O ex-deputado federal Giovanni Queiroz é mineiro na certidão de nascimento, mas se considera um “paraense de adoção” desde que se mudou para cá, ainda na década de 1970. Médico, político e agropecuarista, teve vários mandatos nos parlamentos estadual e federal pelo Pará. No final do ano passado, aceitou o convite do Governo Federal para assumir a presidência dos Correios. Ciente das dificuldades enfrentadas pelo órgão, não se intimidou em pedir ao ministro das Comunicações, André Figueiredo, para que os cortes começassem nos salários da diretoria - emagreceu o próprio salário em R$ 18 mil. “Cheguei sabendo que havia muita gordura para cortar, eu não me sentiria confortável em não passar por isso também”, justificou durante entrevista cedida ao DIÁRIO durante visita por ocasião do aniversário de 400 anos de Belém - quando lançou uma coleção de selos em homenagem à data. Na conversa, ressaltou a importância dos Correios para a vida dos brasileiros, chamando-o de maior empresa do país. Confira:
P: Já são mais de dois meses frente à presidência dos Correios. Já deu para definir os desafios principais?
R: É a maior empresa do Brasil, da América Latina. São 120 mil empregados, somos uma empresa prestadora de serviços à sociedade, de integração nacional. Somos a única empresa nacional presente em todos os municípios do país, centenas de distritos. E prestando um serviço que serve ao cidadão como o único banco em várias localidades. Mas agora, os desafios são enormes. Pegamos a empresa em uma situação muito difícil.
P: O senhor escreveu um artigo para o DIÁRIO há duas semanas falando sobre isso...
R: Temos uma proposta de encurtar, de forma drástica, as despesas. Temos uma despesa grande, então é preciso cortar todas as gorduras para fazermos o ajuste fiscal necessário ao crescimento da empresa. Nos adequar financeiramente aos desafios futuros. A empresa teve, no ano passado, um prejuízo de R$ 2 bilhões, e isso não vai acontecer em 2016. E estamos contando com o apoio, inclusive, dos funcionários, algo que é muito positivo. Sindicatos, federações...
P: Então, o senhor está dialogando com essas frentes antes de fazeras mudanças?
R: Exatamente. Temos uma mesa permanente de negociação e de busca de soluções para os Correios.
P: O senhor iniciou a gestão fazendo cortes de custos e promovendo ações para o aumento das receitas...
R: Iniciamos os cortes com nossos próprios salários. Conversei com o Ministro [das Comunicações [André Figueiredo]. Disse que me sentiria constrangido na presidência dos Correios, que está em situação difícil no momento, ganhando R$ 48 mil por mês. E contando com oito vice-presidentes ganhando quase o mesmo. Nosso ministro, entendendo isso, já na primeira reunião do conselho administrativo, propôs essa redução. É um exemplo da importância dos cortes para o ajuste fiscal.
P: O senhor pode revelar de quanto foi esse corte?
R: De R$ 48 mil para R$ 30 mil, foi quanto diminuiu meu salário. E de R$ 42 mil, que ganham os vice-presidentes, para R$ 25 mil. E vamos cortar ainda 10% dos salários dos assessores especiais e daí para baixo em todos os níveis de comando. Por outro lado, tomamos uma iniciativa pela qual se lutava há dois anos: a equalização de uma taxa de correspondência que estava defasada e nos dava um prejuízo de R$ 2 milhões por dia. Em 30 dias apenas, com a ajuda do ministro, nós pudemos buscar, no Ministério da Fazenda, a autorização para poder equalizar essa taxa. Esse aumento não afeta em nada na economia. São centavos.
P: Mas que no ‘bolo’ faz toda a diferença...
R: Sim. São R$ 800 milhões ao ano. Em apenas 30 dias nós conseguimos resolver uma pendência de dois anos. A nossa marca é a agilidade para superar as dificuldades e atingir o objetivo maior, que é de promover o equilíbrio fiscal ao mesmo tempo em que se busca melhores condições de estrutura para que possamos nos tornar competitivos junto ao mercado aberto. Dentre outras coisas, nós temos aqui mesmo, no Pará, que construir alguns terminais de carga e de logística para o nosso transporte. Já há projetos feitos. A nossa equipe dos Correios aqui é formidável. O terminal de cargas em Marabá, para atender a região do oeste paraense, pela Transamazônica. Vou aproveitar a oportunidade para priorizar isso. Por ser do Pará, é minha obrigação zelar um pouco mais por esse Estado e pela região Norte.
P: O que o senhor pode dizer da relação do brasileiro com os Correios?
R: Apesar da internet, do WhatsApp, as cartas de amor, manuscritas, têm um peso muito maior. Além da carta do filho distante, que para a mãe escreve, na saudade que só a caneta pode expressar melhor. A nossa relação com o cidadão é muito boa. Logicamente que nós, dos Correios, estamos vivendo um momento difícil, com pequena perda de qualidade por falta de infraestrutura. Por exemplo, o nosso transporte aéreo noturno. Estamos tendo dificuldades com os aviões a jato, que circulam à noite. São 17, precisamos ter frota própria, a nosso ver.
P: Então essa já é uma meta dessa sua gestão?
R: Vamos buscar isso, além de uma logística de transporte terrestre. Isso nos obriga a buscar mais agilidade, para cumprir melhor os prazos.
P: Frota própria deve significar diminuição de custo para quem está na ponta?
R: Vai baratear com certeza a partir do momento em que nos dá independência.
P: A longo prazo, o que o senhor mais pode destacar de objetivos na sua presidência?
R: Ampliação de outros serviços. Os Correios às vezes representam o único banco em centenas de municípios brasileiros. E no Pará, em particular, em vários municípios. Com o Banco do Brasil, abrimos conta corrente, emprestamos dinheiro, fazemos seguros e agora vamos entrar também no setor de consórcios. Temos títulos de capitalização, emitimos o Cadastro de Pessoa Física (CPF)... Ou seja, servimos o cidadão em uma extensão ampla, e queremos ampliar, servir mais e melhor. Daí a importância da busca de novas receitas e fontes de financiamento. Queremos implantar agências com serviço postal em distritos com mais de cinco mil habitantes - aqui no Pará são cerca de 40 nessa situação, sem qualquer agência bancária.
P: Se fala muito da dificuldade do isolamento da Amazônia do resto do país. Como diminuir isso?
R: Como presidente dos Correios posso lhe dizer que nossa dificuldade está junto ao Banco do Brasil, na alimentação dos recursos para atender as nossas agências e no recolhimento dos valores depositados. Temos conversado com o Banco do Brasil, que tem colocado um pouco de dificuldade. Em relação à comunicação, nós teremos um satélite nosso, a ser lançado no último trimestre deste ano. Mas com relação aos Correios em si, é implantar em todos os distritos o banco postal e as agências para que sejam feitas de forma adequada as entregas de correspondências e encomendas. Quem está no interior já está comprando através do e-commerce. Temos que fazer chegar até ele essa encomenda. Somos a empresa que realmente integra o Brasil. Isso precisa se consolidar com maior qualidade de serviço e menos tempo para a entrega. Então vamos discutir a logística que se usa hoje para melhor distribuir as linhas de alimentação e distribuição.
(Carolina Menezes/Diário do Pará)
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