A internet e os novos dispositivos eletrônicos de leitura não vão mudar a essência da literatura. A avaliação é da presidenta da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ana Maria Machado. Ela participou da Festa Literária Internacional da Unidade de Polícia Pacificadora (Flupp), que será realizada até domingo na comunidade do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. Ana Maria conversou com um grupo de crianças e adolescentes de escolas públicas do Rio e respondeu a perguntas da plateia.
“A tecnologia não vai modificar a literatura. Pode mudar o mercado de livros. Mas a literatura é a mesma desde que existe a linguagem. Muito antes de existir a escrita, já existia Homero, com a Odisseia e com a Ilíada. A literatura já foi escrita em papiro, em pergaminho, em rolo, em tablita [tabletes de argila]. O que muda é o suporte dela, se é uma tela [de computador] ou se é um livro, isso é secundário.”
Autora de 140 livros, com cerca de 19 milhões de exemplares vendidos, traduzidos para diversas línguas, a presidenta da ABL disse que ainda não disponibilizou nenhuma obra em formato eletrônico. “Enquanto não se descobrir como remunerar o direito autoral, fica só a pirataria”.
Sobre a presença da ABL na Flupp, realizada em uma área onde antes da pacificação das UPPs aparecia quase diariamente na imprensa por causa de tiroteios envolvendo o tráfico de drogas, Ana Maria disse que a academia tem uma ligação histórica com as favelas.
“A gente tem que lembrar que o fundador da academia, Machado de Assis, nasceu no Morro da Providência, a primeira favela do Brasil.
Nossa presença aqui é uma volta ao lugar de onde nunca deveríamos ter saído. Não devíamos ser uma cidade partida. Devemos todos estar juntos, na grande síntese cultural brasileira.”
Uma das perguntas feitas pelos estudantes à autora foi sobre qual era o prazer de sua profissão. “O prazer de ser escritora é poder tocar o outro. Poder chegar à mente, ao coração de outras pessoas. Falar em nome dos outros. Fazer com que o outro se reencontre na gente e que cada um se conheça mais pelo o que a gente escreveu.”
DOLORES EM LIVRO
Dolores Duran (1930-1959), a cantora e compositora que legou à música popular brasileira sucessos como A Noite do Meu Bem, Por Causa de Você e Estrada do Sol, entre outras canções, foi uma mulher muito à frente de seu tempo. Mesmo tendo cursado apenas o então curso primário, a carioca Adiléia Silva da Rocha – o verdadeiro nome da cantora – era bem informada, culta, politizada e autodidata em idiomas.
A vida curta e intensa da estrela que morreu de um enfarte aos 29 anos, no auge da carreira, está contada no livro Dolores Duran: A Noite e as Canções de Uma Mulher Fascinante, que o jornalista e pesquisador musical Rodrigo Faour lançou pela Editora Record, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon.
A biografia, além de esmiuçar as desventuras amorosas, o comportamento boêmio e os problemas pessoais da cantora, traça também um painel do Rio de Janeiro e do Brasil na década de 1950.
Foram mais de 70 entrevistados, entre os que conviveram com a artista, admiradores e nomes da música que contribuíram para imortalizar a obra de Dolores que, apesar de reduzida, teve cerca de 850 regravações até hoje. “Mergulhei fundo para conseguir entrevistar o máximo de pessoas possíveis e recorrer a todo tipo de fonte disponível dos que haviam privado com ela, mas já não estavam mais entre nós”, disse Faour.
Produtor, entre 2009 e 2010, de uma caixa de oito CDs com as músicas compostas ou apenas interpretadas por Dolores Duran, Faour, de 40 anos, teve nesse trabalho a inspiração para escrever a biografia.
(Agência Brasil)
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