Preocupada com os efeitos da crise de segurança no Maranhão, a presidente Dilma Rousseff pôs ontem em prática uma estratégia para blindar o Palácio do Planalto, esvaziar o possível pedido de intervenção federal no Estado e manter o apoio da família Sarney à campanha pela reeleição. Por ordem de Dilma, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, embarcou para São Luís, onde se reuniu com a governadora Roseana Sarney (PMDB) para garantir o aval do Planalto a tudo o que a aliada precisar
O pedido de intervenção federal no Maranhão, após a morte de 62 detentos no Presídio de Pedrinhas, está praticamente pronto no Ministério Público. Agora, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, avalia os termos do processo e como encaminhá-lo ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Janot se reuniu na quarta-feira com Cardozo para tratar do assunto. Sob pressão da comunidade internacional e de organismos como a ONU, que denunciou o “estado terrível” das prisões no Brasil, Dilma faz de tudo para que a crise não cole em seu governo. Enfrenta, porém, uma situação delicada, porque o senador José Sarney (PMDB-AP), pai de Roseana, é um importante aliado.
No governo, informa-se que qualquer passo em falso de Dilma para ajudar a conter a onda de violência no Maranhão pode provocar outra crise, desta vez com o PMDB e a família Sarney, com impacto sobre a campanha da reeleição presidencial. Em 2010, Dilma obteve no Maranhão o segundo melhor resultado do segundo turno: 79% dos votos, atrás apenas dos 80% obtidos no Amazonas.
A relação entre Dilma e Roseana nunca foi das melhores. Em março do ano passado, por exemplo, a governadora ameaçou romper com o Planalto só porque Dilma esqueceu de citar o nome dela em convenção do PMDB. Avisada, a presidente se desculpou em público
Até a viagem de Cardozo a São Luís, era o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão - indicado por Sarney - quem fazia a “ponte” com o Planalto e o Ministério da Justiça sobre a real situação dos presídios no Maranhão. Dilma não quer intervir no Estado controlado pela família Sarney. Mesmo porque, a depender da extensão do pedido do Ministério Público, o governo poderia ficar responsável pela administração do sistema prisional, afastando secretários estaduais.
Ministro da Justiça teve longa conversa com Dilma
Antes de embarcar em sua missão em São Luís, ontem, o ministro da Justiça teve longa conversa com a presidente Dilma . Na quarta-feira, a preocupação com a guerra de facções que tomou conta do Presídio de Pedrinhas foi o tema do almoço do ministro com a presidente e as colegas Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Maria do Rosário (Direitos Humanos), no Palácio da Alvorada.
Até agora, Maria do Rosário foi a única integrante do governo a repudiar com veemência, em nota oficial, “a barbárie e a abstração da vida” no Maranhão. Dilma pediu a ela cautela com as palavras. Até uma entrevista de Cardozo sobre o assunto, na terça-feira, foi cancelada de última hora para evitar problemas.
O governo reforçou a presença da Força Nacional de Segurança no presídio de Pedrinhas, mas, na avaliação do Ministério Público Federal, a medida não é suficiente. No fim do ano passado, após a morte de 62 presos, Janot enviou pedido de informações ao governo do Maranhão. Para o Ministério Público, porém, as explicações enviadas, com promessas de construção de novos presídios e redução da superlotação em Pedrinhas ainda nesse primeiro semestre, não indicam nenhuma solução urgente nem garantia de que não haverá novos casos de assassinato.
Diante desse diagnóstico, a alternativa seria a intervenção, levando o governo federal a assumir a responsabilidade pelo Presídio de Pedrinhas. Caso a Procuradoria-Geral da República faça o pedido nos próximos dias, uma decisão liminar sobre o caso caberia a Cármen Lúcia, que estará na presidência do Supremo até a semana que vem, ou a Ricardo Lewandowski, que assume o comando da Casa no dia 20.
A mãe de Ana Clara
A família de Juliene Santos, de 22 anos, mãe da menina Ana Clara, pediu sua transferência para um hospital de Brasília. Ontem, no entanto, ela apresentou piora no seu estado de saúde e não pôde ser levada para a capital federal. Juliene tem parentes no Distrito Federal Sua filha de 6 anos morreu após ter mais de 90% do corpo queimado em um ataque a um ônibus em São Luís, na sexta-feira passada.
Juliene apresentou excesso de ar nos pulmões durante os exames feitos nesta quinta e os médicos avaliaram que ela só será transferida quando o quadro melhorar. Ela está com 40% do corpo queimado e seu estado de saúde é considerado estável, apesar da complicação.
Na terça-feira, uma alteração renal fez com que os médicos optassem por transferi-la para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Geral Tarquínio Lopes Filho, por precaução. Ela tem recebido a visita de familiares, mas ainda não sabe da morte da filha.
O governo do Estado vai pagar uma passagem aérea para que Filomena Santos, mãe de Juliane, viaje com a filha, mas familiares informaram que ela não tem condições físicas e emocionais para ir até Brasília.
O entregador de frangos Márcio da Cruz Nunes, de 37 anos, já havia sido transferido para Goiânia . Sua mulher e 5 filhos estão morando com seu pai, em São José do Ribamar. A Secretaria da Saúde informou que Lorrane Santos, de 1 ano e 5 meses, e Abiancy Silva, de 35 anos, devem ter alta até o fim de semana.
A Arquidiocese de São Luís emitiu nota para que todas as paróquias celebrem, neste domingo, 12, missas em memória da menina Ana Clara e de todas as vítimas da violência.
(AE)
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