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ROMEIROS

Em cada trajeto percorrido, emoção e agradecimentos

Dentro das procissões do Círio, cada fiel segue seus rituais de participação e, também, de ajuda ao próximo

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cada trajeto percorrido, emoção e agradecimentos camera O cansaço físico também é companhia certa para quem escolhe expressar a sua fé e gratidão à Nossa Senhora | Carmem Helena/Divulgação

A festividade que homenageia Nossa Senhora de Nazaré inclui 13 procissões oficiais que possibilitam aos fiéis demonstrarem sua fé, cada um à sua maneira. Seja na corda do Círio, ajudando os devotos como voluntário da Cruz Vermelha, caminhando em peregrinação até a Basílica Santuário de Nazaré ou ainda sob as águas da Baía do Guajará no Círio Fluvial, cada um encontra uma forma de demonstrar a sua fé e devoção à padroeira dos paraenses.

A caminhada por cerca de 78 km desde o município de Castanhal até a Basílica Santuário de Nazaré, em Belém, foi a maneira escolhida pelo empresário e Guarda de Nazaré Emanuel Ferreira, 38 anos, para renovar a sua fé todos os anos. Natural do Estado do Ceará, ele conta que não conhecia o Círio até se mudar para Belém há 14 anos. Hoje, além de ter se tornado Guarda de Nazaré, ele mantém a tradição de fazer a peregrinação até Belém na semana que antecede o Círio. “Quando eu cheguei aqui eu não tinha nenhum tipo de religiosidade, mas depois que o Círio me arrebatou, eu experimentei ele Círio de diversas formas e uma delas foi fazendo o caminho que os peregrinos faziam todos os anos”, lembra. “Então, eu me juntei a outros três funcionários da minha empresa e fizemos a primeira caminhada em 2014. Em 2015 já foram seis pessoas, em 2016 eu me formei na Guarda de Nazaré e a partir daí o grupo só aumentou e formamos o grupo ‘Irmãos na Fé’, que hoje a gente tem mais ou menos 50 pessoas fazendo essa caminhada”.

A possibilidade de cumprir a árdua missão de caminhar por 20 horas à beira da estrada se torna mais leve com a presença de outros fiéis que integram o grupo. Neste ano, os Irmãos na Fé chegaram até a Basílica no dia 26 de setembro e foram recebidos sob as bênçãos da Imagem Peregrina de Nossa Senhora. “Fazer o caminho em grupo realmente ajuda porque às vezes você tem alguma dificuldade, ou sente até mesmo vontade de desistir e você tem apoio para que não pare, sem falar que a gente está rezando junto e se fortalecendo junto”, considera. “Cada um tem o seu porquê de estar fazendo o caminho. Alguns vão para cumprir promessas, outros vão para agradecer ou para pedir. No meu caso eu vou mais para agradecer mesmo e a sensação, na chegada, é indescritível. A única coisa que te impulsiona realmente para chegar é a sua fé, a sua vontade de estar lá e cumprir a sua missão. Você está fisicamente cansado, mas espiritualmente renovado. É como se sentisse o céu um pouquinho mais perto da gente”.

O cansaço físico também é companhia certa para quem escolhe expressar a sua fé e gratidão à Nossa Senhora participando de um dos maiores símbolos da devoção dos paraenses, a corda do Círio. Mas, da mesma forma, o sentimento de conexão com Deus e Nossa Senhora faz com que toda a dor sentida fique em segundo plano. Um dos fundadores de um grupo formado há 21 anos, o Amigos da Corda, o relações públicas Raphael Lima também vivencia o momento especial que é seguir o Círio na corda acompanhado por amigos. “Esse grupo nasceu de amigos que cada qual ia pagando as suas respectivas promessas na corda, só que em 2000 nós nos encontramos até por uma coincidência e nos demos conta de que poderíamos fazer algo a mais, como ajudar outros promesseiros, sejam os da capital, do interior e até mesmo de outros Estados a pagarem também as suas promessas”, conta. “Historicamente, a corda foi uma união de forças para fazer com que a Berlinda seguisse em frente e segue assim. Todos os anos, por volta de umas5h20 nós fazemos a oração do Santo Terço, um momento que arrepia porque você vê pessoas de fora parando para acompanhar aquela roda de oração que se forma. É o nosso aquecimento espiritual”.

