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MÉDIUM FAKE?!

Máira Rocha é acusada de usar dados da internet em cartas

Médium cearense foi denunciada à Federação Espírita do Distrito Federal e à polícia após famílias questionarem a origem de informações

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Imagem ilustrativa da notícia Máira Rocha é acusada de usar dados da internet em cartas camera Máira Rocha é acusada de usar dados da internet em cartas | Foto: Reprodução/YouTube.

Famílias que procuraram a médium cearense Máira Rocha em busca de mensagens de parentes mortos afirmam ter encontrado, nas cartas apresentadas como psicografadas, informações que poderiam ter sido obtidas em redes sociais, reportagens e outros conteúdos disponíveis na internet. As denúncias, que também envolvem suspeitas de ameaça, charlatanismo e estelionato, foram reveladas pelo Fantástico, da TV Globo, no domingo (6), após mais de dois meses de investigação.

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Natural de Jati, no interior do Ceará, Máira é advogada, servidora do Ministério da Saúde e ganhou notoriedade no meio espírita por realizar atendimentos mediúnicos e produzir as chamadas cartas consoladoras. Procurada pelo Fantástico, ela não aceitou conceder entrevista para a reportagem.

Famílias questionam origem das informações

Entre as pessoas ouvidas pelo programa está a empresária Marina Escames, que perdeu o marido, Thiago, vítima de leucemia. Espírita kardecista, ela procurou Máira na esperança de receber notícias do companheiro e encontrar uma forma de amenizar a dor do filho caçula, Matteo, que tinha três anos quando o pai morreu.

“Eu acreditava piamente que ela seria uma ponte entre mim e o Thiago”, relatou Marina.

A comerciante Marcela Magalhães também recorreu à médium após perder o filho Henrique, de 18 anos, em um acidente de carro. Segundo ela, o sofrimento causado pelo luto a deixou vulnerável.

“É tanta dor que você acredita em qualquer coisa”, afirmou.

As duas, posteriormente, passaram a questionar a autenticidade das mensagens recebidas.

Carta sobre filho morto trazia informação publicada na internet

Segundo a reportagem, durante uma transmissão ao vivo, Máira teria se referido a Henrique como “um jogador de futebol que desencarnou muito cedo”. A família afirma, porém, que o jovem nunca foi jogador profissional.

Marcela descobriu posteriormente que uma fotografia do filho usando uniforme esportivo havia sido publicada em uma reportagem sobre o acidente. O texto jornalístico também o descrevia, de forma equivocada, como jogador de futebol.

Outro episódio aumentou as suspeitas. Máira teria relacionado Henrique a dois jovens que apareciam em uma montagem publicada nas redes sociais de Marcela. De acordo com a família, entretanto, as três pessoas morreram em circunstâncias e momentos diferentes.

Outra família encontrou erros em carta psicografada

Diva Mascarenhas Borges também procurou Máira após a morte de um familiar. Segundo ela, a carta recebida continha informações que não correspondiam à realidade da família.

Em um dos trechos, o falecido teria manifestado o desejo de conversar com Judite, sua esposa. O problema, segundo Diva, é que Judite havia morrido um ano antes.

A família também questionou a utilização de nomes que não eram mais usados no dia a dia. Dois irmãos adotivos de Diva, por exemplo, foram registrados originalmente como Edvano e Edvani, mas posteriormente passaram a utilizar outros nomes. De acordo com ela, foram os nomes antigos que apareceram na carta.

Denúncias chegaram a entidades espíritas e à polícia

Diva levou o caso à Federação Espírita do Distrito Federal e, conforme o relato apresentado pelo Fantástico, descobriu que outras pessoas também haviam denunciado Máira.

O presidente da entidade, Paulo Costa, afirmou ter recebido relatos de pessoas que buscaram as cartas como forma de consolo e posteriormente suspeitaram que as informações apresentadas nas mensagens poderiam ter sido obtidas em jornais, redes sociais ou outros conteúdos disponíveis na internet.

Outro denunciante, identificado como Silvano, questionou uma carta atribuída à mãe, que morreu em 2000. Segundo ele, a mensagem citava nomes de familiares, mas deixava de mencionar um dos netos e incluía como neta uma pessoa que, de acordo com a família, era sobrinha da cunhada.

Silvano registrou boletins de ocorrência no Distrito Federal por suspeitas de charlatanismo e ameaça. A reportagem também mencionou registros policiais contra Máira em pelo menos cinco estados, relacionados a suspeitas de estelionato, calúnia, difamação e ameaça.

As acusações, contudo, ainda são objeto de apuração e não representam, por si só, uma condenação ou comprovação das práticas atribuídas à médium.

