Há 86 anos, quando a primeira procissão desceu o rio Apeú, entre Macapazinho e Boa Vista, agrovilas de Castanhal, a família de Maria Perpétua Resco já mantinha uma relação de cumplicidade com aquelas água. Seu pai era pescador conhecido na região e ensinou todos os filhos a manter sempre a admiração e respeito pelo caminho fluvial. Sentimentos que se espalharam ontem por todos os devotos que participaram do Círio de Nossa Senhora de Nazaré.
Para dividir os afazeres do dia com as homenagens, dona Péta, apelido de Maria Perpétua, ficou em casa preparando o almoço dos filhos, netos e visitas, enquanto os homens da casa pegaram seus remos, ajeitaram a canoa e seguiram o trajeto ao lado da imagem da Virgem. “O Círio é uma data muito importante pra nós. Todo mundo de casa assiste e até quem não mora mais aqui vem prestigiar”, explica. “É um hábito muito forte, porque todos nos sentimos parte dessa natureza. É como uma extensão da nossa casa e até da nossa vida. Em nenhum outro lugar me sinto tão bem como aqui”, complementa Graziane Resco.
Considerado um dos eventos católicos mais bonitos do Estado, pelo clima bucólico e intimista que institui, o Círio de Macapazinho é marcado justamente por tradições familiares que mantêm o ritual de celebrar a missa em Boa Vista e de lá partir em pequenas embarcações até o distrito sede da festa, onde a imagem retorna a sua capela.
Seguir a Santa pelas águas é, portanto, a orientação, mas como o percurso será feito depende de cada devoto. Alguns vão nas próprias canoas, enfeitadas especialmente para a ocasião, outros seguem nos barcos cedidos pela organização. Três fiéis, contudo, decidiram mergulhar e ir ora nadando ora andando dependendo da profundidade do rio. Um deles era o jovem Afonso Neto, que pelo segundo ano consecutivo pagava uma promessa a Nossa Senhora de Nazaré. “Ela me dá muitas bênçãos, saúde, felicidade. É a força maior da nossa família. Enquanto eu puder vou acompanhar a procissão nadando em frente a ela”, ratificou. Por isso o esforço foi considerado apenas um estímulo para o término do caminho. “Vou tão embalado pela luz dele, cantando e rezando que nem sinto cansaço”, garante.
Para o diácono Adalberto os momentos de louvor servem para incitar o retorno dos valores cristãos à sociedade. “Os homens perderam noção do pecado. É preciso uma reformulação e só quem pode dá-la é Nossa Senhora, mãe do céu. Abram seus corações e deixem que ela instale a paz para acabar com os problemas de falta de fé que tem destruído o nosso mundo”, clamou, ao encerrar o evento.
Em sintonia com a pregação, o manto da Santa remetia justamente à origem do cristianismo, trazendo, além da imagem eucarística, o desenho das palmas cheirosas de Jerusalém em mais de 11 mil peças de cristais, conforme explicou a idealizadora da obra, Graça Wanzeler. “Desde abril comecei a pensar em como ele seria, mas somente em julho a ideia me veio como num estalo. Para finalizar a tempo tive apoio e ajuda da família e, em conjunto, conseguimos nos superar e manter nossa homenagem à Virgem de Nazaré”, afirmou.
(Diário do Pará)
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