Uma luz amarela se acendeu para o setor supermercadista nacional, com drásticas mudanças nos hábitos de consumo da classe C - que no Brasil é considerada hoje a locomotiva para vários mercados, e um filão que se tornou alvo de nove em cada dez estratégias de marketing para vários segmentos da economia do país. Fernando Yamada , presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), um dos vice-presidentes da Associação Paraense de Supermercados (Aspas) e ainda presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae-PA, no entanto, mostra um otimismo surpreendente: “As oportunidades estão aí. A indústria chega a lançar 90 mil produtos por ano. Só 20 mil fica. Mas ela continua lançando, para entender o que o consumidor quer”, explica.
A perspectiva para o setor é fechar o ano no negativo. E durante a SuperNorte, maior evento do segmento em toda a região, encerrado durante a semana, os cenários complicados foram amplamente debatidos e alertados por especialistas da área de economia e política. E nem assim há que se pensar que não há no que investir em termos de ações que sirvam para cativar a clientela. “De dez anos para cá, o comportamento do consumidor mudou muito. Ele quer o custo-benefício envolvendo preço razoável e qualidade que se comprove a longo prazo. E nossa missão é oferecer isso em qualquer período”, reitera Fernando Yamada.
Confira a entrevista:
P: Já há mais de um ano sem supermercados com funcionamento 24 horas em Belém. Isso deu perdas ao setor?
R: A Abras é a favor das aberturas, inclusive ela briga para que se deixe livre essa questão. Nossa conquista maior foi poder abrir aos domingos sem precisar de acordo coletivo. Há uma lei federal que permite esse funcionamento e sem precisar da prefeitura ou de acordos. O funcionamento 24 horas é decisão que cabe a cada estabelecimento definir. Não há lei contra ou a favor. É livre, quem quiser abrir, abre. Então essa é uma decisão que cabe ao empresariado do setor. Diferente do feriado, que carece de acordo prévio. O fechamento parcial aos domingos depende de uma decisão coletiva dos sindicatos, mas somos contra acordo que determine o fechamento. Há municípios no Espírito Santo, em Minas Gerais, no Rio Grande do Sul que funcionam desse jeito. A abertura 24 horas no Brasil vem reduzindo ao longo dos últimos quatro anos e nem em São Paulo, onde a demanda justifica, você encontra - é no máximo até a meia-noite. Aqui em Belém, alguns por questão de custo e de segurança, de meia-noite às seis opta-se por não abrir. No meu caso [falando pelo Grupo Y. Yamada], eu não tinha infraestrutura para poder deixar a pessoa trabalhando e depois ir para casa. Quem trabalha até meia-noite tem muita dificuldade em voltar para casa, e por isso tínhamos que levar os funcionários. O que a Abras briga hoje é pela lei que transforma supermercados em serviço essencial. Isso já é regularizado para mercados de bairro, açougues, postos de gasolina. A gente briga para que isso se estenda também aos supermercados, para que possa haver uma livre iniciativa.
P: Mas não há números que expliquem isso melhor?
R: Não houve impacto na venda. Houve, acredito, que na conveniência. O fator segurança e mobilidade pesa muito. Onde isso ainda ocorre geralmente se justifica pelo movimento do entorno, ou por determinado período do ano.
P: O Brasil passa por um momento de crise. Os supermercados sentiram
esse baque?
R: Em época de crise, o primeiro pilar que afeta a situação dos supermercados é o do nível de empregos. O supermercado depende de pessoas com renda, e nível de emprego é um indicador. O segundo pilar é a inflação, se bem que nós estamos com índice ainda estável e preços estão caindo, mas nos supermercados, por exemplo, caem os preços no gênero de bebida, mas serviços e preços administrados puxam a inflação. O que quero dizer é que as pessoas vão gastar para pagar outra coisa, luz, gasolina, vão elencar outras prioridades porque a renda não está elástica. O terceiro item que afeta é a atividade econômica como um todo, a indústria, os serviços, o próprio Governo está retraído, faz investimento baixo, mas está retraído nos gastos, e isso faz com que haja menos circulação de recursos. E o último é que a renda, em si, ela vem caindo ao longo de 2014 e 2015, é provável que a renda feche esse ano nos 3% negativos. Isso impacta também no consumo.
P: A alta de preços pesa para o consumidor, mas também pesa para o empresariado. Como os supermercados estão repassando isso para o público?
R: Na realidade a indústria está somando para não passar. É uma parceria estratégica, ‘ela’ assumiu para ‘si’ esse aumento. Mesmo com a alta do dólar, que influencia nos custos de matéria-prima, nas embalagens, está se tentando repassar o mínimo. Se repassar o aumento a retração cresce e o cliente está sensível a isso. Existe esse trabalho muito forte na indústria que é segurar ao máximo. O setor está fazendo programas intensos de redução de custos para segurar esse repasse. E investindo em programas de produtividade.