Médium criou instituição que atende cerca de 5 mil pessoas

No início de 2026, Máira fundou a Casa da Caridade Inácio Daniel, instituição voltada a atividades assistenciais e espirituais.

Segundo o Fantástico, o espaço atende aproximadamente 5 mil pessoas por mês e é mantido por meio de doações. Entre as ações estão a distribuição de alimentos, roupas e agasalhos, além de atendimentos espirituais e produção de cartas consoladoras.

A instituição também promovia leilões de roupas e objetos utilizados pela médium durante sessões. A prática é criticada por representantes da Federação Espírita Brasileira (FEB).

O presidente da entidade, Jorge Godinho, afirmou que a doutrina espírita não autoriza nem ensina a realização de leilões desse tipo e defendeu que o trabalho mediúnico seja feito de maneira desinteressada.

Máira afirma ter contato com espíritos desde os sete anos

Antes de ganhar notoriedade pelas cartas psicografadas, Máira já relatava experiências mediúnicas desde a infância.

Em uma palestra realizada em 31 de maio de 2019, em Franca (SP), durante o evento “Cartas Consoladoras”, do Recanto Espírita Maria de Nazaré, ela afirmou que começou a se comunicar com espíritos aos sete anos.

Segundo seu próprio relato, ela cresceu no interior do Ceará em uma família formada por católicos e evangélicos. Na época, afirma que os familiares não compreendiam suas experiências.

“Desde os sete anos que eu me conheço por falar com os espíritos. Até então eu não intitulava a eles espíritos, porque eu não tinha conhecimento, eram amigos como são hoje, só que desconhecidos meus”, relatou.

Durante a palestra, Máira também contou episódios que teriam ocorrido na infância. Em um deles, afirmou que acompanhava a mãe, professora de matemática, durante as aulas.

Segundo Máira, durante uma prova, teria começado a ditar respostas aos estudantes após receber informações dos espíritos. Ela chegou a escrever respostas no quadro enquanto a mãe corrigia outras avaliações e, conforme seu relato, os alunos teriam conseguido nota 10.

A prima, Márcia Rocha, apresentou uma versão diferente ao Fantástico. Ela afirmou que nunca percebeu manifestações mediúnicas durante a infância de Máira e avaliou que, em uma cidade pequena como Jati, um fenômeno desse tipo dificilmente passaria despercebido.

Márcia também contestou a origem do apelido “Lê”, que Máira associava a um espírito que teria lhe ensinado a ler. Segundo a prima, o apelido seria uma referência ao nome Alexandrina, de Máira Alexandrina.

Pessoas também relatam experiências positivas

Apesar das denúncias, Máira também é defendida por pessoas que afirmam ter recebido cartas com informações que, segundo elas, seriam desconhecidas pela médium.

Os relatos foram divulgados em vídeos publicados no Instagram da cearense.

Um homem que perdeu o filho durante um assalto, em 2018, afirma ter recebido uma mensagem cinco anos depois contendo detalhes como seu apelido, um cordão de ouro que havia recebido do filho e o nome de sua loja.

Outra mulher relatou ter perdido o filho, de 27 anos, para a Covid-19, em março de 2020. No mês seguinte, recebeu uma carta atribuída ao jovem e afirma que Máira mencionou detalhes que, segundo ela, apenas os dois conheciam.

Há ainda o caso de uma mulher que recebeu uma carta atribuída à mãe, em 2019. Segundo ela, a mensagem mencionava uma antiga fonte localizada na Praça da Sé, no Crato (CE). A informação teria sido posteriormente confirmada por uma sobrinha, que pesquisou fotografias históricas do município.

Além das cartas, há acusações de ameaças

A investigação apresentada pelo Fantástico também reuniu acusações que vão além das supostas cartas psicografadas. O material menciona denúncias envolvendo ameaça, estelionato, charlatanismo, calúnia e difamação.

O Ministério Público também teria recebido relatos sobre suposta apropriação indébita, desvio de recursos e possível rede de influência envolvendo servidores públicos. Essas acusações também permanecem sob apuração.

Marcela Magalhães afirmou ter sido ameaçada depois de questionar o trabalho da médium. Segundo ela, Máira teria dito que poderia fazer uma transmissão ao vivo para divulgar informações pessoais que haviam sido compartilhadas durante um momento de fragilidade.

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“Uma dor muito grande, um problema muito sério que havia acontecido comigo e que eu desabafei com ela”, relatou Marcela.

A reportagem também apresentou vídeos em que Máira faz declarações em tom de advertência direcionadas a pessoas que questionassem seu trabalho.

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