A palavra é sororidade. Ainda não aparece nos dicionários de língua portuguesa, mas uma busca rápida na internet aponta que o termo é popular. São quase 300 mil ocorrências. Nas redes sociais, sororidade tem sido repetida com cada vez mais frequência, sempre ligada à luta das mulheres pelo reconhecimento de seus direitos. Mas, afinal, qual o sentindo do termo que se tornou onipresente entre as ativistas que lutam por igualdade de gênero?
Sororidade vem do latim sóror, que significa “irmãs”. É a versão feminina de fraternidade, que também vem do latim a partir do prefixo frater (irmão). Daí que nas redes sociais é comum ver as ciberativistas se tratarem por “manas”. Muito mais que um termo, a palavra se tornou sinal de apoio mútuo, de lutas comuns e de quebra da velha ideia de rivalidade entre elas. “Não devemos reproduzir a opressão, mas nos ajudar mutuamente”, explica a professora de Filosofia e ciberatibvista Lívia Noronha.
Lívia explica que uma forma de sororidade é, por exemplo, valorizar o trabalho das manas. “Isso pode se manifestar nas nossas relações de consumo, por exemplo, dando preferência a empreendedoras, porque sabemos que as mulheres enfrentam desafios maiores no mercado de trabalho”. Mãe de uma menina de um ano e 11 meses, a cabeleireira Sarah Arcângela Soares, 22 anos, conta que vem sentindo na pele os sinais de sororidade, seja nas redes sociais, que se tonaram terreno fértil para o ativismo feminista, seja no dia a dia. “Viajo para ministrar oficinas em comunidades quilombolas e já tive ajuda das manas para cuidarem da minha filha”, conta. “Há uma empatia entre nós”, garante.
CONVERSAS
Com um diagnóstico de depressão, a museóloga Angélica Albuquerque, 28 anos, sentiu necessidade de falar e ouvir outras pessoas que enfrentam a doença. Surgiu a ideia de fazer rodas de conversas para tratar do problema. “São grupos de conversa e de acolhimento. Quem passa pela depressão sabe das dificuldades”. Os encontros reúnem na maioria mulheres negras. “Essa rivalidade feminina é uma coisa muito mais televisionada. Quem enfrenta a realidade sabe que não é o caso de disputa entre mulheres. Temos salários mais baixos, menos oportunidades. Lutamos para ocupar espaços”, diz. “A ideia é que, quando uma mulher avança, todas as outras seguem juntas”, confirma Lívia.
Com coragem, elas buscaram a mudança que precisavam para garantir o futuro
(Foto: reprodução)
A produtora audiovisual Tatiana Brito, 35 anos, tinha um único emprego e tempo para nada. Até aí tudo bem. Mas, tendo uma filha para criar e vendo as contas do mês não fecharem, ela resolveu tomar uma decisão arriscada, mas que deu certo: atender a várias produtoras ao mesmo tempo, como freelancer. Embora o tempo tenha ficado mais apertado, ela conseguiu maior flexibilidade para resolver suas tarefas. Hoje, ela consegue intercalar, durante a semana, atividades como corrida, pedalada, yoga, meditação e uma cervejinha com uns amigos quando dá. “Me organizo para começar a trabalhar sempre depois de me cuidar. Como várias produtoras são de fora e a gente faz reuniões pela internet, ficou bem mais flexível”, explica ela, que trabalha de casa sempre que pode. “A demanda aumentou, mas quem faz meu tempo sou eu mesma”, reforça Tatiana.
A ideia de trabalhar em um mesmo local novamente não é algo completamente descartado por ela ainda. “Mas teria de pagar muito bem, e não é essa a realidade”, pondera. “A gente fica doida com tanta coisa para fazer, mas fico bem feliz de estar produzindo tanto”, garante.
