Pela primeira vez a berlinda do Círio fica sem a camada dourada que a reveste. Apenas o cedro vermelho a mostra. Em 48 anos de uso, a berlinda sofre esse ano um restauro rigoroso que pretende resgatar as características originais da escultura feita pelo escultor João Pinto, em 1964. O trabalho começou há uma semana e deve terminar na primeira sexta-feira de outubro. Após concluído o processo de decapagem, a berlinda será recoberto por aproximadamente 3 mil folhas de ouro.
Para cuidar desse patrimônio tombado, uma equipe formada por quatro restauradores. Segundo Sergio Melo, restaurador responsável, a camada que foi retirada já nem podia se classificar como ouro. “Muitos elementos foram acrescentados no decorrer dos anos, de forma que o que há não se constitui mais de ouro. Estamos retirando as contribuições pretensiosas, que eram muitas”, avalia.
Durante o ano inteiro, a berlinda permanece em uma sala especial climatizada para garantir a manutenção da peça. “A berlinda já apresenta algumas rachaduras, mas também vamos reparar isso. Vamos também trocar a iluminação com fibra óptica, que não produz calor. Do jeito que ela estava posta produzia um exagero de calor que danifica a obra”, revela.
A berlinda que carrega a imagem da Virgem de Nazaré já é a quinta da história do Círio. Ela tem estilo barroco, com características regionais, como os anjos caboclos do alto dela. A que é usada atualmente é uma réplica de outra que foi usada por mais de 80 Círios. Não se avalia o preço de uma restauração como essa. Sabe-se apenas que é fruto de doações de 12 devotos. “O importante é que a diretoria mostrou a preocupação com o patrimônio e solicitou essa rigorosa restauração”, ressalta. Depois de acompanhar o Círio por anos na corda, o restaurador Ronaldo Carvalho se emociona em poder participar tão de perto da organização da festividade. “Quando eu soube que faria parte dessa equipe fiquei muito feliz, é gratificante estar desse lado”, relata.
HISTÓRIA
A berlinda começou a fazer parte do Círio em 1855, substituindo o palanquim, uma espécie de carruagem puxada por cavalos ou bois. Ainda em 1985, houve a necessidade de a berlinda ser puxada por fiéis para sair de um atoleiro. Uma corda precisou ser usada e depois foi incorporada à tradição da procissão. Mesmo com a introdução da berlinda, manteve-se o costume de a imagem ser carregada no colo de autoridades da Igreja. Apenas em 1880, o bispo Dom Macedo Costa mandou fazer uma berlinda apenas para a imagem. A berlinda foi transformada em andor, em 1926, e assim permaneceu o Círio de 1930. No ano seguinte, ela voltou ao seu formato original, puxada por fiéis através da corda.
EXPOSIÇÃO EM MUSEU
Dos 19 mantos usados pela imagem de Nossa Senhora de Nazaré nos Círios da capital paraense, 15 serão expostos no Museu de Arte de Belém e em um Memorial a ser inaugurado no Centro Social de Nazaré, em outubro. Para a exposição, eles serão cuidadosamente avaliados pela restauradora Rosa Arraes. A intenção é fazer um inventário e uma guarda para todos.Segundo a restauradora, quer-se dar às peças um tratamento museológico. “Vamos levantar o nome de quem bordou, quais as peças que utilizou e ainda restaurar o que em virtude do manuseio em muitos eventos foi sendo danificado.
Depois, eles serão todos guardados apropriadamente e, em regime de revezamento, serão expostos também”, explica. O manto mais deteriorado é o do ano de 1983. “É o mais antigo que temos, uma parte da seda está puída e vamos trabalhar para tentar frear esse processo”, revela.A tradição do manto é mantida ao longo dos anos. Em 1953, a imagem original usou um manto bordado a ouro e pedras preciosas, durante o 6º Congresso Eucarístico Nacional, realizado em Belém, mesma ocasião que recebeu a Coroa Pontifícia.
Os primeiros mantos foram confeccionados pela irmã Alexandra, da Congregação das Filhas de Sant’Ana, do Colégio Gentil Bittencourt, com material doado por promesseiros. Em 1974, após a morte da irmã, quem assumiu a missão foi a ajudante, Esther França. Até 1992 ela havia produzido 19 mantos. A partir daí, vários católicos passaram a confeccionar o manto, inclusive estilistas famosos.
(Diário do Pará)
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