Passado mais de um século e meio da morte de 130 operárias que tiveram a coragem de se rebelar contra seus empregadores, em Nova Iorque, na tentativa de ter seus salários equiparados aos dos funcionários do sexo masculino e condições dignas de trabalho, não é difícil, hoje, na segunda década do século 21, encontrar uma mulher que tenha plena consciência de que possui remuneração menor em consideração ao seu gênero, ou que tenha como meta ser duas vezes melhor do que um homem seria na função que escolheu para que sua competência seja valorizada.
O assunto é tão intrigante que, só no ano passado, rendeu nada menos que 40 propostas de trabalho aprovadas para o Simpósio Gepem/UFPA: Mulheres, Gêneros, Histórias e Saberes em 20 anos. Na semana passada mesmo, o próprio Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) divulgou uma pesquisa em que, ao mesmo tempo, destacava a presença feminina nos postos de trabalho, em mais de cem mil admissões no ano passado em todo o Estado, e confirmava que os salários pagos às mulheres ainda são menores em relação ao que é pago aos homens. No entanto, para quem está nesse mercado, a perspectiva é de melhora progressiva nesse cenário.
O DIÁRIO conversou com quatro profissionais de áreas distintas e o discurso é uníssono: tanto quanto a preocupação com o gênero, elas se preocupam em ter a competência reconhecida e com suas lutas diárias para provar isso aos outros e a elas mesmas - não simplesmente porque são mulheres, mas porque se veem merecedoras pelo papel que desempenham no mercado de trabalho. “O que mais me incomoda quando vou fazer um evento ou um ensaio fotográfico é que boa parte dos clientes não valoriza a mão de obra, mas, felizmente, quando entrego as fotos prontas, vem logo o reconhecimento”, afirma Carolina Veiga Sales, fotógrafa profissional com seis anos de atuação. “A sociedade faz distinção, sim, nós mesmos fazemos às vezes, e em alguns aspectos somos mesmo diferentes. Durante toda a minha vida acadêmica eu fui super feminista, sempre fiz questão de estudar mais, escrever mais, conseguir os estágios mais difíceis, ser dura... ser a melhor versão de mim mesma”, confirma a médica proctologista Carmen Lôbo.
“Acredito que a sociedade tenha evoluído nesse sentido, tanto que hoje a mulher ocupa quase todo tipo de cargo, até mesmo os mais braçais, apesar das dificuldades e das fragilidades, que não significam fraquezas!”, corrobora a advogada Thaís Seixas. “Há alguns anos, eu sentia mais o espanto das pessoas, quando eu dizia ser delegada de Polícia Civil. Quando fui lotada na Divisão de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), há alguns anos, senti que algumas pessoas tinham restrições por eu ser jovem e mulher, me dispondo a realizar um enfrentamento especializado. Muitas vezes perguntavam pelo delegado e eu dizia que eu estava ali. Eu também ouvia ‘mas ela é tão novinha’”, recorda a delegada de polícia Beatriz Silveira, que responde pela Delegacia de Repressão a Crimes Tecnológicos (DRCT).
Carolina diz nunca ter sentido preconceito na execução do seu trabalho, mas não fez suas escolhas pautada na sorte: estudou fotografia em São Paulo e na Itália. “Normalmente quando vou fazer eventos, como formaturas, onde há sempre várias empresas de fotografia, a maioria dos profissionais são homens, mas acho que a disputa tem mais a ver com ‘quem é mais experiente’, ‘quem tem mais clientes’ ou coisas do tipo. Acho que, na vida, sempre temos que provar que somos bons no que fazemos. Para quem trabalha com o que gosta, isso é um prazer, e não um fardo”, avalia.
Na formação, muitas barreiras a serem transpostas
Ainda na academia, Carmen lembra de ter sentido uma diferenciação, cada vez mais rara nesse ambiente, em seu próprio entendimento. “Fui muito feliz no hospital onde fiz minhas residências em cirurgia geral e coloproctologia, em Fortaleza, mas sem dúvida houve momentos de dissabor. Quando eu entrei na cirurgia geral, eram turmas de quatro residentes e da minha turma eu era a única mulher. Eles faziam reuniões informais e tomavam decisões sem me comunicar o tempo todo, e depois ficavam chateados, pois ‘eu nunca cumpria o combinado’, até entenderem que era porque eu não tinha ficado sabendo do que tinha sido acertado... Foram tempos difíceis, mas, quando nos acertamos, tiramos de letra. Alguns dos preceptores tinham ‘problemas com mulheres’, mas nós crescemos na adversidade e os tempos estão mudando. Hoje, aumentou muito o número de cirurgiãs, vejo isso todos os anos com muita alegria quando sai o resultado do concurso de residência médica”, analisa a médica.
Thaís se mostra segura ao dizer que, no meio legal, a diferença entre homens e mulheres é praticamente nula. Ela divide, há menos de um ano, a sociedade de um escritório de advocacia com um colega de profissão. “Dividimos as tarefas e nos baseamos em competência, e não em gênero. Acho que, nos setores empresariais, o homem ainda pode ser o preferido, mas na advocacia eu vejo, por exemplo, em alguns casos, clientes que preferem atendimento com advogadas”, observa.
“Fui instrutora da Academia de Polícia Civil nos dois últimos concursos e verifiquei que muitas são as mulheres ingressando na polícia, somando-se a outras colegas que aqui já estão, com vontade de exercer a profissão, tão árdua, com afinco. Hoje, em razão da grande atuação das mulheres, não só na minha instituição, mas em outras da área da Segurança Pública, observo o respeito e confiança das pessoas que atendo e da minha equipe, quanto ao meu trabalho”, garante Beatriz Silveira. “Não só eu, mas muitas outras mulheres estão demonstrando na polícia que podem realizar grandes e complexas investigações, mantendo a delicadeza e feminilidade, aliando a razão e a emoção”, conclui.
(Diário do Pará)
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