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PREVENÇÃO

Adolescentes até 19 anos são 1 em cada 5 grávidas no Pará

Números de casos vêm diminuindo no Estado, mas percentual ainda preocupa pelos riscos à saúde e ao futuro das jovens no Estado

domingo, 08/05/2022, 05:22 - Atualizado em 08/05/2022, 05:21 - Autor: Cintia Magno / Diário do Pará

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De todos os nascimentos registrados no Estado do Pará em 2021, 21,65% foram de mães adolescentes, meninas inseridas na faixa etária entre 10 e 19 anos de idade. Ainda que a taxa venha reduzindo gradativamente no Estado, o percentual acima da média nacional, que é de 19,75%, ainda chama a atenção para a necessidade de ampliação de políticas de prevenção à gravidez na adolescência.

A coordenadora estadual de Saúde do Adolescente e Jovem da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), Vera Canto Bertagnoli, aponta que, se observada a série histórica registrada no Estado, a gravidez na adolescência vem apresentando um declínio. Ainda em 2017, antes da pandemia da Covid-19, o Pará registrava uma taxa de gravidez na adolescência de 24,36%. “Significa que 24,36% dos partos de nascidos vivos no Estado eram considerados de mães adolescentes, o que, para a Organização Mundial de Saúde, engloba as pessoas com idade entre 10 e 19 anos”, explica, ao apontar a redução gradativa que o percentual vem apresentando desde então. “Em 2018 esse percentual caiu para 23,49%; em 2019, mesmo com o início da pandemia, continuou caindo para 22,62%; em 2020 caiu para 21,97% e em 2021 estamos em 21,65%. O que a gente percebe é que é um declínio leve, mas interessante”.

Por outro lado, a coordenadora aponta que em algumas regiões do Estado ainda se observa aumento desse percentual, o que contribui para que o índice geral do Estado não reduza ainda mais. Dentre as regiões em que o número de nascidos vivos, filhos de mães adolescentes, aumentou em 2021, em comparação com 2020, destacam-se a Região do Baixo Amazonas, do Tapajós e a do Tocantins. “Claro que, dos 144 municípios, nós temos ainda 31% deles que têm um pequeno aumento, o que significa que mais trabalhos precisam ser realizados pelos municípios”, pontua Vera. “A gente vê que a Região Metropolitana de Belém vem reduzindo bem acentuadamente esse percentual, ficando abaixo do nível nacional. Acredito que pelo maior acesso à informação que o jovem tem nas capitais, quando comparado com uma região de mais difícil acesso do interior”.

A coordenadora aponta que a Região Metropolitana de Belém 1, que compreende os municípios de Belém, Ananindeua, Benevides, Marituba e Santa Bárbara do Pará, registra uma proporção de gravidez na adolescência de 15,17% em 2021, percentual abaixo tanto da taxa registrada no Estado (21,65%), quanto da taxa média nacional (19,75%). “Nós temos, ainda, uma resistência grande em falar sobre saúde sexual e reprodutiva com os adolescentes porque muitos pais são contra porque interpretam que a escola estaria estimulando os adolescentes a começarem a vida sexual mais cedo, quando, na realidade, o objetivo é a prevenção”.

 

Vera Bertagnoli, da Sespa, aponta que esses índices vêm caindo no Estado
Vera Bertagnoli, da Sespa, aponta que esses índices vêm caindo no Estado | Divulgação
  

Vera considera que, quanto mais cedo se conseguir trabalhar com o adolescente para que ele saiba se prevenir de uma gravidez não planejada e quanto mais cedo eles souberem que podem procurar uma unidade de saúde para serem beneficiados com orientações sobre planejamento reprodutivo e métodos contraceptivos, mais cedo esses adolescentes, meninos e meninas, vão conseguir se prevenir. “Além do impacto na vida pessoal de cada adolescente, uma gravidez na adolescência impacta, também, na saúde. A gravidez na adolescência sempre vem acompanhada de uma gravidez de alto risco, dependendo da idade. Há casos de meninas na Santa Casa que se tornam mães aos 10, 11 anos de idade”, aponta.

