Apesar de representar a continuidade da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente eleita Dilma Rousseff deve se diferenciar de seu antecessor na condução da política externa e no estilo pessoal de governar.
“Sai um líder carismático, um líder de massas, uma figura de longa trajetória política na cena pública e entra uma liderança de perfil mais de bastidores, muito técnico”, afirmou o cientista político da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Claudio Couto.
O professor de política da USP José Álvaro Moisés diz que o perfil da nova presidente, no entanto, não resulta em um governo burocrático. “Ela tem formação, e isso não quer dizer que seu governo será tecnocrático. Ela pode colocar essa racionalidade política a serviço de desafios como o da pobreza” afirmou.
A opinião é compartilhada por Couto, que acrescenta que o próximo governo “tende a reposicionar os partidos, já que a área social deixaria de ser monopólio do PT e a gestão deve sair do monopólio do PSDB”.
Política externa
Para o especialista da FGV, o perfil técnico de Dilma cria um novo tipo de estratégia na condução das relações exteriores “com momentos de maior agressividade, de pró-atividade, de visibilidade pública e outros de perfil um pouco discreto, que permite negociação de bastidores e concretização de certos acordos”, afirmou.
As recentes críticas de Dilma ao Irã pela condenação de Sakineh Ashtian à morte por traição ao seu marido mostram uma postura mais influente nas relações internacionais, segundo Couto.
“No governo Lula houve mais uma política formulada a partir do próprio chanceler [Celso Amorim] e do Marco Aurélio Garcia [assessor especial da Presidência] do que uma política do presidente. A sinalização da Dilma nessa questão pode indicar uma postura influente na formulação da própria política”, afirmou.
A postura de Dilma pela condenação de países que desrespeitam os direitos humanos em reunião da ONU (Organização das Nações Unidas) é citada por Moisés como outro indício de uma postura firme nas relações exteriores. O especialista lembrou ainda que Dilma deu declarações mais incisivas sobre a questão da liberdade de imprensa e reconheceu o papel da oposição, ao contrário do atual presidente, que chegou a pedir a “extirpação” do DEM. “É uma sensibilidade política maior”, afirmou. (eBAND)
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