P: Então isso quer dizer que, com certeza, o setor vai fechar 2015 com mais demissões do que 2014...
R: Está existindo um aumento de custo no setor, energia aumentou bastante. As empresas estão investindo bastante em programas de produtividade, principalmente no que diz respeito a recursos tecnológicos, em automação. Isso faz com que algumas mãos de obra mecânicas sejam trocadas por tecnologia. É tendência no setor. E eficiência de fornecimento também reduz a necessidade da mão de obra braçal. São propostas antigas que tomam forma esse ano.
P: Momentos de crise também podem ser vistos como oportunidades de inovação, reinvenção...
R: Abras fica monitorando o mercado de forma sazonal. Antigamente forte mesmo só era o Natal e o Dia das Mães, mas agora a Páscoa, não só para chocolate, como também para presentes, brindes, também ganhou muita força. Carnaval, verão e festas juninas também entram nessa seara. É quando surgem os produtos sazonais, que afeta a cadeia como um todo, positivamente. Esse ano nós tivemos o Círio, que deu reflexo positivo - não tão positivo se comparado aos círios anteriores - e temos o Natal, que ainda vai ocorrer. O setor está se planejando para potencializar essa data ao máximo, com produtos como panetone, peru, bebidas, e já começou. A indústria e os supermercados se unem para criar esses atrativos que tirem o cliente da retração. Em função das notícias de crise, o cliente puxou o freio. Nossa proposta é estimular essa vinda aos supermercados para tentar fechar o ano sem queda.
P: Custo-benefício é a palavra-chave então?
R: Sim. Oferecer ao público produtos com preços adequados e que justifiquem o benefício que ele procura.
P: Como esse cenário de crise influencia na hora da organização de um evento grande como a SuperNorte, encerrada durante a
última semana?
R: Nós trouxemos todo tipo de especialista. Acho que estamos nos educando e ganhando maturidade política. Nós, cidadãos, empresários, não temos que ficar reclamando. Governantes estão onde estão porque nós elegemos. Acho que temos que agir mais positivamente e não nos deixar influenciar tanto por vozes e outras tendências. O Governo tem uma forma simples de resolver, basta pensar que nem a gente! Tem que pensar como o cidadão, vou diminuir um pouco aqui a minha máquina para poder continuar. Essa foi a primeira lição do evento, a segunda foi sobre propostas e oportunidades. Tem mercado, tem consumidor. São 204 milhões a população do Brasil, a cada cinco anos cresce sete milhões, são pessoas economicamente ativas, e vimos que há muitos saindo da carteira assinada para o negócio próprio. Também foi uma lição que tivemos durante a feira: que talvez a crise seja uma coisa mais ‘psicológica’ do que física. É preciso acreditar que as oportunidades existem, e supermercados se guiam por agenda positiva, sempre.
P: Há um planejamento no sentido de recuperar o fôlego, e não apenas passar pela crise, daqui para frente?
R: Sim. O investimento no comportamento do consumidor é a chave disso. Que produtos colocar na mão do consumidor, por que o consumidor compra ou deixa de comprar. Por exemplo, embalagens econômicas: mais produtos, menos preço. Em tese, o Brasil lança por ano cerca de 90 mil produtos novos - mas só 20 mil ficam. Nem sempre dá certo, mas lança! Uma única indústria lança entre 200 a 500 produtos novos por ano, ficam uns cem, de acordo com a aceitação do cliente. E isso instiga o público. Mesmo que tenha queda de renda, não se pode deixar perder o fato de que o hábito do consumidor mudou em direção a uma qualidade de vida melhor.
P: O senhor passa muita tranquilidade em relação
ao setor...
R: Sempre estivemos confiantes. O crescimento do setor esse ano não deve ser positivo, não temos crescimento bolha, temos crescimento sustentável. E se você for fazer pesquisa mais profunda, supermercados, indústrias de bebida, limpeza, higiene pessoal, alimentícia estão investindo no Brasil, acreditam. O setor de indústria de supermercados ainda é o setor que acredita no país. Acreditamos em um 2016 mais estável porque os preços tendem não subir tanto. Tudo depende, né. Se os governantes fizerem o dever de casa direitinho, outros investimentos tendem a voltar. A Abras mantém a perspectiva de que o setor deva investir, durante todo o ano de 2015, cerca de R$ 5 bilhões, não só em novas lojas como em logística, tecnologia. O Pará está seguindo a tendência, de olhar para frente.
(Carolina Menezes/Diário do Pará)
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