O El Niño pode voltar a colocar os preços dos alimentos no centro das preocupações econômicas do Brasil no segundo semestre. O fenômeno climático altera o regime de chuvas e as temperaturas e pode prejudicar a produção agrícola em diferentes partes do país, reduzindo a oferta de determinados produtos e aumentando a instabilidade dos preços nos supermercados.
O impacto, porém, não deve atingir todos os alimentos da mesma maneira. Especialistas explicam que o fenômeno produz efeitos distintos de acordo com a região, o tipo de cultura e o momento do ciclo agrícola em que ocorrem as alterações climáticas.
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POR QUE O EL NIÑO PODE AUMENTAR OS PREÇOS?

A relação entre o fenômeno climático e a inflação ocorre principalmente pela oferta de alimentos. Quando uma seca, onda de calor, chuva intensa ou enchente prejudica uma plantação, a quantidade de produtos disponível para o mercado pode diminuir. Se a procura continuar elevada, a redução da oferta tende a pressionar os preços.
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Segundo André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre), o El Niño não deve ser visto simplesmente como um fenômeno que provoca inflação.
Para o economista, o principal efeito é o aumento da incerteza climática e da distribuição de riscos. Por isso, é necessário observar quais regiões terão excesso ou falta de chuva, quais culturas estão instaladas nesses locais e em que fase do ciclo produtivo elas estarão quando ocorrerem os eventos climáticos.
NEM TODA REGIÃO TERÁ O MESMO IMPACTO
No Brasil, o El Niño costuma estar associado a mais chuvas no Sul e a condições mais quentes e secas em partes do Norte e do Nordeste. Dessa forma, enquanto algumas lavouras podem se beneficiar, outras podem enfrentar queda de produtividade.
A produção de soja e milho, por exemplo, pode ser favorecida em determinadas áreas pelo aumento das chuvas. Em outras regiões, entretanto, a falta de água pode provocar perdas.
Essa distribuição desigual dos efeitos ajuda a explicar por que o fenômeno pode provocar aumento mais forte em determinados produtos, sem necessariamente fazer com que todos os alimentos subam de preço ao mesmo tempo.
HORTALIÇAS E FRUTAS PODEM SENTIR PRIMEIRO
As primeiras consequências no mercado podem aparecer em produtos de ciclos mais curtos, como frutas e hortaliças.
De acordo com André Diz, professor de Economia do Ibmec-SP, chuvas muito fortes e outras alterações climáticas podem comprometer não apenas o desenvolvimento das plantas, mas também a colheita e o transporte da produção.
Isso significa que o consumidor pode enfrentar aumento de preços mesmo quando a produção não é completamente perdida. Se houver dificuldade para colher ou transportar os alimentos, a quantidade que efetivamente chega ao mercado também pode diminuir.
CLIMA PODE DESORGANIZAR CALENDÁRIO AGRÍCOLA
Os efeitos também podem aparecer no médio e longo prazo em culturas com ciclos mais demorados.
Um período de chuvas excessivas no Centro-Oeste, por exemplo, pode atrasar a colheita da soja. Esse atraso interfere no calendário das atividades seguintes e pode postergar o plantio do milho.
A chamada desorganização do calendário agrícola cria um efeito em cadeia, alterando períodos de plantio e colheita e podendo comprometer a oferta futura de determinadas commodities.
ALIMENTOS VINHAM AJUDANDO A SEGURAR A INFLAÇÃO
O possível aumento da pressão sobre os alimentos ocorre em um momento no qual esse grupo vinha contribuindo para conter a inflação brasileira.
Em julho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,07%, enquanto o grupo Alimentação e Bebidas apresentou queda de 0,67%.
Esse cenário pode mudar caso os efeitos climáticos reduzam a oferta de produtos agrícolas nos próximos meses.
Para André Diz, um eventual super El Niño pode acelerar a alta dos preços e aumentar a pressão sobre o poder de compra das famílias.
ENERGIA TAMBÉM PODE SOFRER INFLUÊNCIA
Os alimentos não são o único setor que pode sentir os efeitos do El Niño. As alterações no regime de chuvas também podem afetar a geração de energia elétrica.
Segundo André Braz, mudanças importantes no volume e na distribuição das chuvas interferem nas condições dos reservatórios das hidrelétricas. O impacto, porém, não é automático e depende das regiões onde as chuvas ocorrem e da situação do sistema elétrico brasileiro.
TRANSPORTE E LOGÍSTICA ENTRAM NA CONTA
Outro possível efeito está relacionado ao transporte da produção. Chuvas intensas podem danificar estradas e dificultar o escoamento de mercadorias. Em períodos prolongados de seca, rios de determinadas regiões podem apresentar condições menos favoráveis à navegação.
Quando o transporte fica mais caro ou demorado, parte desse aumento de custo pode acabar incorporada ao preço final dos produtos.
ALTA DE INSUMOS PODE CHEGAR AOS PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS
O efeito do clima também pode ultrapassar as prateleiras de produtos in natura. Matérias-primas agrícolas são utilizadas por diversas indústrias.
Se esses insumos ficam mais caros devido a problemas climáticos, o aumento pode ser repassado posteriormente para alimentos industrializados e outros produtos que dependem da produção agrícola.
Por isso, o impacto do El Niño na inflação pode aparecer de forma gradual e atingir diferentes setores da economia.
O QUE ESPERAR NOS PRÓXIMOS MESES?
O principal ponto de atenção será o comportamento regional das chuvas e das temperaturas e seus efeitos sobre cada cultura agrícola. Não existe, portanto, uma relação automática em que a chegada do El Niño significa aumento generalizado dos alimentos.
O cenário dependerá da intensidade dos eventos climáticos, das regiões atingidas, do estágio das lavouras e da capacidade de produtores e sistemas de transporte absorverem eventuais perdas.
Para o consumidor, o resultado pode aparecer principalmente na forma de maior volatilidade dos preços dos alimentos, justamente em um momento em que a inflação e o poder de compra continuam sendo questões importantes para as famílias brasileiras.
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