A médica obstétrica da Fundação Santa Casa de Misericórdia, Danielle Leal, aponta que desde 2019 os números de gestação na adolescência na Santa Casa estão estáveis, porém, não deixam de preocupar no que se refere à saúde pública. “Os últimos três balanços apontam que aproximadamente 12,5% das pacientes que entram na Santa Casa para ter bebê são adolescentes. Se a gente imagina que o total de partos por mês na Santa Casa gira em torno de 900 a 1.000 partos, a gente entende que 12% é um número alto”, avalia.

Danielle aponta que a Santa Casa oferece a oportunidade de realização do DIU pós-parto, método contraceptivo de longa duração e que pode ser revertido a qualquer momento. O acesso às orientações médicas necessárias para escolher o melhor método contraceptivo passou a fazer parte da vida da estudante do curso técnico de enfermagem, Mayara Palheta, 24 anos, a partir da telemedicina. Moradora do município de Melgaço, Mayara foi mãe pela primeira vez aos 15 anos de idade e lembra que, na época, o próprio acesso às consultas médicas era mais difícil. “Na época não era fácil. Meu pai passava sono para conseguir uma vaga para eu fazer o pré-natal, fazer ultrassom, mas eu consegui realizar todas as consultas”, lembra. “Acho que é bom o sistema de saúde e de educação ter esses tipos de conversas com os jovens. Na minha época não tive muitas informações”.

Hoje, Mayara conseguiu ter maior acesso às orientações necessárias para iniciar o planejamento familiar, através das consultas por telemedicina oferecidas pelo projeto ‘Saúde das Manas’, uma parceria do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) com o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Pará (COSEMS/PA) e que “atua na garantia dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, através do acesso a métodos contraceptivos, consultas com ginecologista e obstetra por telemedicina, incentivo ao pré-natal, prevenção de gravidez não planejada e de infecções sexualmente transmissíveis, fortalecimento do sistema, dentre outras linhas de trabalho”.

 

Saúde
Saúde | Divulgação
 

EM NÚMEROS

15,3

mortes de bebês são registradas a cada mil nascidos vivos de mães adolescentes (até 19 anos), uma das maiores taxas de mortalidade infantil (Saúde Brasil, 2019).

75%

das mães adolescentes abandonam a escola (OPAS/Unicef, 2017)

66%

das gestações em adolescentes não são intencionais (Nascer no Brasil, 2016)

GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA

Proporção de nascidos vivos filhos de mães adolescentes, em relação ao total de nascidos vivos no Pará

2017 - 24,36%

2018 - 23,49%

2019 - 22,62%

2020 - 21,97%

2021 - 21,65%

Fonte: Coordenação de Saúde do Adolescente e Jovem da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).

Riscos à saúde da mãe e prematuros

Além do impacto social, a gravidez na adolescência pode representar risco à saúde da mãe. A médica obstétrica da Fundação Santa Casa de Misericórdia, Danielle Leal, explica que uma gestação na adolescência tem maior probabilidade de partos prematuros, de nascimento de recém-nascidos com baixo peso (com menos de 2,500 kg), além de compreender uma faixa etária onde há uma maior incidência de algumas doenças como pré-eclâmpsia, maior chance de desenvolver depressão pós-parto. “São gestações dentro de uma faixa etária de maior chance de complicações e, por isso, maior chance de morte materna também”, aponta. “No que se refere ao aspecto social, a gente pode pensar na evasão escolar e no desenrolar disso, como a dificuldade de acesso a oportunidades profissionais, o que compromete toda a estrutura familiar. Por isso é tão importante ter acesso a métodos de contracepção, dentro dos postos de saúde, e de serem abordados temas de educação sexual nas escolas”.

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