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CÍRIO DE NAZARÉ

Entre as lembranças e curiosidades

Desde que teve início em 1793, quando a procissão ainda era realizada sobre o chão alagadiço, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré tomou proporções jamais imaginadas ao longo dos séculos. Tendo seu desenvolvimento repleto de intervenções oficiais, do própri

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Desde que teve início em 1793, quando a procissão ainda era realizada sobre o chão alagadiço, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré tomou proporções jamais imaginadas ao longo dos séculos. Tendo seu desenvolvimento repleto de intervenções oficiais, do próprio povo devoto, ou mesmo da natureza, não é difícil imaginar que tantos anos de história da grande festa religiosa guarde curiosidades que hoje sejam até difíceis de imaginar.

Pesquisadora do Círio e frequentadora das procissões há muitos anos, Mízar Bonna guarda na memória muitas das histórias que surgem espontaneamente ao longo do caminhar da multidão. Dentre as lembranças mais fortes, ela recorda da prática de pessoas inicialmente anônimas e que acabaram se tornando verdadeiros personagens do Círio de Nazaré.

“Quem esticava a corda no chão era um caboclo de Igarapé-Miri. Ele tirava ela do porão da Basílica para esticar e depois da procissão guardava. Teve um Círio que ele teve que vir quase a pé de Igarapé-Miri até aqui porque não quiseram trazê-lo de barco, mas não deixou de vir esticar a corda”, rememora, ao informar que só descobriu a missão do homem quando, passada a procissão já há algum tempo, o viu recolhendo a corda utilizada no Círio. “Quando criaram a Guarda de Nazaré (1974), ele fez parte. Morreu como guarda de Nossa Senhora”.

Das experiências vivenciadas durante as procissões, a pesquisadora também lembra da maneira curiosa desenvolvida por uma senhora para acompanhar o Círio, à época ainda menor. “O andor ia no ombro dos diretores naquela época e essa senhora descobriu que cabia debaixo do andor e começou a acompanhar o Círio sempre lá de baixo. Teve um ano que ela caiu e tentaram tirar ela, mas ela voltou. Até morrer ela ia acompanhando o Círio ali, debaixo da Santinha”, lembra. “Nos anos 70, a trasladação descia pela rua Santo Antônio, era pouca gente comparado com os dias de hoje. Lá, havia muitas lojas e eu lembro que fui de uma em uma falando para prestarem homenagem à Nossa Senhora na vitrine”.

Mízar lembra, ainda, de um rapaz que, por acaso, passou a se dedicar a levantar os fios elétricos para que a Santa passasse. “Era um rapaz de 14 anos que foi ajudar na venda de comida da família, quando deram para ele a vara e pediram que levantasse quando o fio tivesse baixo”, conta. “Ele gostou tanto que guardou essa vara e todo ano ia fazendo isso”.


O POVO COMO ‘AUTOR’

Autora de uma dissertação de mestrado e de uma tese de doutorado que estudam o Círio e as transmissões de TV, a jornalista e professora da faculdade de comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA) Regina Alves vê essa participação do povo na procissão como algo muito presente ao longo da história do Círio.

“A história do Círio é extraordinária, cheia de fatos curiosos e também de relatos que o povo foi contando – e continua contando - ao longo de mais de dois séculos, nos quais a gente não sabe exatamente onde termina o que seria ‘verdadeiro’ e começa a lenda”, destaca, referindo-se a um promesseiro que chamou a atenção ao carregar 150 caranguejos atracados ao corpo para agradecer por uma graça alcançada.

“O povo é o grande autor, não apenas ator, do Círio de Nazaré. Sua contribuição se expressa de várias formas, inclusive nas promessas inusitadas que aparecem na romaria, como o Raimundo dos caranguejos”.

Dentro do contexto histórico da festa, a professora destaca três episódios significativos. “Há muito a se aprender sobre o Círio, sempre, e destacaria três episódios: o Círio Civil, em 1877; a reforma do Círio de 1926 a 1931; e ainda a questão dos padres e posseiros do Araguaia, no início dos anos 80 do século XX”, enumera. “Foram momentos de confronto e tensão entre os devotos, Igreja Católica e mesmo governos (como o regime militar, no último caso).”

(Diário do Pará)

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