Entre todo o clima de emoção que toma conta da multidão que acompanha a grande procissão de domingo, o sentimento gerado por quem tem a possiblidade de seguir Maria em sua corda é algo difícil de explicar. “É uma fé que não existe medida, imensurável. Eu mesmo já tive até uma costela fraturada porque é uma pressão muito grande. Às vezes chega uma pessoa e pede para conseguir pelo menos tocar na corda e o nosso grupo abre um espaço e a pessoa fica, por um momento, em êxtase e é nesse momento que você vê a união de todos, inclusive de quem você não conhece”, considera. “Então, é só sentindo para saber. Nós estamos ali, alguns pagando promessa, mas sobretudo indo agradecer, por mais um ano estarmos ali reunidos e pela possibilidade de poder ajudar, também, outros romeiros”.

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cada trajeto percorrido, emoção e agradecimentos
📷 |Divulgação

VOLUNTÁRIO DA FÉ

A ajuda aos demais é a maneira que o Luiz Renato de Souza Melo, 40 anos, tem de vivenciar o Círio de Nazaré. Voluntário há 20 anos e conselheiro da Cruz Vermelha há cinco, ele descreve o sentimento despertado pela possibilidade de contribuir para que outras pessoas consigam cumprir as suas promessas, seja na Trasladação ou no próprio Círio. “Para mim, o Círio tem uma característica de amor, de solidariedade, de ajuda, de companheirismo, então, a minha forma de participar dessa festa é justamente estando ao lado das pessoas que eu posso ajudar”, considera. “É como se eu tivesse me conectando à Mãe e àquele sentimento que ela quer, de amor ao próximo, de você poder fazer algo por alguém que você não conhece. E por mais que hoje eu seja do conselho da diretoria, eu gosto de estar carregando a maca, junto com o promesseiro que está ajoelhado precisando de papelão”.

Luiz Renato conta que, depois de tantos anos de voluntariado, a sua família já sabe e entende a missão que ele toma para si todos os anos. Somente depois de vivenciar o Círio prestando auxílio aos romeiros, é que ele segue para confraternizar com a família. “A minha família já sabe que a minha dedicação no Círio, a Nossa Senhora, é através da ajuda àquelas pessoas que estão, naquele momento, precisando de uma palavra, precisando de um copo de água ou mesmo de um socorro”, considera, ao falar da expectativa de poder vivenciar tudo isso de novo, neste ano. “A expectativa é que o Círio, esse ano, seja com uma multidão ainda maior, com um significado também maior porque muitos perderam entes queridos, muitos conseguiram recuperar entes queridos e esse é o momento que muita gente vai ter mais ainda a agradecer”.

A vontade de vivenciar, mais uma vez, tudo o que o Círio representa também é motivo de ansiedade para a representante comercial Trycia Reis, 38 anos. Há muitos anos, o final de semana do segundo domingo de outubro é inteiramente dedicado ao Círio e à devoção a Nossa Senhora não apenas por ela, mas por toda a família. “Estamos na expectativa porque está todo mundo com sede de Círio e a gente não perde nada. Acompanhamos desde sexta-feira, quando a gente vê a passagem da Imagem próximo de casa. No sábado de manhã a gente já acorda cedo e vai para o Círio Fluvial e depois que chega, almoça, descansa um pouco e já volta para a Trasladação. No domingo do Círio, de manhã cedo, a gente já está lá de novo”.

Apesar da possibilidade de vivenciar a devoção a Nossa Senhora em diferentes procissões que compõem a programação oficial do Círio, Trycia lembra que uma romaria é motivo de emoção especial na família. “É muito emocionante a gente acompanhar o Círio Fluvial. A gente já tinha participado de todas as procissões do Círio, só faltava essa e há cinco anos aconteceu de eu ganhar um convite e a minha família comprou para eles também participarem. Foi muito bom, eu não consigo nem explicar, só vivendo o momento mesmo. Toda procissão é uma coisa diferente e desde então a gente nunca mais deixou de ir”, conta. “Ver os ribeirinhos, quando a procissão passa ali na Vila da Barca, é muito emocionante. É um momento deles mesmo, então, é um momento muito bonito”.

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