Com hotéis lotados e grande expectativa, a cidade gaúcha de São Borja convive desde ontem com peritos e autoridades envolvidos na exumação do corpo do ex-presidente João Goulart, morto em dezembro de 1976 em uma de suas fazendas, na Argentina. Do lado de fora do Cemitério Jardim da Paz, um esquema de segurança bloqueava o acesso de jornalistas de várias partes, enquanto dentro dele eram decididos os últimos detalhes da cerimônia marcada para esta quarta, às 7 horas da manhã.
"Já são seis meses de trabalho compartilhado entre especialistas brasileiros e estrangeiros, isso não começa hoje, nem termina amanhã. A exumação representa só uma etapa dentro uma investigação maior", disse o delegado Amaury de Souza Júnior, do Instituto Nacional de Criminalística (INC), órgão da Polícia Federal. O instituto terá a custódia do material colhido nos restos mortais, no período em que análises periciais tentarão desvendar se Jango morreu por envenenamento, vítima de um plano de eliminação da Operação Condor, ou em consequência dos problemas cardíacos que de fato tinha.
O pedido de exumação foi feito em 2011 pela família Goulart à ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos. Mas, em 2007, os filhos de Jango, Denise e João Vicente, já haviam protocolado pedido de investigação junto ao Ministério Público do Rio Grande do Sul para apurar as circunstâncias da morte do pai. Testemunhos e novos documentos começaram a vir à tona nos últimos anos, comprovando que o ex-presidente sempre foi monitorado por agentes a serviço da ditadura brasileira, nos 12 anos em que permaneceu no exílio, vivendo como fazendeiro entre o Uruguai e a Argentina.
"Disso não temos dúvida, por isso cobramos hoje que esses ex-agentes sejam ouvidos e documentos, desclassificados, não só no Brasil e países vizinhos, mas nos Estados Unidos. Quanto à exumação, com certeza consideramos os indícios de assassinato", afirmou João Marcelo Goulart.
(AE)
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