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Conferência promove encontro dos paradoxos

As duas expressões mais usadas na Conferência Rio + 20 são sustentabilidade e economia verde. O problema é que são dois termos que comportam significados diferentes de acordo com a ideologia do freguês. Em muitos casos, as diferenças são quase intransponí

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As duas expressões mais usadas na Conferência Rio + 20 são sustentabilidade e economia verde. O problema é que são dois termos que comportam significados diferentes de acordo com a ideologia do freguês. Em muitos casos, as diferenças são quase intransponíveis. Num documento distribuído durante os primeiros dias do evento, o instituto Vitae Civilis definiu economia verde como um conjunto de atividades econômicas que resultaria na melhoria do bem-estar humano com igualdade e justiça social, ao mesmo tempo que preserva e reconhece o valor inerente da natureza.

É um conceito que seria assinado pela ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira. A ministra elogiou os povos amazônicos e destacou o programa Municípios Verdes como um exemplo a ser seguido pelo resto do País. Mas se a ministra ouvisse a índia maranhense Sônia Guajajara perceberia que as diferenças são muito mais profundas. “O governo diz que defende a sustentabilidade e a economia verde, mas inunda terras indígenas com hidrelétricas e retrocede nos direitos já adquiridos pelos povos indígenas. É uma contradição. O que a gente quer aqui na Rio + 20 é dar visibilidade a essa situação”, diz ela. “Eu acredito que economia verde tem um elemento bom dentro do mesmo velho sistema, que é o de tentar preservar, de buscar reflorestar as partes degradadas e tentar manter a floresta em pé”, diz o teólogo Leonardo Boff, uma das personalidades mais celebradas na Cúpula dos Povos.

Boff alerta, no entanto, para o outro lado da economia verde. “Há um significado perverso também, que é o de colocar preço nos bens comuns, vitais, como a água, o gene, as sementes. E tem uma lógica violenta que é o de fazer com que as empresas que desmatam, simultaneamente ganhem dinheiro com o que as florestas fazem pela biodiversidade. Até o nome é violento. Sequestro de carbono”. O teólogo e escritor diz que esse é o último grande assalto do capital. “Tudo se torna mercadoria. Essa acaba sendo a etapa mais agressiva do capitalismo. Depois disso não tem mais nada”.

Programa Municípios Verdes se destacou no evento

Há sonhos e pragmatismos nessa equação. Enquanto Lucinha Pessoa, coordenadora do grupo cultural Iyun Axé Orin, diz que a geração atual está ‘jogando sementes para germinar um futuro sem negatividades’, o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas, Mauro Lúcio Costa, defende a lógica do preservar e produzir de forma mais sustentável para aproveitar também as exigências do mercado. “Não sou ambientalista”, resume. Paragominas se tornou uma das vedetes da Rio + 20, por conta do programa Municípios Verdes. A iniciativa é uma entre tantas que vem sendo apresentadas durante a Rio + 20. Possibilidades de soluções ou pelo menos alternativas mínimas a um futuro que para muitos se configura sombrio.

“Para que os grandes desafios ambientais do século 21 sejam enfrentados e o planeta entre na rota do desenvolvimento sustentável, com o atendimento das necessidades básicas dos seus 7 bilhões de habitantes, é necessária uma mudança urgente e radical dos modelos de governança global”, diz o presidente do Comitê Brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) Haroldo Lemos, ao apresentar as conclusões do painel de pesquisa Foresight Process, um trabalho de oito meses com mais de 400 cientistas e pesquisadores de vários países envolvidos. O trabalho apontou um ranking com as mais expressivas questões ambientais que causam impacto na saúde do planeta e na qualidade de vida das pessoas. Os gargalos são conhecidos. É preciso garantir a segurança alimentar dos quase 9 bilhões de habitantes que se projeta que terá o planeta em 2050. Recursos naturais como a água estão ameaçados. No Brasil, a falta de coleta e de tratamento dos esgotos causa contaminação de rios de forma criminosa. São bilhões de litros de esgoto despejados diariamente na natureza, impactando saúde, renda, turismo. As crianças são as mais atingidas. Segundo estudo apresentado pelo Instituto Terra Brasil, em 2009 quase 70 mil crianças entre zero e cinco anos foram internadas por diarreias no Brasil.

O que dificulta é que as soluções passam pela liberação de verbas. E esse tem sido o principal foco de divergência entre os delegados dos países envolvidos nas negociações do documento final da Conferência. Países ricos descartam a ideia de por a mão no bolso para incentivar programas de sustentabilidade. Na Cúpula dos Povos dinheiro não é a principal preocupação. A ideia é dar um futuro diferente às futuras gerações. “Precisa ser um futuro de mais tolerância cultural e religiosa”, diz Clarisse Mantuano, integrante do grupo afro Okuabo (bem vindo em iorubá). A liberdade religiosa, cultural e sexual também está presente nas aspirações dos grupos sociais que participam da programação alternativa a Rio + 20. “O que tem valor não tem preço. É isso que esses líderes mundiais precisam entender”, resume Leonardo Boff.

(Diário do Pará)

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