A saudade e emoção tomaram conta da missa de sétimo dia em memória de Rafael Dias Ferreira, o jovem paraense que faleceu no incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS). A missa ocorreu na tarde de ontem na Igreja da Trindade e contou com a presença de familiares e amigos que prestaram várias homenagens durante a cerimônia.
Lembrado como um rapaz de temperamento bom e alegre, Rafael recebeu homenagens de primos e tios, por meio de declarações. Um vídeo que mostrava fotos da infância e adolescência dele emocionou os presentes.
“O Rafael era um menino maravilhoso, um orgulho para todos nós, especialmente para o pai dele. Era muito carinhoso e alegre, tava se formando em Biologia e tinha muitos planos”, afirma Adriana Ferreira, prima da vítima.
Apesar da dor da perda, Adriana acredita que o caminho é seguir em frente e tentar ser feliz. “Ele era uma pessoa muito festeira, alegre. Não ia gostar de ver ninguém chorando assim”.
Uma das últimas postagens de Rafael no site de relacionamentos Facebook chamou atenção da família e foi lida algumas vezes durante a missa. No texto, o rapaz falava do desejo de crescer como pessoa no ano que começara. “Quero mudar naturalmente em muitos aspectos. Quero ser tolerante, atencioso e carinhoso com pessoas que estão ao meu redor, minha família. É isso que eu quero. Quero ser de fato amor, perdão e paz. Quero administrar melhor o meu tempo, quero utilizar melhor esse tempo com pessoas que merecem mais do que o tempo que utilizo com eles.Vai dar tudo certo!”
Rafael, que era natural de Belém, mudou-se para Santa Maria para cursar a faculdade de Biologia. Lá, ele já desenvolvia as habilidades profissionais, lecionando para uma turma de crianças e se preparava para a formatura, que seria no ano que vem.
Justiça pode demorar décadas
As famílias das vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, podem encarar mais de uma década de espera na Justiça por reparação dos danos materiais e morais causados pela tragédia. Os processos de indenização são lentos e os cálculos das perdas, subjetivos.
A Defensoria Pública de Santa Maria já pediu o bloqueio dos bens dos sócios da Santo Empreendimento Ltda, nome oficial da casa noturna, mas o perfil da empresa é de pequeno porte. — Em primeira análise, mesmo se alcançarmos todo o patrimônio da empresa e dos sócios, não teremos a justa indenização para essas mais de 200 famílias. A Santo Entretenimento é uma microempresa — afirma o defensor público Andrey Melo, que tem atuado ao lado dos parentes das vítimas.
Segundo o defensor público, a responsabilidade civil da boate é clara. Mas só a conclusão do inquérito poderá comprovar se houve omissão do poder público (estado, por conta da fiscalização dos Bombeiros, e prefeitura, em razão do licenciamento). Em caso afirmativo, as famílias poderiam pensar em incluir, em uma eventual ação indenizatória, o governo estadual e municipal como partes responsáveis, solidariamente, com a tragédia.
— O mais importante agora é que as famílias fiquem unidas, que formem uma associação para buscar o esclarecimento do caso, os responsáveis, a punição e a reparação. Uma boa alternativa para acelerar esse processo, que pode se arrastar por muito mais que uma década, é formar uma Câmara de Negociação com a Defensoria Pública — explica Sandra Assali, presidente da Associação Brasileira de Parentes e Amigos das Vítimas de Acidentes Aéreos (Abrapavaa).
Caso seja confirmada negligência por parte da banda, o grupo musical também poderá ser acionado como parte responsável nos processos de indenização.
ENTENDA A TRAGÉDIA DE SANTA MARIA
Na madrugada do dia 27 de janeiro, centenas de jovens participavam de uma festa na boate Kiss, no Centro de Santa Maria. O fogo começou durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira. Por volta de 2h30m, um dos integrantes do grupo utilizou um sinalizador luminoso, cujas fagulhas atingiram a espuma de isolamento acústico da casa noturna, provocando o incêndio. As vítimas buscaram rotas de fuga, no entanto, segundo relato de sobreviventes, um grupo de seguranças bloqueou a única saída da boate para evitar que os clientes saíssem sem pagar. Sem conseguir sair do estabelecimento, mais de 200 jovens morreram e outros 100 ficaram feridos. A maioria dos mortos foi vítima de intoxicação pela fumaça. Os bombeiros encontraram dezenas de corpos empilhados nos banheiros, onde muitos ainda tentaram se proteger, e em frente à porta da boate. O incêndio, que teve repercussão internacional, é considerado o segundo maior da história do país e a maior tragédia do Rio Grande do Sul.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar