A visita de Dilma a Montevidéu também marcará a reunião entre os dois únicos ex-guerrilheiros que chegaram à presidência de seus países na América do Sul por vias democráticas. No entanto, Mujica passou mais tempo na prisão do que Dilma, já que amargou 13 anos de torturas nos cárceres entre 1972 e 1985 (esteve preso durante um ano do governo civil e mais doze durante a ditadura militar).
Mujica padeceu vários anos na solitária, onde sua saúde foi duramente abalada. Nos dias de bom humor dos guardas da prisão, Mujica só podia ir ao banheiro uma vez a cada 24 horas. Mas, somente com um capuz na cabeça que o impedia ver, além de ter as mãos algemadas. Nos dias de má vontade de seus carcereiros, Mujica não podia ir no banheiro. Sem alternativa, as fezes e urina escorriam por suas pernas em sua solitária.
Seu colega de guerrilha, Eleuterio Fernández Huidobro indicou que Mujica - que durante a prisão sofreu o agravamento de problemas de rins - em diversas ocasiões, quando os guardas passavam dias sem lhe dar água, precisou recorrer aos próprios fluídos corporais. “É a primeira vez que temos um presidente que teve que beber sua própria urina”, ilustrou.
Em 1985, com a volta da democracia, Mujica recuperou a liberdade. Adaptado aos novos tempos, deixou de pregar a luta armada e transformou o grupo de ex-guerrilheiros em um coeso partido político - o Movimento de Participação Popular (MPP) - que integra a coalizão Frente Ampla, uma colcha de retalhos que também reúne socialistas, democratas-cristãos e comunistas.
Eleito deputado e senador nos anos 80 e 90, Mujica foi designado em 2005 pelo presidente Tabaré Vázquez - socialista e médico oncologista - para o cargo de ministro da Agricultura.
Desde esse cargo, começou a planejar sua conquista da presidência. “Presidente? Tão difícil como um leitão assobiando”, dizia pouco antes de começar a campanha eleitoral em 2009. Para não assustar a classe média e alta, indicou - com uma metáfora bovina - que não pretendia mais combater a burguesia: “Não quero mais esmagá-la. De jeito algum. Eu quero é ordenhar a burguesia!”. (ARIEL PALACIOS/Montevidéu/AE)
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