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No Brasil, blasfêmia é pior que delitos leves

Para uma parcela dos brasileiros, pequenas fraudes e corrupções do dia-a-dia (como subornar agentes públicos para fugir de multas ou estacionar em vagas preferenciais) não são considerados delitos “graves”. Mais que isso, reclamar de Deus seria um comport

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Para uma parcela dos brasileiros, pequenas fraudes e corrupções do dia-a-dia (como subornar agentes públicos para fugir de multas ou estacionar em vagas preferenciais) não são considerados delitos “graves”. Mais que isso, reclamar de Deus seria um comportamento bem menos aceito do que pequenos delitos do cotidiano. É o que aponta um estudo realizado pela empresa Flyfrog, especializada em pesquisa de mercado.

O estudo foi intitulado "Moral e Ética: Quais os Valores que Norteiam os Brasileiros" e, nele, foram consultados, na segunda quinzena de outubro, pela internet, 400 homens e mulheres de todas as regiões do país, de classes A, B e C e idade superior a 18 anos - variáveis ponderadas por dados do censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O levantamento mostrou, dentre outras coisas, que o aborto foi considerado dez vezes mais grave do que pagar comissão ilegal por um negócio ou votar em um político corrupto. Para a maioria dos entrevistados, blasfêmia (insultar divindades) é pior do que comprar mercadoria sabidamente roubada e divorciar-se é mais sério do que furar fila.

"Queríamos tentar entender se as atitudes dos brasileiros no dia a dia condizem com essa briga generalizada que se vê contra a corrupção e crimes de colarinho branco. Em outras palavras, se as pessoas de fato praticam aquilo que cobram das autoridades", explica o líder da pesquisa, o sociólogo Rodrigo Toni, ex-CEO da Ipsos no Brasil e na Ásia.

O estudo conclui que campanhas de conscientização são, possivelmente, as responsáveis por modificar a forma como os brasileiros enxergam certos temas: para os entrevistados, agredir mulheres e dirigir alcoolizado são ações julgadas graves."É interessante notar que algumas bandeiras, chanceladas por legislação e, portanto, socialmente rejeitadas, já foram inseridas nas consciências das pessoas, mas outras, relacionadas à cidadania, ainda não", diz Toni.

AÇÕES MAIS CONDENADAS

Aborto, violência doméstica e omissão de socorro em caso de acidente lideram a lista das ações mais condenadas pelos brasileiros, com índices 8,31, 3,80 e 3,18, respectivamente. O índice funciona da seguinte forma: 1,0 é o ponto de equilíbrio; quanto maior que 1, mais grave é considerado o comportamento; quanto menor, mais aceitável.

Achar algo perdido e não devolver ao dono, por exemplo, corresponde ao índice de 0,23; transferir pontos da carteira de habilitação para outra pessoa, 0,19. As taxas revelam a pouca importância dada pela população a esses fatos, ambos ilegais.

"A consciência popular não aceita que certas contravenções ou infrações à lei devem ser reprovadas. Existe uma grande flexibilidade na cultura brasileira em relação ao que é certo e errado, o que anda de mãos dadas com a enorme criminalidade, corrupção e desrespeito aos direitos mais básicos dos cidadãos por parte de todas as esferas do Estado", aponta o estudo.

NORTE É O QUE MAIS ACEITA A CORRUPÇÃO

Entre as 34 situações apresentadas aos participantes do levantamento, a corrupção apareceu, para os brasileiros do Norte, em 18º lugar no ranking de atitudes reprováveis - é a região que dá menos importância para a contravenção.

No Nordeste, a corrupção ocupa a 14ª posição entre as contravenções; no Sudeste, a oitava, e no Sul, a sétima.

Também há discrepâncias entre as avaliações de pessoas com diferentes níveis de escolaridade: quem tem diploma de graduação considera as atitudes corruptas 57% mais sérias do que aqueles que não possuem ensino superior.

MORAL É MAIS INFLUENTE QUE ÉTICA NO PAÍS

Crimes indiscutíveis, como assassinato e roubo, não entraram na lista. A ideia era abordar assuntos polêmicos, infrações "menos graves" ou atitudes enquadradas como "espertezas". Foi utilizada uma técnica que permite produzir rankings de repulsa ou aceitação, com base em grandes conjuntos de itens que são apresentados em diferentes sequências a cada pessoa.

Em geral, Toni conclui que o Brasil se mostra mais pautado por questões morais do que éticas: quesitos que envolvem desrespeito ao cidadão estão no final da lista de prioridades. "Ainda precisamos caminhar bastante para sermos uma sociedade cidadã e legalista. Para acabar com os grandes crimes, é preciso tolerância zero também com as pequenas transgressões", concluiu.

(DOL com informações Correio Braziliense)

consultados, na segunda quinzena de outubro, pela internet, 400 homens e mulheres de todas as regiões do país, de classes A, B e C e idade superior a 18 anos - variáveis ponderadas por dados do censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
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