Em depoimento de 7 páginas, prestado à Polícia Federal nos autos do inquérito Siemens/Alstom, o engenheiro eletricista da Siemens Peter Andreas Gölitz revela toda a dinâmica, simulações e artifícios empregados pelo cartel de multinacionais para conquistar contratos milionários relativos a 3 grandes empreendimentos do setor metroferroviário nos governos do PSDB em São Paulo, gestões Mário Covas e Geraldo Alckmin (1999/2004)
Gölitz trabalha na Siemens desde 1987. Ele subscreveu acordo de leniência da empresa alemã com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), firmado em 22 de maio.
À PF confessou que “teve conhecimento e participação, na devida proporção e nos limites de suas funções e responsabilidades, de condutas anticompetitivas, em alguns projetos de licitação de metrôs e trens”.
Seu relato descreve ajustes prévios e como executivos das multis combinavam preços e condições em reuniões frequentes para tratar dos projetos Linha 5 do Metrô - antiga linha G da CPTM para construção da conexão Capão Redondo/Largo 13 de Maio -, manutenção dos trens da CPTM série 3000 e projeto Boa Viagem (modernização de trens da CPTM).
A PF o questionou sobre participação de dirigentes do setor de transportes do governo paulista. Ele respondeu que “não tem conhecimento de qualquer envolvimento de agentes públicos na formação de cartel”.
Ao citar o Projeto Boa Viagem disse que “os lotes foram todos previamente divididos entre as empresas licitantes, ou seja, o cartel foi formado”. Ele disse que a “divisão dos lotes era homogênea” e que acredita que “tal fato tenha sido percebido pela empresa estatal CPTM, que nada fez”.
Sobre o projeto da fase 1 da Linha 5 do Metrô ele declarou que estava “ciente da formação de um grande consórcio, envolvendo um ajuste entre as empresas para evitar a concorrência, pois estava encarregado de fazer a cotação de preços de alguns produtos que seriam fornecidos por sua empresa”.
Afirma que “recebia instruções de Jan-Malte Orthmann (outro leniente da Siemens) sobre com quais pessoas deveria falar nas outras empresas para alinhar a oferta global do consórcio, para trocar informações técnicas e sobre equipamentos, visando, especialmente à harmonização de interfaces entre os sistemas”.
Gölitz revela os bastidores de caso emblemático, o Consórcio Sistrem. Esse episódio levou a PF a identificar suposto esquema de corrupção envolvendo o ex-diretor de operações e manutenção da CPTM, João Roberto Zaniboni, condenado na Suíça por lavagem de dinheiro - há duas semanas, a Justiça Federal decretou o bloqueio de R$ 56,45 milhões de Zaniboni e de empresas de consultoria.
Segundo o engenheiro, as empresas Alstom, Daimlerchrysler, Siemens e Caf “participaram em consórcio para evitar a competitividade na licitação, formando o Consórcio Sistrem”. As propostas foram entregues em 1999 e a execução do contrato em 2000. Outro consórcio competiu, dele fazendo parte a Mitsui e a T’Trans.
“A Alstom era encarregada da integração do consórcio, coordenando administrativa e tecnicamente os assuntos”, ressalta Gölitz. “Coube à Alstom encaminhar os aditivos ao cliente.”
Ele afirma que as reuniões dos executivos das multinacionais ocorriam na fábrica da Alstom na Vila Anastácio, Lapa, São Paulo.
(AE)
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