PELO MUNDO
A paixão pela academia fez a doutoranda em Sociologia Desiree Giusti, 28 anos, encarar escolhas bastante complicadas. A maternidade ainda na adolescência a afastou por 5 anos dos estudos, mas, quando ela retornou, foi daqueles amores arrebatadores. Mal acabou a graduação, ela passou no mestrado em Belém e na França, mas a pouca idade do filho a fizeram ficar por aqui, neste primeiro momento. Quando veio o “aceite” para o doutorado em Sociologia em Paris, ela empacotou a vida inteira para ir embora, incluindo o marido e o rebento, e encarou a difícil tarefa de se desfazer de todos os bens antes de ir, o que incluía um cargo público no Estado, do qual pediu exoneração. Porém, o casamento acabou um mês antes da ida para a Europa. Ela titubeou, mas decidiu que a meta que ela tinha desde a faculdade precisava ser cumprida.
E detalhe: sem bolsa de estudos. “Me vesti de coragem e fui. Decidi que ia ser bom não só para mim, mas também para o meu filho”, relata. “É uma história que eu preciso terminar. Encontrei pessoas maravilhosas. Meu filho sabe que só falta mais um ano para terminar e a gente vai dando um jeito na saudade”, explica Desiree. “Não conseguia imaginar, depois de me desfazer de tudo, ficar em Belém. Acho que até poderia estar no doutorado, mas não realizada”, avalia.
Lei criará fundo para enfrentamento à violência contra as mulheres
(Foto: Lucio Bernardo JR./Agência Câmara)
Números preocupantes sobre o aumento de casos de violação sexual e de violência doméstica colocam o Brasil no topo do ranking mundial dos países com mais crimes praticados contra as mulheres. O Pará mantém um dos mais altos índices de assassinatos de mulheres, com uma taxa de 6,1 homicídios por 100 mil mulheres, superior à taxa média nacional de 4,6. A Secretaria de Estado de Segurança Pública do Pará não fornece dados sobre crimes praticados contra mulheres desde 2011. Naquele ano, foram registradas 6.652 ocorrências de diversos tipos de crimes praticados contra mulheres somente na Região Metropolitana de Belém.
De acordo com o relatório do Observatório da Mulher contra a Violência, informações fornecidas pela Secretaria de Estado de Segurança Pública mostram que foram registradas, em 2014, 12.067 ocorrências relacionadas à violência contra mulheres. Os dados significam que ocorreram 300,2 ocorrências para cada grupo de 100 mil mulheres.
Este ano, em mais uma mobilização mundial em defesa dos direitos das mulheres, no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher - 8 de março -, a Câmara dos Deputados tem à frente o desafio de votar uma importante medida de reforço à rede de proteção criada a partir da aprovação da Lei Maria da Penha, em 2006.
A procuradora da Mulher da Câmara dos Deputados, Elcione Barbalho, que tem sido uma das principais vozes nacionais no combate à violência contra mulheres, defende a aprovação do Projeto de Lei nº 7371 de 2014, que cria o Fundo Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. Proposto pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre a Violência contra a Mulher, o projeto foi aprovado no Senado Federal e está na Câmara dos Deputados desde abril de 2014.
“Com a aprovação do recurso, será possível melhorar o combate à violência contra as mulheres. O Brasil está em 5º lugar como o país mais violento do mundo”, diz Elcione. Ela lembra ainda que, a cada 1 hora e meia, morre uma mulher vítima de violência doméstica no Brasil. “Por ano, são registrados cerca de 50 mil casos de mulheres estupradas no país”, lembra a deputada federal Elcione.
A procuradora da Mulher acredita que, ao criar um fundo específico para ser investido em ações de enfrentamento à violência contra as mulheres, será possível ampliar o leque de proteção previsto na Lei Maria da Penha. “Sem dúvida, é um projeto que salvará muitas vidas”, lembra a deputada.
Os recursos do Fundo Nacional serão utilizados da seguinte forma:
1. Na construção da Casa da Mulher Brasileira e Casas Abrigo para acolher mulheres vítimas de violência e seus filhos menores.
2. Na compra de viaturas especializadas para resgatar mulheres e seus filhos menores, que foram vítimas de violência.
3. Criação de serviços 0800 de atendimento.
4. Aprimoramento dos serviços, como, por exemplo: assistência social, assistência psicológica e assistência jurídica para mulheres vítimas de violência.
5. Compra de cesta básica para mulheres vítimas de violência e seus filhos menores.
(Rita Soares, Carolina Menezes E Luiza Mello/Diário do Pará)
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