Passada a formatura, ainda no meio do ano de 2010, a fisioterapeuta Aila Ohana, de 23 anos, já percorreu três empregos e alguns serviços autônomos. Com a mesma celeridade com que, nesse meio tempo, ela fez três pós-graduações e mudou de endereço mais três vezes, a jovem nunca conseguiu passar mais de um ano em uma mesma empresa. Acumulando, hoje, o quarto e o quinto trabalho, ocupados há apenas oito meses, Aila já busca novas oportunidades. “Eu não me apego. Se aparecer uma oportunidade melhor, eu vou”.
O retrato da experiência profissional de Aila não é uma exceção quando se trata dos jovens no Brasil. Um levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que a rotatividade entre os trabalhadores jovens é maior do que entre os mais velhos no mercado de trabalho brasileiro. Divulgado em agosto deste ano, o estudo “Mercado de Trabalho – Conjuntura e Análise” revela que 72,4% dos trabalhadores jovens desligam-se de seus postos de trabalho ao longo de um ano, enquanto, dentre os trabalhadores mais velhos, essa taxa não passa de 41,3%.
Responsável pelos pedidos de afastamento de todos os empregos pelos quais já passou, Aila acredita que o apoio da família a muitos dos jovens trabalhadores ainda é um fator que contribui consideravelmente para esse desprendimento. “Procurei outra coisa porque vi que eu estava me desgastando muito e ganhando pouco. Com certeza para o jovem é muito mais fácil fazer isso porque alguns ainda têm a assistência da família. Qualquer coisa, ele tem a família para segurar; já o adulto, não”, acredita. “Eu tenho dois empregos hoje, mas já percebi que em um deles eu não ganho tão bem quanto deveria. Já estou procurando alguma coisa melhor, providenciando o meu cartão”.
Aventura?
Ainda que a busca por melhores salários pese muito no momento de pedir demissão para se aventurar em um novo emprego, Aila também evidencia uma característica muito presente no mercado de trabalho quando se trata dos jovens. “Antes dos empregos atuais, eu tive três empregos. Em um eu trabalhava com atendimento particular, no outro em regime de home care (assistência em domicílio), e em outro com a realização de massagem em empresas. Não passei mais que um mês, um mês e meio em cada um desses”, adiantou, ao lembrar que, na época, estava morando em São Paulo.
Intensa rotatividade pode ser desvantagem
Apesar de manter uma avaliação sobre o mercado de trabalho no Pará muito parecida com a destacada pelo Ipea no Brasil, a gestora lembra que, por vezes, essa rotatividade intensa entre os jovens pode gerar desvantagens em relação aos que estão mais dispostos a se firmar em um emprego.
“A desvantagem é grande. Eu, que trabalho como gestora de RH, percebo que, às vezes, o contratante fica em dúvida quando vê que aquele jovem já passou por vários empregos e se pergunta: “porque esse jovem não para?”. O problema estava sempre com a empresa ou será que o problema está com a pessoa?”, explica.
“Por mais que a pessoa diga que saiu dos outros empregos por vontade própria, fica uma dúvida na cabeça do contratante. Ele fica com receio de contratar a pessoa e daqui a três meses a pessoa sair da empresa”.
Dono do próprio nariz
Ainda que a dúvida exista e que os estudos apontem taxas mais altas tanto de desligamentos quanto de contratação entre os jovens, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ainda reforça a prevalência de desemprego entre os mais novos. Em 2011, 16,3% dos jovens de 15 a 24 estavam desempregados, contra 5,7% das pessoas entre 25 e 49 anos.
Aos 25 anos e antes mesmo de terminar a faculdade de publicidade, o universitário Agostinho Pereira também já faz jus a mais uma característica dos jovens, hoje. “Tenho um negócio próprio que já vai fazer um ano, uma loja virtual de moda feminina. Já dispensei oportunidades de estágio porque sempre tive esse pensamento de ser o meu próprio chefe”, revela.
“Eu já deveria estar com um estágio, mas não deu, por estar envolvido com esse projeto. Dificilmente hoje o jovem quer se envolver apenas com uma coisa. Eu me sentiria preso, não me sentiria bem em ficar sempre em um mesmo emprego, fazendo uma única coisa”.
Vagas temporárias atraem cada vez mais jovens
“Os empregos que eu tinha não eram formais, eram realizados através de contrato. Eles pagavam por sessão. São Paulo é muito grande, então eu gastava mais tempo indo para a casa do paciente do que fazendo as sessões”, lembra Aíla.
De acordo com o estudo do Ipea, o grande fluxo de desligamentos de jovens, além de sinalizar os curtos períodos de emprego, também podem estar associados à baixa qualidade do posto de trabalho. Em números, a análise revela que os trabalhos temporários prevalecem entre os jovens, com uma taxa de 0,11% em 2010. “Os trabalhadores jovens tendem a ser contratados por empresas de mais alta rotatividade”, destaca a pesquisa.
Na análise da gestora em Recursos Humanos Fernanda Estrada, o mercado está desaquecido quando se trata de oferta de empregos mais estáveis aos jovens. “A vaga temporária está muito em alta e o jovem acaba caindo nessas ofertas. Os shoppings e comércios são exemplos claros disso porque oferecem muitas vagas temporárias para os jovens”, acredita. “O mercado de trabalho está em uma situação complicada e o que percebemos é que temos muitas vagas temporárias e poucas vagas para períodos mais longos”.
(Diário do Pará)
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