Uma comunidade tikúna na Amazônia peruana considera deixar o país para se integrar ao território brasileiro. A decisão drástica responde ao abandono do Estado peruano e ao avanço da criminalidade na região fronteiriça.
O povoado de Bellavista Callarú, localizado no distrito de Yavarí, na província de Mariscal Ramón Castilla, emitiu um ultimato ao Estado peruano em janeiro de 2026. As lideranças indígenas estabeleceram um prazo de 30 dias para que o governo atenda às demandas urgentes da população.
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Caso contrário, avaliam a possibilidade de anexação ao Brasil.
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Desiderio Flores Ayambo, líder da comunidade, afirmou ao jornal peruano La Región: "Se não houver resposta concreta, analisaremos alternativas drásticas, incluindo nos tornarmos parte do Brasil". A declaração expõe a gravidade da situação enfrentada pelos tikúnas naquela região amazônica.
Violência e ausência estatal
A comunidade enfrenta múltiplos problemas que resultam da falta de presença governamental. A ausência de forças policiais e judiciais permitiu que o narcotráfico e o crime organizado se instalassem na região.
Os moradores convivem com assassinatos, extorsões, ameaças e contratação de matadores de aluguel.
Segundo denúncias publicadas pelo jornal La Región, organizações criminosas transnacionais operam com total liberdade no território.
Autoridades locais e líderes indígenas vivem sob risco permanente. A situação de insegurança se agravou nos últimos anos, sem resposta efetiva do Estado peruano.
Carências básicas
Além da violência, Bellavista Callarú sofre com a ausência de serviços essenciais:
- Falta de atendimento médico adequado e infraestrutura de saúde;
- Sistema educacional deficiente e inadequado às necessidades locais;
- Inexistência de presença policial e judicial regular;
- Abandono da infraestrutura básica pela administração nacional.
A desconexão com o Estado peruano se manifesta até no aspecto econômico.
O sol, moeda oficial do Peru, foi substituído por reais brasileiros e pesos colombianos nas transações comerciais locais. Essa substituição monetária reflete a perda de integração real e simbólica com o país.
Os tikúnas na tríplice fronteira
Os tikúnas constituem o maior povo indígena do Brasil, segundo o Censo de 2022 do IBGE.
A etnia se distribui por três países: Brasil, Peru e Colômbia. A presença na região fronteiriça facilita a mobilidade entre os territórios nacionais e fortalece os laços culturais que transcendem as divisões políticas.
A comunidade de Bellavista Callarú reivindica há mais de dois anos a criação oficial do distrito. O processo está parado no Ministério de Relações Exteriores do Peru, apesar de a população cumprir todos os requisitos legais.
O número de habitantes supera o de outros distritos criados recentemente na mesma região.
Impacto geopolítico
O jornal peruano La República alertou para as consequências de uma eventual anexação pelo Brasil. O país enfrentaria uma nova perda territorial significativa, com impacto geopolítico relevante.
Mais que isso, a situação evidenciaria o abandono prolongado das zonas fronteiriças pelo Estado peruano.
A criação do distrito de Bellavista Callarú não responde a interesses políticos, segundo enfatizou Flores Ayambo. A medida representa defesa nacional e proteção dos direitos humanos.
Permitiria a instalação efetiva do Estado, o controle territorial e a implementação de serviços básicos para conter o narcotráfico.
O caso estabeleceria um precedente preocupante sobre a fragilidade da soberania nacional em regiões historicamente esquecidas pelo poder central.
A situação expõe os desafios que países amazônicos enfrentam para garantir presença estatal em áreas remotas de fronteira.
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