Estava tudo ali: a corda, a Berlinda, os promesseiros, as homenagens, a procissão tomando as ruas... As mesmas cenas que, ano após ano, nos surpreendem pela força que produzem. O mesmo mistério guardado nas histórias anônimas de milhares de fiéis marchando compenetrados em meio à rezas e preces. A 93 quilômetros e quase um mês longe do lugar que o tornou famoso, o Círio de Nazaré acontecia em escala menor, mas conservando as mesmas emoções e encantos.
Ontem pela manhã, em Vigia, município do oeste paraense localizado na região do salgado, a 315ª edição do Círio mais antigo do Estado mostrou aos presentes porque a procissão é considerada Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial. Durante os quatro quilômetros de romaria, da Igreja São Sebastião à Igreja Matriz, Vigia parou para ver uma Maria de cabelos negros e encaracolados. Por onde passava, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré deixava um pouquinho de si em olhos emocionados e corações um pouco mais esperançosos.
O tema do Círio de Vigia deste ano, que acontece sempre aos segundos domingos de setembro, é: “Como Jesus e Maria, somos amados pelo Pai”. Para Adelina Almeida, há três anos coordenadora da procissão, a romaria, além do inegável caráter religioso, possui um valor mais abrangente.
“A história de Vigia se confunde com a evangelização que deu início ao Círio e à fundação da cidade. Nós temos que preservar e valorizar a procissão porque ela faz da cultura vigiense, que acaba se confundindo com a própria festividade”, explica. Segundo a coordenadora, a estimativa de público era de 200 mil pessoas espalhadas pelas ruas estreitas de Vigia. Ana Nazaré Beckman, 34 anos, dona de casa, antes da romaria já ajeitava o pequeno Victor, que completou dois anos ontem, no carro dos Marujos.
“Eu fiz uma promessa pra Nossa Senhora de que, se ele nascesse com saúde, assim que fizesse dois anos ele iria na procissão. Mas eu já conversei com ela: fui eu que fiz a promessa e ele vai até onde der. Se ele quiser sair, vai no colo, não tem problema”, brinca a vigiense. Mário Erviton Melo, 34 anos, taxista, é esposo de Ana e acompanhava o Círio de Vigia pela primeira vez. “Em Belém eu já vou na corda há dez anos. São várias promessas, uma delas, é pela vida da nossa outra filha, Aninha (13 anos), que tem paralisia”, explica.
Wanderson Soares, 27 anos, pedreiro, enfrenta o sacrifício de ir na corda há três anos em agradecimento ao fato de ter conseguido erguer sua casa com muito suor, usando as próprias mãos. “Enquanto Deus me der saúde, eu estarei aqui todo ano. Pra mim, esse é o sentimento mais puro, significa tudo na minha vida”, conta.
Maria das Graças, 39 anos, teve paralisia infantil aos dois anos e vive sob uma cadeira de rodas. “Eu não tenho mágoa nenhuma. Sou feliz da vida. Posso fazer tudo que uma pessoa normal faz”, afirma a promesseira que, fazendo jus ao nome, acompanha o Círio há dez anos em gratidão à Nossa Senhora. Maria conta que foi ela quem intercedeu para que a mãe não perdesse uma das pernas.
Ruth Santos, 48 anos, agricultora, carregou uma cabeça de cera durante todo o Círio. Ela conta que o marido sofria com fortes enxaquecas. Ruth, ao invés de procurar médicos, fez uma promessa à Nossa Senhora. Ela garante que a graça foi alcançada. “Eu tenho a imagem dela bem grandona num santuário de vidro lá em casa, todo enfeitado. Tudo que eu peço ela me concede. Sou devota há muitos anos”, conta a devota, que veio de Santo Antônio do Tauá para pagar a promessa.
CRIOLO
Um dos “romeiros” que mais chamava a atenção era um gigante que tinha a importante missão de carregar o carro dos fogos que, vez ou outra, disparavam para animar a procissão. Ele vinha à frente, paciente e simpático com as crianças que lhe procuravam curiosas.
“Criolo” é o búfalo e colega de trabalho do carroceiro José Nunes Silva, 50 anos, que há 15 anos empresta animais para manter uma tradição antiga e tornar mais interessante a procissão. “Tem tanta gente que quer prestar uma homenagem à Nossa Senhora e não pode, não consegue. Eu me sinto muito feliz”, fala seu José.
(Diário do Pará)
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