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CÍRIO DE NAZARÉ

2 milhões de fiéis nas ruas movidos pela fé

Seis horas de procissão, dentro do tempo previsto pela organização, marcou o 220° Círio de Nossa Senhora de Nazaré, a padroeira do povo paraense. A romaria começou às 6h30, após a missa celebrada à frente da Catedral da Sé, na Cidade Velha, centro de Belé

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Seis horas de procissão, dentro do tempo previsto pela organização, marcou o 220° Círio de Nossa Senhora de Nazaré, a padroeira do povo paraense. A romaria começou às 6h30, após a missa celebrada à frente da Catedral da Sé, na Cidade Velha, centro de Belém, onde a multidão começou a se reunir ainda pela madrugada. A celebração foi feita por vários sacerdotes da igreja católica paraense, sendo presidida pelo núncio apostólico no Brasil, dom Giovanni D’Aniello.

Foram cerca de 2 milhões de pessoas seguindo pelas ruas da cidade, até o ponto final do Círio de Nazaré, a Praça Santuário, onde se localiza a Basílica Santuário de Nazaré, percorrendo, portanto, 3,6 quilômetros. A procissão se aproximou da praça passando das 12 horas. Às 12h30, a imagem da Virgem de Nazaré foi retirada da berlinda sob os aplausos e muito choro dos fiéis emocionados por mais um ano de homenagens à padroeira.

O diretor da Festa do Círio, Kleber Vieira, retirou a imagem da berlinda e repassou ao arcebispo auxiliar de Belém, Dom Teodoro Mendes, que seguiu todo o cortejo à frente acompanhando a berlinda a pé, junto ao grupo de sacerdotes que participou do Círio. Muito emocionado, o arcebispo auxiliar ergueu a imagem da Virgem de Nazaré e percorreu o altar da Praça Santuário mostrando a Santa à multidão que se sentiu abençoada pelo gesto. Em seguida, o arcebispo celebrou a missa e os romeiros se despediram, após a oração final.

A dona de casa Marilza Ferreira, 76 anos, garante ter sido curada de um câncer na garganta. O operário Antônio Cláudio Carvalho, 49, carrega na cabeça uma casa feita de isopor. Perto dele, o microempresário Paulo Cícero Favacho, 37, caminha no meio da multidão com os braços levantados, exibindo a réplica de um cigarro gigante. Essas pessoas, que nunca se viram antes, reuniram-se para o pagamento de promessas por graças alcançadas durante o Círio de Nazaré, que arrastou ontem pelas ruas centrais de Belém, num percurso de 3,6 km, uma multidão de fiéis calculada pela Polícia Militar em cerca de 2, 2 milhões.

A procissão católica paraense já é considerada por especialistas como o maior evento religioso do planeta, superando inclusive a peregrinação muçulmana a Meca de homenagens ao profeta Maomé. Para se ter uma ideia de sua grandeza, ela reuniu nas últimas 72 horas, em cinco romarias por Belém e região metropolitana, um público superior a 5 milhões de pessoas, incluindo 80 mil turistas de todo o Brasil e de outros países que superlotam os hotéis, pousadas e até motéis da cidade.

“Eu estava desenganada pelos médicos e foi Nossa Senhora de Nazaré quem me salvou”, relatou Marilza, que não largava um terço que levava na mão. Ela diz que os últimos exames revelaram que o câncer desapareceu de seu organismo. Para Carvalho, a compra da casa própria foi o fim do pesadelo do aluguel, que consumia mais de 60% do orçamento familiar. “Foi a Nazinha – como a Santa é carinhosamente chamada pelo povo – quem me ajudou a comprar a casa”, comemora o trabalhador. Favacho, por sua vez, parou de fumar e atribui a abstinência de quase um ano do cigarro aos inúmeros pedidos de ajuda à Santa.

O trio de pagadores de promessas integrava um contingente de 7,5 mil devotos que acompanharam a procissão segurando uma corda de 400 metros atrelada à berlinda com a imagem da Santa, que saiu da Catedral da Sé às 6 da manhã e só chegou à Praça do Santuário, onde fica a Basílica de Nazaré, às 12h30. Entre os torcedores do Paysandu e do Clube do Remo, dois clubes que reúnem as maiores torcidas do norte e nordeste do país, dois paulistas que vieram passar o Círio chamavam a atenção.

Com a camisa do Palmeiras, Luis Bentes e Leonardo Pinho fizeram dois pedidos à Santa: o primeiro foi de “saúde à família”, enquanto o outro foi de acompanhar a procissão na corda, em 2013, caso o Palmeiras não seja rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro. Hoje, o clube paulista está entre os últimos colocados na competição. Para suportar tanto sacrifício, Bentes e Pinho, assim como outros fiéis, recebiam garrafas com água mineral para beber, molhar as mãos e os pés descalços que ardiam no asfalto quente.
A segurança dos romeiros exigiu este ano a mobilização de 10 mil homens das Polícias Militar e Civil, além do Exército e Aeronáutica.

Seis mil estudantes de colégios de Belém, universitários, grupos de amigos e vizinhos de bairros, juntamente com outros 1.200 voluntários da Cruz Vermelha ajudaram a socorrer mais de 700 pessoas que passaram mal durante as seis horas da romaria. Elas eram atendidas por médicos e enfermeiros em barracas improvisadas nas praças. Os casos mais comuns foram de pessoas que desmaiaram devido ao forte calor ou por não estarem bem alimentadas ao sair de casa.

Para o professor e doutor em história da Universidade Federal do Pará (UFPA), Aldrin Figueiredo, é difícil alguém ficar indiferente à grandiosidade que gira em torno do Círio de Nazaré. “O Círio tem o aspecto de sociabilidade, é um modo de dividir, de partilhar a crença. Ele é vivamente isso”, diz Figueiredo. Segundo ele, o Círio tem um aspecto medieval, por isso que a imagem da Santa é venerada como se fosse uma rainha. Ela percorre todo o trajeto como se fosse uma realeza, juntando elementos de uma procissão da idade média, onde bispos, governantes, escolas, institutos, sociedades, militares, associações estão presentes até hoje.

Apesar de algumas mudanças nas características e em cada época uma ou outra estrutura se associar à procissão, a mesma estrutura continua. Apesar de Belém já ser uma metrópole, observa Figueiredo, ela mantém esse aspecto coletivo do Círio. “A sociedade hoje tende ao individualismo, porém o Círio e a festa de Nazaré, como um todo, enfatizam o lado coletivo”, resume.

(Diário do Pará)

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