O núcleo duro do esquema do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, criou 59 empresas em 45 diferentes ramos econômicos nas últimas duas décadas. Investigadores da Operação Monte Carlo, comandada pela Polícia Federal, descobriram que até fevereiro, quando a operação foi deflagrada, 37 dessas empresas continuavam ativas na base de dados da Receita Federal. A PF suspeita que boa parte das empresas tenha sido usada para lavar dinheiro das atividades ilícitas do contraventor.
O organograma feito pela polícia aponta que Cachoeira e outras oito pessoas do seu círculo íntimo de parentes e amigos expandiram a estrutura do grupo para além de Goiás e do entorno do Distrito Federal, onde concentraram a atuação. A maior parte das companhias ativas (30) opera em Goiás e no DF, mas o grupo também mantém empresas em São Paulo (2), Paraná (2), Rio de Janeiro (1), Minas Gerais (1) e Tocantins (1). O grupo também já teve operações em Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
A diversidade dos ramos de atuação do grupo impressiona. Destacam-se uma fundação cultural, três rádios, consultorias empresariais e na área de tecnologia, um restaurante, uma fábrica de medicamentos, uma empresa de criação de bois, uma incorporadora imobiliária e uma construtora.
Segundo a PF, Cachoeira e oito pessoas controlavam as empresas. Dois irmãos do contraventor, um ex-genro, um ex-cunhado, a ex-mulher Andrea Aprigio, e dois homens da sua estrita confiança, o braço direito Lenine Araújo de Souza e o tesoureiro Geovani Pereira da Silva - este foragido.
Escutas telefônicas feitas pela PF revelam que o contraventor controlava de perto as atividades. Numa gravação de maio do ano passado, Cachoeira demonstra numa conversa com sua atual mulher, Andressa, preocupação com a eventual separação do ex-cunhado Adriano Aprígio. “Os trem (sic) tá tudo no nome dele”, disse a ela, que chamou o episódio de “bomba”. “Que coisa boa, hein?”, responde Andressa. Já o contraventor não reage com tanta tranquilidade. “Pois é, tem que ver como faz lá.”
Sigilo
O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) afirmou que é “inevitável” que a CPI do Cachoeira, prevista para ser criada na terça-feira, quebre o sigilo de todas essas empresas. “Eu acho que uma investigação séria deve, logo após o depoimento dele, quebrar o sigilo bancário e fiscal de todas essas empresas”, disse.
Randolfe suspeita que haja um sistema de financiamento de campanha de políticos que atuavam em favor das empresas do grupo “É isso que está se caracterizando”, avaliou.
Além de se valer de pessoas próximas para movimentar dinheiro sujo, a PF também está de olho nas empresas de fachada controladas pelo contraventor. A polícia já descobriu que duas empresas, a Brava Construções e a Alberto & Pantoja, têm sócios com vários CPFs, que declaram endereços incorretos e nem sequer possuem capacidade financeira para serem empresários. Segundo a PF, as duas empresas movimentaram milhões de reais de recursos do grupo. (AE)
Um assessor de Agnelo no esquemão
Ex-subsecretário de Esporte do governador Agnelo Queiroz, do Distrito Federal, João Carlos Feitosa, conhecido como Zunga, é um dos mais frequentes interlocutores dos operadores do grupo comandado pelo contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.
Em entrevista ao Grupo Estado, Zunga nega trabalhar para Cachoeira. Ele se trai, no entanto, ao citar nomes de integrantes do grupo, como o do sargento Idalberto Matias (Dadá), antes mesmo de ser questionado sobre a ligação com essas pessoas.
“O Carlinhos (Cachoeira) eu conheço através do futebol, de peladas, e vim conhecer algum outro tipo de pessoas por outro tipo de amizades que eu tenho em Brasília... O Idalberto da mesma forma. Mas sem nenhuma outra relação, não tinha conhecimento do que se passava das atividades deles”, disse.
Uma escuta telefônica no dia 8 de abril do ano passado, de menos de um minuto, mostra Zunga pedindo a Rosalvo Simprini Cruz, contador de Olímpio Quiroga Neto, que também integra o grupo de Cachoeira, que deposite dinheiro em sua conta. E cita o número da conta do Banco Regional de Brasília (BRB). “Em nome de quem?”, pergunta o contador. E Zunga dá o seu nome: João Carlos Feitosa.
Os telefonemas grampeados na Operação Monte Carlo mostram que Zunga não gostou de receber o pagamento semanal de R$ 2,5 mil para colaborar com o grupo. Olímpio pergunta a Rosalvo, em fevereiro do ano passado, se está tudo “certinho” com relação ao pagamento do servidor do governo do DF.
Governo do DF nega benefícios à Delta
O governo do Distrito Federal e a construtora Delta negaram que o governador Agnelo Queiroz (PT) tenha intercedido para beneficiar a empresa, suspeita de ligação com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.
O jornal O Estado de S.Paulo mostrou no sábado que Agnelo, em ofício encaminhado em dezembro de 2010 ao então governador do DF Rogério Rosso, pediu a prorrogação de todos os contratos essenciais. A prorrogação acabou beneficiando a Delta, por ser uma das empresas que detinham contratos com o governo do DF.
“O documento a que a matéria faz referência foi um documento oficial e transparente em que o governador eleito, Agnelo Queiroz, na sua função dentro do governo de transição, pediu à gestão que estava à frente do Governo do Distrito Federal à época que mantivesse a normalidade dos serviços públicos essenciais à população”, afirmou o governo em nota. “O documento de forma alguma pedia favorecimento a qualquer empresa.”
A LICITAÇÃO
A Delta também alega que o contrato para a prestação de serviços de limpeza urbana no DF não foi suspenso em 2010. A empresa venceu a licitação para fazer a coleta de lixo em 2007, mas não assumiu os trabalhos porque um dos concorrentes questionou na Justiça a validade dos atestados apresentados pela construtora.
“No dia 11 de dezembro de 2010, e só naquele momento, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal considerou válido o atestado apresentado pela Delta Construção e ordenou que a empresa assumisse o contrato”, disse a Delta.
O governo do DF também justificou o aumento no volume de repasses de recursos para a construtora entre 2010 e 2011. “É natural que, em 2011, os valores recebidos pela Delta sejam superiores aos do ano anterior, já que em 2010 ele não estava ainda executando o contrato”. Em 2010, a Delta recebeu R$ 19,4 milhões do GDF. Em 2011, o valor foi de R$ 92,8 milhões. (AE)
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