Não há limite na relação de um ator com um personagem. O palco é o start para o artista despir de si mesmo e embarcar na vida de outro. A interpretação pode ser encarada como mais um trabalho ou se tornar parte da história de vida do profissional dos palcos. O caminho que um papel pode trilhar na mão de um encenador é sempre uma incógnita. A atriz Regina Braga sabe bem disso. Há quase 14 anos, ela atua no monólogo dramático ‘Um porto para Elizabeth Bishop’ e o personagem tem sido para ela um feliz enigma.
Regina interpreta uma poeta americana que, de passagem pelo Brasil, acabou se apaixonando pela arquiteta urbanista Lota de Macedo Soares, responsável por sua estadia no Rio de Janeiro, onde produziu uma parte significativa de sua obra. Elizabeth foi importante no cenário cultural brasileiro das décadas de 1950 e 1960, e simboliza um divisor de águas na carreira da atriz. Uma personagem que ela carrega em si e declara querer interpretar enquanto existir. As duas, mesmo que em terrenos opostos, criaram uma relação que só o espectador pode entender.
Durante entrevista exclusiva, Regina impressiona com os olhos azuis e os traços do rosto que fazem um link imediato com a fisionomia do ator Gabriel Braga Nunes, no ar na novela ‘Em família’, como o emblemático Laerte. Mãe do ator e casada há mais de 30 anos com o médico e colunista da D Semanal Drauzio Varella, a atriz se prepara para gravar este mês um filme sobre a vida de Irmã Dulce, em Salvador, ainda sem previsão para estreia. Antes de partir para a Bahia, a artista esteve em Belém com o espetáculo e realizou o desejo de atuar no Theatro da Paz. As experiências no histórico palco paraense, as impressões sobre Elizabeth e as confidências da vida pessoal ela conta a seguir.
Como tem sido interpretar Elizabeth Bishop?
Este espetáculo foi uma escolha feliz. É uma história que tem um interesse muito grande para os brasileiros, porque é a visão de uma estrangeira sobre nós. Elizabeth Bishop teve uma relação muito contraditória com o Brasil, ela gostava de muitas coisas e não gostava de outras. Mas, de qualquer forma, o país teve uma importância muito grande na vida e na obra dela, que veio passar três dias e ficou 15 anos. Sinto um imenso carinho, existe uma relação de muito amor entre eu e ela nesses anos. Cada vez que vou fazer este personagem de novo, acrescento um pedacinho em um diário e conto para ela algumas coisas que ela me deu.
O que prendeu a americana por tanto tempo aqui?
Elizabeth estava de passagem pelo Brasil, comeu caju no Rio de Janeiro e foi para a UTI porque teve uma reação alérgica. Durante o tratamento, se apaixonou tanto pelo país como pela Lota de Macedo Soares, uma carioca que ficou muito conhecida na época, assessora de Carlos Lacerda, e uma das responsáveis pela construção do Aterro do Flamengo. Uma mulher da classe alta, muito encantadora e sedutora. Elas se apaixonaram e viveram juntas esses 15 anos aqui no Brasil, isso na década de 1950, quando não era comum ainda uma relação gay, entende? Então já foi uma coisa bastante escandalosa na sociedade do Rio.
O acolhimento típico do brasileiro ajudou Elizabeth a criar raízes no país?
Sim. Ela diz coisas neste sentido, por exemplo:“Aqui no Brasil, nesse país atrasado, eu me sinto muito mais perto da verdadeira vida”. Ela sente que o Brasil a acolheu como nunca tinha se sentido em outro lugar, tanto que foi aqui que ela escreveu os contos lembrando da morte da mãe, lembrando da infância... Elizabeth sempre foi órfã, sozinha, gay em um momento em que isso era um tabu. O Brasil foi fundamental, nosso jeito carinhoso e extrovertido deu uma facilitada para ela. A partir daí, Elizabeth ficou uma escritora melhor, tanto que ela chegou aqui em 1951 e, em 1956, ganhou o Prêmio Pulitzer, o mais importante reconhecimento da poesia nos Estados Unidos, tendo escrito tudo aqui.
Nesse período no Brasil ela visitou o Pará?
Na década de 1960, ela fez uma excursão de carro à Vigia para conhecer igrejas junto com o poeta Ruy Barata. Elizabeth também conheceu Santarém e um dos poemas mais bonitos que ela escreveu sobre o Brasil chama-se ‘Santarém’ e conta a beleza de ver a junção dos rio Amazonas com o Tapajós. Não é muito habitual você ver isso em uma estrangeira, não só pelos lugares onde passou, mas pelos personagens brasileiros que colocou nos poemas: o cão vira-lata andando na rua, os mendigos, um bandido no Morro da Babilônia...
O que Elizabeth Bishop traz de exemplo para a mulher do nosso tempo?
Não sei te resumir isso. As pessoas davam muita ênfase a esse aspecto gay do relacionamento, em todas as entrevistas que eu dava isto era um tema, sendo que, para mim e para a autora da peça, nunca foi o aspecto mais importante. Na primeira temporada recebi vários casais gays no camarim emocionados, que diziam: “Muito obrigado por tratar esse tema com tanta delicadeza”. Ela já era homossexual e relaxou essa sexualidade aqui.
A entrevista completa você acompanha na revista D Semanal.
(DOL com informações da D Semanal)
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