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Eleição no Peru: esquerdista Castillo passa Keiko Fujimori

O esquerdista Pedro Castillo e o direitista Keiko Fujimori disputam as eleições, que será decidida voto a voto.

segunda-feira, 07/06/2021, 17:26 - Atualizado em 07/06/2021, 17:44 - Autor: FOLHAPRESS


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| Reprodução/Instagram

O Peru também tem a maior taxa de mortalidade do mundo devido à pandemia de coronavírus, com mais de 185 mil mortes em uma população de 33 milhões de habitantes. No ano passado, a crise da saúde obrigou a economia a ficar semiparalisada por mais de cem dias, o que levou a uma recessão e a uma queda do PIB de 11,12%.

Com 94,05% da apuração oficial concluída no Peru, o candidato esquerdista Pedro Castillo, 51, assumiu a liderança na corrida presidencial com 50,07% dos votos contra 49,92% da direitista Keiko Fujimori, 46. A diferença, que equivale a menos de 16 mil votos, reflete a polarização da cena política peruana enquanto o país escolhe a quinta pessoa a ocupar a Presidência desde 2018.

Os primeiros relatórios da Onpe, órgão eleitoral responsável pela contagem oficial dos votos, que apontavam vantagem de Keiko, continham os votos das áreas urbanas. À medida em que o percentual restante, que leva mais tempo para ser analisado por vir das áreas rurais do Peru e dos cidadãos que votam no exterior, Castillo foi diminuindo a diferença até superar a adversária.

Eleitores de Keiko chegaram a cantar vitória quando a Onpe divulgou os resultados preliminares. Com 42% dos votos apurados, a filha do autocrata Alberto Fujimori, que liderou o país entre 1990 e 2000, saiu na frente com quase seis pontos de vantagem.

Os números provocaram explosões de júbilo em bairros ricos de Lima, onde as pessoas iam às janelas aos gritos de "Viva o Peru!" e "Keiko venceu!". O eleitorado mais conservador teme que o país "caia no comunismo" se Castillo for eleito presidente.

A candidata, no entanto, reagiu com moderação e pediu prudência a seus eleitores devido à pequena margem de diferença. "Aqui não há vencedor nem perdedor. O que se deve buscar é a unidade de todos os peruanos", disse Keiko.

Horas antes, a pesquisa de boca de urna do Instituto Ipsos também dava vitória à direitista -50,3% dos votos contra 49,7% de Castillo. Mais tarde, porém, uma contagem rápida feita pelo mesmo instituto revelou um resultado inverso, com 50,2% para o professor de escolas rurais e 49,8% para a ex-congressista.

Gritos de vitória também se multiplicaram após a divulgação do resultado favorável ao esquerdista em Tacabamba, cidade andina mais próxima da aldeia empobrecida onde Castillo nasceu e foi criado. Uma multidão de apoiadores se reuniu na praça principal, violando o toque de recolher imposto para contenção da pandemia de coronavírus.

"Peço ao nosso povo que defenda todos os votos", escreveu Castillo no Twitter quando a previsão inicial sugeria que ele perderia. "Convido o povo peruano de todos os cantos do país a ir às ruas em paz para estar vigilante na defesa da democracia."

Em nota, seu partido, o Peru Libre, definiu como "enganoso" o segundo levantamento do Ipsos, citando divergências em pesquisas semelhantes no primeiro turno, apesar de os números apontarem ligeira vantagem do candidato. No comunicado, a legenda pede a revisão das atas de votação sob escrutínio de observadores de ambos os partidos envolvidos na disputa presidencial.

Keiko é investigada por contribuições ilegais à Odebrecht

Keiko Fujimori pode acabar sendo a primeira presidente do Peru, objetivo pelo qual trabalha há 15 anos, desde que assumiu a tarefa de reconstruir quase das cinzas o movimento político de direita fundado por seu pai em 1990.

Mas perder nas urnas não significaria apenas sua terceira derrota nas urnas -ela já foi candidata em 2011 e em 2016, perdendo ambas as vezes no segundo turno. Ela também teria que ir a julgamento sob risco de acabar na prisão.

Keiko é investigada pelo caso das contribuições ilegais da empreiteira brasileira Odebrecht, um escândalo que afetou também quatro ex-presidentes peruanos, e já passou 16 meses em prisão preventiva por isso. Se vencer, abrirá um precedente ao ser a primeira mulher nas Américas a chegar ao poder seguindo os passos de seu pai, cujo mandato foi marcado por uma série de denúncias de violações de direitos humanos.

Do outro lado está Castillo, que, se obtiver sucesso, será o primeiro presidente peruano sem vínculos com as elites políticas, econômicas e culturais. Sindicalista e professor do ensino médio, ele ficou conhecido nacionalmente ao liderar greves de docentes, a mais famosa delas em 2017. Ele defende maiores salários aos empregados do setor da educação, tem um discurso anticorrupção e propõe dissolver o Tribunal Constitucional e a Constituição de 1993 -segundo ele, os responsáveis por permitir práticas irregulares.

O vencedor do pleito deve assumir a Presidência do Peru em 28 de julho. O mandatário ou mandatária precisará assumir as rédeas de um país em crise que já teve quatro líderes diferentes desde 2018.

QUATRO PRESIDENTES

Pedro Pablo Kuczynski, conhecido como PPK, renunciou naquele ano acusando a oposição de criar um "clima ingovernável". Seu sucessor, Martín Vizcarra, foi afastado em novembro de 2020 após enfrentar dois processos de impeachment, sob a acusação de recebimento de propina, o que o enquadraria na categoria de "incapacidade moral", impedindo sua continuidade no cargo.

Na sequência, assumiu, por apenas seis dias, o congressista Manuel Merino de Lama, que renunciou depois dos episódios de violência que vieram na esteira da crise institucional. O atual líder do país, Francisco Sagasti, assumiu o governo interinamente, e deve permanecer no cargo até a transição para Keiko ou Castillo.

Ambos os candidatos prometeram soluções muito diferentes para resgatar o Peru da estagnação econômica. Keiko, se eleita, pretende seguir o modelo de livre mercado para tentar manter a estabilidade no segundo maior produtor de cobre do mundo. Castillo quer, por meio da reforma constitucional, fortalecer o papel do Estado, obter uma parcela maior dos lucros das mineradoras e nacionalizar indústrias essenciais.

Para os analistas políticos, quem quer que seja eleito terá um mandato enfraquecido devido à polarização no Peru, e enfrentará um Congresso fragmentado, sem nenhum partido detendo a maioria, potencialmente atrasando quaisquer reformas importantes.

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