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Não quero ser mãe: a liberdade de dizer não à maternidade

Toda mulher vem condicionada a ser mãe, mas muitas delas não tem esse desejo pelos mais variados motivos e nem por isso deixam de ser grandes mulheres.

sexta-feira, 07/05/2021, 10:04 - Atualizado em 07/05/2021, 10:41 - Autor: Bruna Dias


Ser livre é tomar suas próprias decisões
Ser livre é tomar suas próprias decisões | Freepik

“Quando você vai ter filho?”, “já está na hora de ter um bebê”, “está ficando velha para engravidar, “vai ficar para titia”, “ela vai amadurecer quando for mãe”, “depois ela muda de ideia e vai querer ser mãe”, “você não gosta de criança”, “não vai ter ninguém para cuidar de ti quando estiver velha”... essas são algumas das centenas de frases que as mulheres escutam ao longo da sua jornada. Por mais que pareça meio primitivo falar isso, as mulheres foram por muito tempo vistas como parideiras. Mas ser mãe há muito tempo deixou de ser uma obrigação imposta pela sociedade para ser um desejo pessoal

No Brasil, de acordo com uma pesquisa global realizada pela farmacêutica Bayer, com apoio da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e do Think about Needs in Contraception (TANCO),  37% das mulheres brasileiras não querem ter filhos. No mundo, o índice chega a 72%.

Eu, assim como todas essas  mulheres inseridas nesse percentual, não desejo ter filhos e tenho outros planos para vida. E está tudo bem!

Podemos mudar de ideia? Sim. Assim como mudamos de planos ao longo da nossa caminhada, mas queremos ter nossas decisões respeitadas e não questionadas.

Fazer planos, focar no profissional, pensar no lado financeiro ou até mesmo ter planos de lazer como propósito de vida fazem muitas mulheres se distanciarem da ideia de ter filhos, e muitas delas não querem mesmo, não sentem esse desejo. E também está tudo bem!

Thaisa de Oliveira, 29 anos, advogada e decidida. Entre um dos seus planos de vida da jovem estar não ser mãe. E mesmo com toda certeza dela, a sociedade ainda teima em questionar suas decisões. “Gosto de cuidar de crianças. Participo na educação do meu sobrinho e primos, mas não sinto mais vontade alguma de ter um filho adotado ou biológico. Quando completei 25 comecei a procurar um ginecologista que fizesse laqueadura, e assim sigo nessa saga”, explicou.

 

A advogada Thaisa de Oliveira leva em questão o Planejamento Familiar
A advogada Thaisa de Oliveira leva em questão o Planejamento Familiar Arquivo Pessoal
 


Decidida, Thaisa viu na sua experiência pessoal que ser mãe realmente não era um dos seus projetos de vida. “Até passava pela minha cabeça na adolescência, quando o meu avô morreu de câncer isso mudou. Ele tinha seis filhos e quando adoeceu apenas dois estiveram presentes, além de mim, da minha irmã e duas primas. Numa madrugada ele perguntou pra mim aonde estavam os filhos, que nenhum queria saber  dele. Isso me deixou tão triste”, explicou.

“Diria que minha ilusão foi morrendo aí, mas acho que o desejo acabou de vez quando comecei a advogar na área da família”, acrescentou.

Com a decisão totalmente madura, a advogada esbarra no olhar da sociedade em criticar sua decisão, principalmente de mulheres mais velhas. Thaisa atualmente buscas entre os médicos uma possibilidade de fazer laqueadura, que é um método contraceptivo irreversível que interrompe a comunicação entre o ovário e o útero.

E claro que mais uma vez, Thaisa é questionada: e se um dia mudar de opinião e desejar ter filho. Mas ela é taxativa: “se isso um dia acontecer, eu consideraria a adoção”.

Os pais da advogada sempre pedem por um neto, mas eles também já estão cientes sobre sua decisão. Pelo menos Thaisa não esbarrou em um relacionamento que tivesses filhos no futuro, ela acredita que esse assunto já pode ser abordado no inicio de uma relação para que nenhum dos envolvidos de frustre.

A decisão da jovem também é baseada no planejamento familiar. “Algumas coisas lá ainda existem e são tão ultrapassadas, mas há médicos que ainda se baseiam nelas, tipo a questão da autorização do companheiro para a realização do procedimento. Penso que a vontade da mulher ainda sim é muito desrespeitada, e isso é evidente em matéria de saúde, na questão de planejamento familiar, é uma delas”, questionou.

Um projeto de lei tramita atualmente no Senado que tenta alterar a Lei do Planejamento Familiar, uma das questões discutida está a retirada da exigência que o cônjuge autorize a laqueadura ou a vasectomia.

MÉTODOS CONTRACEPTIVOS

Ao procurar ginecologistas para debater sobre o desejo de realizar uma laqueadura, Thaisa encontrou dezenas de barreiras, entre elas a lei. “Tive problemas com anticoncepcional, e a médica que me acompanha desde menina sugeriu o DIU. Ainda reflito muito se uso. O preservativo masculino é de lei, mas gostaria de combinar com algum outro método, até porque ela tem suas porcentagens de falha, né”, explicou Thaisa.


O Artigo 10 da Lei 9.263, que trata sobre a laqueadura tubária e a vasectomia, estabelece que os procedimentos só são possíveis em mulher ou homem que tenha plena capacidade civil, seja maior de 25 anos ou, pelo menos, com dois filhos vivos. Ou seja, uma pessoa que não tem filho ainda não pode realizar o procedimento.

Como os procedimentos são irreversíveis, a dificuldade em realiza-los é grande. A ginecologista e mastologista Débora Queiroz, ainda não se deparou no seu consultório com alguém que não deseje ter filhos “para sempre”. Por esse motivo ela sempre indica métodos contraceptivos seguros.

 

 


“As mulheres que procuram por laqueadura são as que já tem prole constituída e não querem ter mais filhos. Por se rum método irreversível e passível de arrependimento, ei particularmente defendo dispositivos de longa duração pela sua altíssima eficácia”, esclareceu.

A médica faz questão de enfatizar, que as pessoas que procuram seu consultório são as arrependidas do procedimento. “Como a vida muda, a gente tem que desestimular a laqueadura. Nem todo mundo, infelizmente, consegue fazer bebê de proveta depois. Uma pessoa que não tinha o desejo de ter filhos pode mudar seus planos por  N motivos, depois ela  fica desejando”, acrescentou Débora Queiroz.

A ginecologista faz questão de destacar que a escolha do método contraceptivo para ser usado depende de vários fatores, por isso a necessidade de conversar sempre com o seu médico, conhecer as opções e se informar bastante.

JULGAMENTOS

O desejo de não procriar gera vários julgamentos sociais, principalmente porque para a grande maioria das pessoas a felicidade da mulher só fica completa se ela tiver filho ou de que, biologicamente, fomos feitas para sermos mães.

Um dos temas levados em questão é o suposto egoísmo que essas mulheres teriam por não incluir uma criança nos seus planos de vida.

A psicóloga e psicoterapeuta Caroline Cavalcante tratou esse tema de forma clara e esclarecedora. Veja.


 

 

 

 

 

 

 

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