A capital fluminense tornou-se pioneira em nova estratégia no combate à dengue - o uso do fumacê fora de epidemia. Funcionários da Secretaria Municipal de Saúde fazem pulverização nas áreas de maior risco de surto da cidade desde ontem (05). A intenção é reduzir a infestação do mosquito antes do verão, quando o Aedes aegypti se prolifera mais rapidamente.
Mas a estratégia tem a sua eficácia contestada. O professor de virologia Maulori Cabral, do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que os mosquitos já estão "imunizados" pelo uso do inseticida nos anos anteriores. "Agentes químicos matam 99% dos mosquitos. Aquele 1% resistente terá filhos resistentes. O fumacê afetará a população de borboletas, grilos, joaninhas e afastará os pássaros, que se alimentam desses insetos", afirmou. A assessoria de Imprensa da Secretaria de Saúde informou que o fumacê foi usado pela última vez em 2006, em pequena escala.
A ação começou por favelas da região do Anil, em Jacarepaguá. Trinta técnicos, divididos em três equipes, utilizaram equipamentos portáteis (o ultra baixo-volume), adequados para locais de difícil acesso, como becos, onde o carro fumacê não chega. Na primeira etapa, 47 bairros foram selecionados, de acordo com os novos critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde.
A nova regra leva em consideração o índice de infestação do Aedes aegypti, densidade da população, incidência de casos em epidemias anteriores, circulação do vírus predominante e cobertura de abastecimento de água. De acordo com essa nova metodologia, 55 bairros da capital fluminense têm risco alto ou muito alto para um surto no próximo verão. Nessas regiões, vivem 40% da população da cidade.
A superintendente de Vigilância em Saúde do município, Rosana Iozzi, afirmou que toda a estratégia foi desenvolvida em conjunto com o Ministério da Saúde. "O trabalho não se resume ao carro fumacê nem ao uso do inseticida portátil. Esses métodos estão associados ao combate a criadouros, larvas e possíveis focos", ressaltou. Este ano, foram realizados 13 mutirões, em que agentes visitaram mais de 120 mil imóveis e recolheram 142 toneladas de lixo. Para o professor Maulori, o ambiente livre de criadouros é a única maneira eficaz de se combater a proliferação do mosquito. "Povo educado é povo livre da dengue", sentenciou. Ele sugeriu que as pessoas mantenham em casa "armadilhas" para o mosquito, numa receita simples que utiliza garrafas pet. "A armadilha serve, na verdade, como alerta. Se tem larva, é porque você ou o seu vizinho não fizeram o seu trabalho corretamente."
O presidente da Associação Brasileira do Controle de Vetores e Pragas, Claudio Salem, alertou para a necessidade de os equipamentos usados pelos agentes estarem bem calibrados. "A gota do inseticida não deve ser muito pequena, sob o risco de ser inalada pela população; nem muito grande, ou ela cai ao lado da máquina e não atinge a distância que deve", afirmou.
A entidade, que reúne 300 empresas de controle de pragas, criou programa gratuito de combate à dengue. A cada dedetização contratada (contra baratas, ratos ou cupins), as empresas do Rio farão também a busca por criadouros do Aedes aegypti. Os locais serão limpos e as secretarias de Saúde, notificadas. (AE)
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