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Desempregada faz protesto solitário

A desempregada Bernadete de Almeida, 60 anos, pegou ao meio-dia um ônibus em Sobradinho e, 23 quilômetros depois, chegou à Biblioteca Nacional de Brasília Leonel Brizola, no Plano Piloto da Capital. Ali, um grupo com pouco mais de 100 manifestantes reuni

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A desempregada Bernadete de Almeida, 60 anos, pegou ao meio-dia um ônibus em Sobradinho e, 23 quilômetros depois, chegou à Biblioteca Nacional de Brasília Leonel Brizola, no Plano Piloto da Capital.

Ali, um grupo com pouco mais de 100 manifestantes reunia-se em frente ao Trio Elétrico Coyote -23 metros de cumprimento, chão forrado por grama sintética, dois camarins, uma passarela- para uma segunda etapa de passeatas pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff neste domingo (16h), em Brasília. Pela manhã, a PM estimou uma passeata com 25 mil pessoas.

"A nossa bandeira jamais será vermelha", gritava de cima do trio Bruno Guimarães, 54, dono de duas empresas de consultoria, fundador do Movimento Brasileiros Conscientes e organizador da manifestação.

Convocada para as 14h, a passeata que percorreria os 1,4 mil metros entre a Biblioteca e o Congresso Nacional esperou por quase uma hora, mas o movimento não cresceu como o esperado. Mesmo assim, Bernadete esperou sentada pela saída.

Quando o trio -que carregava uma placa com fotos de dez deputados federais, sendo quatro de Distrito Federal e seu entorno- acelerou por uma das seis faixas do Eixo Monumental, a pista onde fica a Esplanada dos Ministérios, Bernadete se levantou e começou seu solitário protesto contra os manifestantes.

"Inveja", gritava ela.

Calada pela potente carro de som, Bernadete passou a fazer gestos. Cotovelo esquerdo no alto com a mão direita batendo nele ou uma das mãos girando ao redor da orelha com o dedo indicador estendido. Mesmo com os estridentes gestos contrários aos gritos de ordem contra a presidente, a desempregada passou por toda a caminhada sem ser percebida.

"Tô defendendo a Dilma porque ela apoia a pobreza e tem pessoas que tem inveja dela", disse Bernadete.

Vivendo de bicos, Bernadete conta que seu último emprego foi como auxiliar de serviços gerais numa empresa. Ela não sabe com precisão a quanto tempo está sem trabalho fixo, mas conta quase 10 anos. Diz que agora está procurando emprego "mas está difícil".

"Na minha idade, é complicado", diz a mãe de quatro filhos e avó de dois netos.

Quando o trio elétrico para em frente ao Congresso, os manifestantes se concentram em frente ao veículo para ouvir o empresário do setor de consultoria Bruno Guimarães defender a derrubada da presidente pelas "pedaladas fiscais", "desvios na Petrobras para bancar a campanha" e todos os "demandes" do governo do PT e do "Foro de São Paulo". Mal conseguem ocupar toda a sobra gerada pelo trio.

Sobra espaço para a moradora de Sobradinho passear entre eles com seus gestos e gritando em defesa de Dilma. A forma ostensiva como Bernadete protestava acabou chamado a atenção de alguns dos manifestantes que começaram a reclamar dela.

"Para da falar merda", disse um jovem.

"Tem sete filhos", aposta um homem vestido de palhaço.

"Olha a bolsa dela para ver se tem cartão do Bolsa Família", diz outro que bota a mão na bolsa preta de Bernardete que faz um gesto para que ele tire a mão e retira de dentro dela uma garrafa de água.

A desempregada conta que por alguns anos recebeu o Bolsa Família, mas quando os filhos cresceram parou de pedir o benefício. Ela também deixou uma casa comprada na cidade de Samambaia, segundo ela há uns dez anos, para os filhos e agora está morando de favor com uma amiga. Ela quer se aposentar, mas faltam documentos.

"Tá difícil porque tinha que ter INSS e eu não tenho", contou.

O protesto vai perdendo apoiadores e, às 16h, cada vez mais gente começa a abordar a desempregada. Questionada se não tem medo de ser agredida, ela responde: "Eu não tenho medo deles, não. Tem gente aqui que veio pra defender ou para derrotar [Dilma]. Eu vim pra defender. Eles vieram porque são comprados por políticos", acusou a desempregada, lembrando que pagou os R$ 3 de passagem para estar ali.

O empresário Guimarães diz que o Movimento Brasileiros Conscientes não recebe recursos de políticos. Segundo ele, o grupo também brigou com outros movimentos como o Vem Pra Rua e o Movimento Brasil Livre, a quem acusou de pertencer a uma "elite paulista" e responsabilizou-os pelas "só 5 mil" pessoas que acompanharam a marcha da tarde. Perguntado, ele não respondeu quanto custou a organização do protesto.

"Todos os custos foram bancados por cinco empresários que fundaram o movimento", afirmou Guimarães.

Às 16h10, de forma solene, Guimarães pediu para que fosse colocado o Hino Nacional para encerrar o protesto. Antes, porém, do alto dos quase quatro metros de altura do trio, de onde era possível avistar o Palácio do Planalto, anunciou que Dilma os estava escutando e puxou mais um "Fora Dilma, fora PT".

Após o Hino, Bernadete fez, então, o seu último protesto, dessa vez conversando com uma das manifestantes e tentando fazê-la entender seu ponto de vista.

"Ela não roubou. Isso é calúnia. Teve presidente pior que ela que roubou e ninguém pediu para tirar."

(Folhapress)

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