Com as mãos entendidas sobre a redoma que protege a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, a conversa entre fiéis e a homenageada se desenrolava, desta vez, mais de perto. Passadas as seis horas da procissão que levou uma multidão às ruas de Belém durante o Círio deste ano, muitos foram os que se dirigiram até a Praça Santuário para fazer o último pedido na manhã de ontem.
No local desde o término da grande procissão no último domingo, a imagem amanheceu o dia já rodeada de fiéis emocionados. Com os olhos tomados pelas lágrimas incontidas, a comerciante Kelly Castro se despedia da imagem peregrina por mais um ano antes de retornar para casa. “Para mim, o ano começou agora. Volto para casa renovada e contando os dias para o próximo Círio”, revelou, ao lembrar que, apesar de paraense, já mora em Salvador há mais de 20 anos. “Todos os anos eu venho passar o Círio. Vimos a procissão da sacada do hotel, mas não poderíamos deixar de passar para vê-la mais de perto”. Kelly não imaginava maneira melhor de se despedir do Círio deste ano. “Vamos embora hoje [ontem] à noite e viemos pedir proteção para chegarmos bem”, disse. “A emoção de estar tão perto dela é inexplicável. Tem que estar aqui para sentir”.
Também prestes a retornar para a cidade de origem, a nutricionista Zania Regina Pereira teve como primeiro compromisso da segunda-feira a visita à Santa que viu, ao longe, ser carregada pelos romeiros durante o Círio. “Eu morava aqui, mas há bastante tempo não moro mais. Voltei para ver o Círio depois de 23 anos e valeu muito a pena. Acompanhamos a Trasladação e hoje viemos para homenageá-la, agradecer e pedir bênçãos”, considerava. “É muita energia que a gente sente perto dela”.
Conforto
Ainda antes de se dirigir ao trabalho, a vendedora Clícia Bentes e o marido Nilo César encontraram tempo de se confortar sob o manto de Nossa Senhora. Mesmo que a imagem tenha sido alvo de toda a atenção no dia anterior, de perto, as emoções se multiplicam. “É diferente! A gente toca e sente uma vibração. Viemos agradecer, pedir e estou saindo daqui confortada”, garantia, ao lembrar de problemas que a aborreciam minutos antes do encontro com a padroeira dos paraenses. “Eu saí aborrecida do médico e meu marido falou para virmos aqui e realmente me acalmei”.
Com a visita prevista antes mesmo da saída de casa, no município de Abaetetuba, o marceneiro Adélcio dos Santos foi ao encontro de Nossa Senhora de joelhos. Com o braço são depois de meses de cuidados pelo acidente sofrido, qualquer esforço era pouco diante do agradecimento. “Eu levei um tiro de bala perdida no braço e prometi que, se ficasse tudo bem, entraria de joelhos até o encontro dela. Tudo o que eu peço ela sempre me ajuda. Tenho muito a agradecer”, emocionava-se. “Não tem como descrever o que é o Círio, é um momento único. Todo ano nós acompanhamos”.
Dentro da Basílica, orações feitas à imagem original
À frente do local que abriga a imagem peregrina, a proximidade também é aproveitada pelos que adentram a Basílica Santuário de Nazaré. Na parte mais baixa do altar da igreja desde o sábado que antecedeu o Círio, a imagem original de Nossa Senhora de Nazaré - a encontrada por Plácido em 1700 - também pode ser vista mais de perto pelos devotos.
Promesseiro da corda, o estudante Clayton Reis aproveitou a promessa cumprida para o pai, para estar mais próximo da pequena escultura de madeira. “Vim entregar uma promessa para meu pai e aproveitei para vê-la de perto. É diferente ver a imagem original”, acredita. “Eu estou sempre na Basílica, mas a imagem só desce do Glória duas vezes ao ano, eu não podia deixar de vir. A emoção é indescritível”.
Ao som dos sinos que badalavam ainda cedo na igreja, os joelhos da aposentada Maria Ruffeil se dobraram em oração. Vizinha da Basílica, a rotina de visitas à imagem original será mantida diariamente. “Acompanhei o Círio apenas pela televisão e é diferente vê-la assim, de perto”, afirma. “Vou vir todos os dias enquanto ela estiver aqui embaixo”.
Antes do encontro marcado para rever amigos de longa data, o inspetor Thiago Oliveira também fez questão de ficar diante da imagem que deu início à devoção no Estado. “Tenho muito o que agradecer e algumas coisas a pedir”, revelou. “Antes de eu ir encontrar com alguns amigos que não vejo há bastante tempo, tive que vir aqui conversar com ela”.
Prestes a retornar para Fortaleza depois de assistir pela primeira vez ao Círio de Nazaré, a aposentada Ouristea de Lima Filgueiras fez questão de registrar a imagem original de Nossa Senhora em sua câmera. “Achei o Círio lindíssimo! Foi a primeira vez que eu vim”, avaliou. “Na procissão, a gente não vê a imagem de perto. Então, hoje viemos ver a peregrina e essa que foi encontrada. Já tirei a minha foto para mostrar para todo mundo em Fortaleza.”
(Diário do Pará)
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