A dedicação dos romeiros que acompanham o Círio de Nazaré desde sua saída da Igreja da Sé inicia ainda de madrugada. Antes das 7h da manhã, horário em que geralmente inicia a grande procissão, a praça Frei Caetano Brandão fica tomada por romeiros à espera da saída da berlinda. A cena característica do período é vivenciada pelo autônomo Benedito Furtado há muito tempo. Ele, que trabalha com a venda de água de coco na praça, até perdeu as contas de quantas vezes já viu a cena se repetir. “É muita gente. Eles vêm para dormir ainda. Fica tudo cheio isso aqui”.
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No segundo domingo de outubro, a praça, local de trabalho do pai que criou os três filhos com muito sacrifício é tomada pela fé dos que acompanham a procissão de Nossa Senhora de Nazaré. Neste dia, para ele, o local é iluminado. “É uma grande luz. Eu já fiz promessa para ela e já paguei. Ela é uma santa especial”.
Aos 88 anos, muitas já foram as experiências vividas, boas e ruins. Ainda assim, quando ele se prepara para assistir à saída da berlinda da Igreja da Sé, os pensamentos são voltados para agradecer. “Eu criei meus filhos com mingau de farinha e açaí, mas estão todos criados e fortes”, emociona-se. “Eu já fui assaltado sete vezes aqui na praça, mas nunca aconteceu nada comigo”.
Vindo do município de Curralinho, ele se lembra da primeira vez que viu o início de uma das manifestações do Círio. Logo de cara, a força e a persistência dos promesseiros que se espremiam na corda lhe impressionou. “Como eu morava no interior, eu nunca tinha visto isso. A corda vai embora e as pessoas vão junto”.
O calor da multidão que acompanha a berlinda é sentido por Ricardo Massoud do quarto andar do hotel que gerencia, localizado em frente ao Ver-o-Peso. “Daqui de cima não dá nem para ver a rua. Ela é totalmente tomada. Desde a esquina até a Presidente Vargas”. Funcionário do hotel há onze anos, ele já vivenciou muitos Círios do local privilegiado. Durante dez desses, firmou amizades construídas durante a procissão. “Tem hóspedes que já vêm há dez anos. São casais, famílias que se reencontram sempre nesse período do ano. São laços de amizade criados no Círio”.
A preparação para a confraternização que acontece todos os anos fica a cargo das filhas do gerente. Lúcia Craveiro é uma das responsáveis pela decoração. “Fazemos um manto para a Santa, colocamos balões e todos ficam aqui se confraternizando”.
A expectativa para a passagem da imagem da Virgem é amenizada pelas conversas e histórias das cerca de 70 pessoas que vão ao local todos os anos. Ainda assim, no momento em que a procissão se aproxima, todas as atenções são voltadas para a Virgem de Nazaré. “Quando a Santa dobra a esquina e entra nessa área do Ver-o-Peso, é uma energia muito forte”.
Helenita Souza tem a vantagem de morar em um prédio que fica no meio do trajeto da procissão. Da sacada de casa, consegue ver a berlinda se aproximando pela avenida Presidente Vargas. Já do corredor que dá acesso ao seu apartamento, enxerga a ida da peregrinação pela avenida Nazaré. “Esse prédio fica em uma área privilegiada”, acredita. “O que eu vejo é que Maria entrou na vida de cada um desse prédio de uma forma tão linda que veio curando feridas”.
A visão única, proporcionada pela localização do prédio Manoel Pinto da Silva, é aproveitada ao máximo pelos moradores. No dia do Círio, convidados, parentes e amigos precisam disputar cada espaço nas grandes sacadas que se tornam pequenas no dia da procissão.
Em um dos 18 anos que já acompanha o Círio de lá, um pastor evangélico foi um de seus convidados. Até hoje ela não se esquece da emoção sentida por ele, mesmo sendo de outra religião. “Ele ficou estarrecido com esse testemunho de fé”.
Ainda antes do grande dia da procissão, o edifício já é tomado pela presença indireta da Virgem de Nazaré. Pelos corredores de muitos andares, o cheiro que emana das casas é o da tradicional maniçoba. Pará além da organização de decoração e do almoço do Círio, a peregrinação da imagem que representa a Santa acontece todos os dias. “Serão 35 dias de peregrinação neste ano porque são muitos apartamentos. A minha vida, nesses dias, é de dedicação exclusiva a Nossa Senhora”, conta Helenita. “No dia do Círio é muita emoção, é um grande abraço de fé ao prédio todo”.
Há 20 anos o porteiro Gilberto Soares vive a mesma emoção. O local onde ele mora é distante do trajeto percorrido por Nossa Senhora de Nazaré, no bairro do Satélite, mas acompanha da portaria do prédio em que trabalha a passagem da berlinda. “Tudo fica lotado aqui. Vejo de camarote, é muito bonito”, lembra. “Há 20 anos que eu vejo a passagem daqui”.
(Diário do Pará)
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