode sentir os efeitos do El Niño. As alterações no regime de chuvas também podem afetar a geração de energia elétrica.

Segundo André Braz, mudanças importantes no volume e na distribuição das chuvas interferem nas condições dos reservatórios das hidrelétricas. O impacto, porém, não é automático e depende das regiões onde as chuvas ocorrem e da situação do sistema elétrico brasileiro.

TRANSPORTE E LOGÍSTICA ENTRAM NA CONTA

Outro possível efeito está relacionado ao transporte da produção. Chuvas intensas podem danificar estradas e dificultar o escoamento de mercadorias. Em períodos prolongados de seca, rios de determinadas regiões podem apresentar condições menos favoráveis à navegação.

Quando o transporte fica mais caro ou demorado, parte desse aumento de custo pode acabar incorporada ao preço final dos produtos.

ALTA DE INSUMOS PODE CHEGAR AOS PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS

O efeito do clima também pode ultrapassar as prateleiras de produtos in natura. Matérias-primas agrícolas são utilizadas por diversas indústrias.

Se esses insumos ficam mais caros devido a problemas climáticos, o aumento pode ser repassado posteriormente para alimentos industrializados e outros produtos que dependem da produção agrícola.

Por isso, o impacto do El Niño na inflação pode aparecer de forma gradual e atingir diferentes setores da economia.

O QUE ESPERAR NOS PRÓXIMOS MESES?

O principal ponto de atenção será o comportamento regional das chuvas e das temperaturas e seus efeitos sobre cada cultura agrícola. Não existe, portanto, uma relação automática em que a chegada do El Niño significa aumento generalizado dos alimentos.

O cenário dependerá da intensidade dos eventos climáticos, das regiões atingidas, do estágio das lavouras e da capacidade de produtores e sistemas de transporte absorverem eventuais perdas.

Para o consumidor, o resultado pode aparecer principalmente na forma de maior volatilidade dos preços dos alimentos, justamente em um momento em que a inflação e o poder de compra continuam sendo questões importantes para as famílias brasileiras.

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