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Tragédia da Boate Kiss completa um ano

Palco de uma das maiores tragédias brasileiras, a cidade de Santa Maria vai andar em ritmo lento nesta segunda-feira, 27, para reverenciar os 242 mortos no incêndio da boate Kiss e pedir que o País adote uma cultura de segurança para que desastres semelha

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Palco de uma das maiores tragédias brasileiras, a cidade de Santa Maria vai andar em ritmo lento nesta segunda-feira, 27, para reverenciar os 242 mortos no incêndio da boate Kiss e pedir que o País adote uma cultura de segurança para que desastres semelhantes nunca mais se repitam. Familiares das vítimas prometem passar a maior parte da madrugada em vigília diante do prédio da casa noturna, fechado por tapumes e com o interior em escombros desde o dia do desastre. A prefeitura decretou luto oficial. O comércio vai abrir, mas muitas lojas exibirão laços brancos e colocarão rosas em suas vitrines. Pelo menos cinco cultos religiosos estão previstos. E entre o final da tarde e o início da noite haverá manifestação pública na praça Saldanha Marinho.

O incêndio ocorreu na madrugada de 27 de janeiro do ano passado. A investigação policial mostrou que, durante um show pirotécnico da banda Gurizada Fandangueira, uma fagulha chegou ao revestimento de espuma do teto, que começou a queimar. O fogo gerou a fumaça tóxica, composta por cianeto, que matou a maioria das vítimas por asfixia.

Calcula-se que pelo menos 600 pessoas sofreram algum tipo de dano, como queimaduras e problemas pulmonares graves, que mantiveram dezenas internadas em hospitais por alguns meses, até escoriações leves.

Para marcar o primeiro aniversário da tragédia, a Associação das Vítimas e Familiares de Vítimas da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) programou o Congresso Internacional Novos Caminhos - A Vida em Transformação, evento que começou no sábado e termina hoje. As atividades voltaram-se para o tratamento de traumas, prevenção de desastres, exibição de um filme sobre a tragédia, convivência de familiares, vítimas e pessoas solidárias e, sobretudo, a necessidade de retomar a vida, sob o novo olhar de quem perdeu alguém importante e tem de seguir em frente.

Ao longo da programação, pais que perderam filhos em grandes tragédias disseram que se mantêm em estado de luto permanente e fazem da luta pela condenação dos culpados e pela segurança de quem sai para se divertir a razão de suas vidas. “Fazer esse serviço é uma forma de superar o trauma”, afirmou Sérgio Silva, que perdeu um filho no incêndio da boate Kiss, na cidade gaúcha, em 27 de janeiro de 2013. “É inconcebível pensar que a dor passa, ela nos acompanha para sempre”, revelou Nilda Cruz, mãe de um estudante morto na boate Republica Cromañón, em Buenos Aires, em 30 de dezembro de 2004. “Se vamos viver assim, temos de fazer algo, botar os responsáveis na cadeia e trabalhar pela memória de nossos filhos”, complementou.

“Se não houver punição, não haverá paz”

Durante os dois primeiros dias do Congresso Internacional Novos Caminhos - A Vida em Transformação, que lembrou o primeiro ano da tragédia da boate Kiss, familiares dos 242 mortos pediram justiça, com punição de todos os responsáveis pelo incêndio, de fiscais omissos ao prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB), de bombeiros aos donos da casa noturna e músicos da banda que tocava na noite do desastre. “Não é o caso de vingança, mas queremos que todos os envolvidos paguem dentro da culpabilidade que cada um tem, até como exemplo para que isso não se repita”, resumiu o presidente da AVTSM Adherbal Ferreira. “Se não houver punição, não haverá paz nas nossas vidas”.

Os familiares demonstram inconformidade pela retirada do nome dos funcionários públicos, inclusive o prefeito, na denúncia oferecida pelo Ministério Público à Justiça. O inquérito policial responsabilizou criminalmente 16 pessoas. O MP denunciou oito, retirando os funcionários públicos. Quatro delas, os músicos Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão e os empresários Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, vão a júri popular sob a acusação de homicídios qualificados por dolo eventual. Os promotores entenderem que a fiscalização da prefeitura estava em dia, enquanto a dos bombeiros estava atrasada. E também denunciaram um ex-sócio da Kiss e um contador por falso testemunho e dois bombeiros por fraude processual, crimes de menor poder ofensivo

O subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Institucionais, Marcelo Dorneles, foi à mesa redonda que encerrou as atividades do dia no Congresso e disse que as denúncias foram feitas de acordo com as exigências da legislação. Admitiu que os promotores analisaram o caso rigorosamente em busca de alguma culpa do prefeito, mas não encontraram o vínculo com o fato. “Não conseguimos o elo direto, o documento assinado, a ordem não dada”, revelou, para afirmar que há um desencontro de informações entre o que é de natureza técnica, de sentimentos e política. Lembrou, ainda, que o ex-prefeito de Buenos Aires, Aníbal Ibarra, perdeu o cargo depois do incêndio da Cromañón por julgamento político e não por decisão da Justiça.

Dorneles destacou que além dos oito denunciados na ação criminal, outros 12 também respondem nas esferas cível e militar. Ressaltou, no entanto, que a acusação mais pesada, criminal, recaiu sobre quem teve responsabilidade direta pelo fogo e pela espuma instalada na casa noturna. “Se abstrairmos um desses dois fatores não teria acontecido nada”.

O delegado Marcelo Arigony diz que ele e sua equipe fariam o que fizeram de novo, mas admitiu que a polícia se limita ao indiciamento, enquanto o MP e a Justiça trabalham sob outros requisitos legais. Por isso, evitou comentar a postura dos outros órgãos.

Inquérito

Depois do inquérito inicial, a polícia seguiu investigando outros aspectos, considerados periféricos, da tragédia, e vai entregar suas conclusões à Justiça em fevereiro. Os familiares esperam que haja novos indiciamentos. Dorneles assegurou que a ação penal pode mudar de rumo se surgirem provas que incriminem outras pessoas.

(AE)

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